Claridade, claridosidade – a irradiação açoriana

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Creio que o regresso à revista Claridade sob o signo de uma qualidade abstracta dela decorrente (claridosidade) poderá entender-se genericamente num duplo sentido: por um lado, um desafio ao aprofundamento da compreensão e do conhecimento daquilo que a revista representa «objectivamente» (colaboradores,  conteúdos,  recepção) em termos sócio-literários,  num tempo histórico e no contexto específico que era o seu; por outro lado,  a oportunidade para uma indagação sobre a intencionalidade, os pressupostos estéticos e também éticos que enformavam o projecto claridoso. Neste último caso, poderemos proceder a uma abordagem daquilo que a Claridade traduz enquanto produto de uma visão do mundo e da literatura por parte dos seus mentores e participantes, do papel que a uns e a outra cabe na sua relação com a sociedade; trata-se aqui de falar de um espírito claridoso, de um modo de ser ou de uma atitude, para referir o termo de Baltasar Lopes em entrevista a Michel Laban (1992: 33).

É certo que as duas questões se entrecruzam  necessariamente e que a Claridade é o resultado de todos esses pressupostos e, ao mesmo tempo, o lugar onde eles se materializam e expandem. Mas a sua separação em planos diferenciados, enquanto opção metodológica, permite analisar uma dimensão a que sou  particularmente sensível: a leitura da Claridade levada a efeito pela geração açoriana de 1940, aquilo que ela significa (como teoria e prática) para os jovens escritores que no arquipélago mais a norte procuravam situar-se no mundo que era o seu  e na literatura que pretendiam construir. Os testemunhos públicos que deles nos ficaram sobre o modo como entendiam a recente experiência literária de Cabo Verde, a divulgação a que procederam dos seus autores na imprensa açoriana (especialmente graças à intervenção de Pedro da Silveira) e o facto mesmo de o caso cabo-verdiano se situar no centro de uma polémica ocorrida logo no início dos anos 50 – tudo  isso atesta a irradiação açoriana da Claridade e ao mesmo tempo define, do lado de cá, os contornos de um pensamento insular, na medida em que se avança como proposta de renovação  literária a experiência  surgida num contexto que, pelas suas condições geográficas e históricas, mais afinidades apresentava em relação aos Açores. E se as diferenças entre os dois arquipélagos não eram de todo escamoteadas, havia algo que se sobreporia a isso e poderia transpor-se para a situação açoriana, exactamente a atitude dos escritores cabo-verdianos perante as suas ilhas e a literatura: o modo como eles se lançaram à descoberta da realidade histórica e sócio-cultural do seu arquipélago e, no mesmo passo, deram corpo a uma expressão estética adequada à configuração literária dessa realidade e mais apta a favorecer a comunicação entre autor e leitor.   

O quadro histórico em que se insere esta geração açoriana é, em primeiro lugar, o do final da segunda  guerra mundial  e o triunfo sobre a irracionalidade, com o que isso criava de expectativas a nível de uma abertura política interna  (que viriam a ser goradas, como se sabe); mas é também o de um imobilismo cultural e  mormaço literário que será objecto de afrontamento directo,  em nome do modernismo e das suas expressões. Alguns textos e empreendimentos da primeira metade da década de 40  manifestam  já  essa «consciência de geração» e as tarefas de que se sente  incumbida, em termos culturais e cívicos, mas sem deixar de apontar as circunstâncias sociais do tempo, e em  particular  a precaridade da instituição literária açoriana (edição, circulação, recepção crítica, etc.). Neste contexto, poderíamos mesmo falar de uma primeira geração, agrupada em torno dos jornais Correio dos Açores e, posteriormente, de A Ilha, e em que se distinguem os nomes de Diogo Ivens, Ruy Galvão de Carvalho e  Armando Côrtes-Rodrigues, este último um dos componentes de Orpheu, ao lado de Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro.

O testemunho mais impressivo sobre essa primeira geração vem-nos do poeta português Egito Gonçalves, que, na sua condição de militar expedicionário, esteve em Ponta Delgada entre 1942 e 1944 e viria a reconhecer mais tarde a importância e o papel desse tempo na sua formação e mesmo no despertar da sua vocação literária: «Tive a sorte de ser “expedido” para S. Miguel onde me foi dado conviver com alguns dos escritores de Ponta Delgada. (…) Sei quanto devo, na minha formação, aos dois anos que ali passei… trouxe dos Açores um acréscimo de cultura, o interesse por coisas que antes desconhecia.» E,  noutro passo, interpretando já o sentido geral desses dois anos, a sua dinâmica e a projecção na sua vida, interrogava-se ainda Egito Gonçalves: “sempre uma incógnita insolúvel me perturbou: se os acasos da sorte não me tivessem levado para Ponta Delgada, o que teria sido? Como poderia a literatura ter surgido, se surgisse?”(2001: 9).

Tudo isto para dizer que os jovens que se revelam na segunda metade da década de 40 beneficiavam de um trabalho anterior que, de certa forma, lhes preparara o terreno sem, contudo, eliminar constrangimentos e obstáculos vários.  Só mais tarde (et pour cause) alguns testemunhos darão conta de modo mais específico do ambiente de Ponta Delgada nesses anos e das condições em que se desenvolveu o esforço de renovação cultural e do gosto público. 

Numa entrada do seu diário, a 15 de Fevereiro de 1998, Fernando Aires dá-nos conta dos propósitos da sua  geração e dos constrangimentos cívicos a que estava sujeita:

“A rever fotografias de há quase cinquenta anos. (…) É o grupo fundador do Círculo Literário Antero de Quental que, pelos anos 40 (mais precisamente, 46), se arvorou em mentor do movimento modernista a introduzir na Ilha e se destinava, por definição, a acabar com o conservantismo que estagnava as letras açorianas. (…) Naquele tempo vivia-se no Estado Novo. O que cheirava a novidade, cheirava a subversão, que era sinónimo de comunismo.” (2015: 654)

 

Criado no âmbito das aulas de Literatura Portuguesa, no então Liceu Nacional Antero de Quental, por um grupo de (muito)  jovens estudantes  e tendo recebido o apoio de alguns professores e mesmo de escritores da geração anterior, o Círculo Literário Antero de Quental (CLAQ) foi, de facto, um dos pólos de dinamização cultural na cidade (conferências, recitais  de poesia, intervenção escrita na imprensa).

Um dos seus mais destacados elementos, o poeta e crítico Eduíno de Jesus, concedeu em 1987 uma longa entrevista a Álamo de Oliveira, na qual são explicitados os propósitos do grupo: 

“Os nossos objectivos eram, por um lado, acabar com o ostracismo a que estavam votadas nos Açores a literatura e as artes modernas, não obstante o prestígio que tinham nas letras (por se ignorar ou fazendo-se por ignorar a sua obra «modernista») autores como Armando Côrtes‑Rodrigues e Vitorino Nemésio e o contributo dado à modernidade no campo das artes plásticas por Canto da Maia, Domingos Rebelo, Albuquerque Bettencourt, António Dacosta, e, por outro lado, encontrar, pela teoria e na prática a identidade (se a tinha) de uma literatura propriamente açoriana, seguindo o exemplo de Cabo Verde e na peugada de Roberto de Mesquita, Vitorino Nemésio, etc. Não foi fácil. Naquele tempo, a palavra «Modernismo», nos Açores, ainda cheirava a enxofre e pronunciá-la era como anunciar a 8.ª praga do Egito, e quanto a ideias «nativistas», mesmo só no âmbito da Literatura, sustentá-las era concitar a suspeição de antipatriotismo, um pouco como hoje, é certo, mas com a agravante de que, naquela altura, se indistinguiam os conceitos de «pátria» e «Estado Novo», do que resultava as ideias «nativistas» serem tidas por abjurantes do tabeliónico «repúdio do comunismo» e de todas as ideias subversivas.”(Jesus: 1987)

A citação, demasiado longa talvez, permite aprofundar o que em Fernando Aires era dito de forma sucinta e lacunar. Por um lado, o ambiente mental e ideológico, conformista e avesso a sinais de mudança, em nome de uma acomodação política, mas de igual modo avesso a práticas estéticas associadas ao modernismo, fossem  elas no campo da literatura ou no  das artes plásticas; por outro lado, uma proposta de reflexão teórica que, acompanhando a prática literária, indagasse a possibilidade e os termos de uma literatura açoriana.

Em suma, tratava-se de um projecto que se propunha articular as expressões estéticas da modernidade com a reavaliação da tradição açoriana em várias dimensões:  a dimensão prática, textual,  a partir de  Roberto de Mesquita, o simbolista do século XIX  acerca do  qual Nemésio escrevera,  em 1939, ser  «o primeiro poeta que exprime alguma coisa de essencial na condição humana tal como ela se apresenta nas ilhas dos Açores» (Nemésio, 1970: 149); e a dimensão teórica, respeitante  ao enquadramento da literatura açoriana, os seus parâmetros, constantes e modos de ser, um assunto  explicitamente abordado já desde meados do século anterior e que atravessava praticamente o século XX até àquele momento. E é neste contexto que surge referenciado o caso de Cabo Verde, como modelo de um processo a desenvolver nos Açores. Sob um outro ângulo, aquilo  que o depoimento de Eduíno de Jesus configurava era o desenvolvimento de um projecto cultural e literário assente numa dinâmica de interior-exterior, ilha-mundo (para utilizar os termos de um título de Pedro da Silveira), que era, aliás, uma lição também colhida no exemplo de Mesquita, num diálogo atento com outras práticas estéticas externas, não numa atitude de simples importação e imitação, mas de transformação e  incorporação, de acordo com a particular mundividência e as condições do próprio tempo e espaço. Essa abertura ao mundo contrastava, de algum modo, com algumas orientações advogadas durante a década anterior por algumas vozes, no sentido  de  o espaço cultural e literário da imprensa se ocupar (quase) exclusivamente de autores açorianos.

Caberia, no entanto,  a  Pedro da Silveira a mais consistente e duradoura difusão da ideário da Claridade, do mesmo modo que seria ele também o poeta açoriano em cuja obra os pressupostos e os procedimentos discursivos e semânticos dos claridosos deixariam um rasto mais profundo e evidente,  pelo menos numa determinada fase.

A forma como em 1942  descobriu a nova poesia cabo-verdiana, através de Ambiente, de Jorge Barbosa, está contada em vários lugares (cf. Silveira, 1986;  Franco, 1996) e revela um conjunto de pequenos acontecimentos em  rede insular, ao mesmo tempo que  atesta ainda a infindável curiosidade intelectual de Pedro da Silveira, que o levou a aproveitar sempre as ocasiões capazes de lhe abrirem as portas do conhecimento de  diferentes culturas e autores.

No caso concreto, tudo começou com a leitura de uma recensão do santomense Francisco José Tenreiro ao Ambiente, na revista Horizonte, da Faculdade de Letras de Lisboa, dirigida pelo madeirense Joel Serrão e mais tarde pelo açoriano Julião Soares de Azevedo. Uma carta enviada a Jorge Barbosa iria encontrá-lo já no Sal e iniciaria um contacto epistolar traduzido ainda na recepção de um exemplar autografado de  Ambiente. A verdadeira epifania que Jorge Barbosa representa para Pedro da Silveira («O meu primeiro mestre de modernidade e, vá lá, de açorianidade também, foi Jorge Barbosa, com o Ambiente») radica, primeiramente,  na constatação de que a «realidade que ele transmitia, de um Cabo Verde miserável em que as pessoas olhavam o mar como um caminho a transpor, de salvação, tinha muito que ver com a nossa  nos anos de 1930-1940» (Silveira, 1987: 4), mas desemboca, posteriormente, numa outra constatação, a de quão longe andam os escritores açorianos de uma atitude idêntica à que tomaram os cabo-verdianos e, pelo contrário, se entregam a um «bairrismo patrioteiro à Pinheiro Chagas» (1945a: 1), coisa a que já nos anos 20, e em registo irónico,  Nemésio descrevera como os «hinos à terra, no estilo das caravelas e das cruzes de Cristo dos cinzeiros.» (21995: 88).

Acrescente-se a isso o conhecimento, por parte de Pedro da Silveira,  do Comandante João de Deus Lopes da Silva, irmão de Baltasar Lopes, que aportava regularmente aos Açores com o seu navio Nossa Senhora dos Anjos e constituiu um elo decisivo na ligação a Cabo Verde e aos seus escritores (um deles, Manuel Lopes, a residir na ilha do Faial desde 1944); o Comandante Lopes da Silva acabaria por tornar-se também um dos propiciadores da renovação literária açoriana, pelo seu papel aglutinador e também pela revelação da literatura brasileira a essa geração de 40. Em mensagem electrónica de 17.09.2006, Eduíno de Jesus referia-se a esse aspecto,  dando conta das tertúlias com os jovens intelectuais de Ponta Delgada que o Comandante organizava a bordo do seu navio, sempre que por  passava pela ilha de S. Miguel. E Pedro da Silveira, logo nesses tempos, dava conta de ter encontrado na câmara de Lopes da Silva,  a bordo do Nossa Senhora dos Anjos,  «livros de Jorge Amado, um dos seus preferidos, livros sobre África e Cabo Verde e fotografias das Ilhas. Obras dos jovens autores de Cabo Verde.» (Silveira, 1946) Mais tarde, explicitará ainda: «Dos brasileiros das gerações de 22 e de 30, o que conhecemos devemo-lo primeiro a João de Deus Lopes da Silva» (Silveira, 1986: 41), acrescentando, para o seu caso pessoal, a intervenção de Manuel Lopes, que lhe enviava para as Flores as obras brasileiras de que dispunha.

A intervenção do escritor cabo-verdiano durante a sua estadia nos Açores não se limitou, porém,  a esse gesto de companheirismo literário: ele colaborou na imprensa local, expôs no Faial  um conjunto de pinturas suas e foi um dos fundadores do Núcleo Cultural da Horta,  em 1954, ao lado de outras personalidades e intelectuais  da cidade. E em 1950 proferiu na Horta a conferência Os meios pequenos e a cultura (editada no ano seguinte), em que se ocupa dos constrangimentos que afectam os  meios pequenos, dos prejuízos que daí advêm à criação cultural, sobretudo quando, além de pequenos, os meios são igualmente tacanhos.

A verdade é que, em virtude da conjugação de todos estes factores,  a  nova literatura e a cultura de Cabo Verde marcaram presença nas páginas do jornal A Ilha durante cerca de uma década (1945-1954), embora como maior visibilidade nalguns períodos. Poesia, narrativa, recensões críticas (em boa parte  assinadas pelo próprio Pedro da Silveira), ensaios de natureza etnográfica  e sócio-económica – tudo isso proporcionou ao leitor em geral um conhecimento do arquipélago cabo-verdiano e indicou aos escritores açorianos em particular como era possível desenvolver um projecto literário colectivo num espaço com tão poucas condições, «com comunicações precárias com o mundo e, por conseguinte, privado da maioria dos recursos culturais dos grandes meios.» (Silveira, 1945a: 1); por via indirecta, a referência  ao isolamento,  à distância e às reduzidas condições materiais constituía um argumento a mais numa estratégia persuasiva  que tinha em mente os destinatários imediatos do seu texto. E quanto a autores, um rastreio rápido encontra aí os nomes de Jorge Barbosa, Manuel Lopes, António Nunes, Pedro Corsino, Amílcar Cabral, Carlos Alberto Monteiro Leite, Aguinaldo Brito Fonseca, Gabriel Mariano, além do próprio Comandante Lopes da Silva (com algumas experiências líricas e narrativas, para lá da entrevista e do ensaio etnográfico).

Será, porém, na análise de alguns textos concretos que podemos encontrar a expressão do ideário claridoso, o modo como Pedro da Silveira lê à distância a poesia cabo-verdiana, tendo sempre em vista a  situação interna açoriana, por vezes indiciada de forma implícita, outras vezes directamente convocada e analisada em termos contrastivos (e em termos  provocatórios mesmo)  com o que ocorria na literatura do arquipélago a sul. 

Um desses textos poderá ser aquele em que procede a uma recensão crítica de Ambiente, de Jorge Barbosa, justamente o texto que inaugura a presença cabo-verdiana nas páginas de A Ilha. Fazendo-a preceder de uma reflexão genérica sobre literatura e condição humana, sobre o homem enquanto ser situado e concreto,  e os diferentes modos como a literatura pode aproximar-se  (ou não)   das suas angústias e perplexidade e das suas aspirações, Pedro da Silveira coloca-nos, mesmo sem referir os termos,  no campo da habitual dicotomia arte pela arte vs arte comprometida, entre uma arte individual e uma arte social, entre os escritores cujas obras atestam uma «humanidade isolada, individual», e aqueles «cuja obra bebe a essência vital que a anima na terra e nos dramas económico-sociais do homem» (Silveira, 1945: 1) – admitindo embora a qualidade literária verificável em qualquer dos domínios, de que os exemplos aduzidos  são, em síntese, Oscar Wilde e Marcel Proust, de um lado, e Graciliano Ramos e Erskine Caldwell, do outro. 

É a partir dessa  moldura teórica que Pedro da Silveira se ocupa da poesia de Jorge Barbosa, realçando que o seu (re)conhecimento externo se deve primordialmente ao facto de ela exprimir o «drama do homem  de Cabo Verde, prisioneiro do mar numas Ilhas pobres, esquecidas totalmente, assoladas pelo flagelo da seca, ansioso por transpor esse mar em busca do pão que precisa para não morrer de fome.» (Silveira, 1945: 1); no decurso da sua recensão, Pedro da Silveira virá a reiterar as afirmações anteriores, especificando as particularidades da obra de Jorge Barbosa, de um lirismo outro, diferente, o dos «destinos presos a uma vida dura, dos anseios frustrados mas intimamente nunca mortos das gentes crioulas, dos seus anseios de vida melhor em terra melhor.» (idem, p. 2). A esta dimensão temática, conteudística, deve acrescentar-se ainda (e por mera  dedução da abertura do texto) um traço discursivo facilitador da comunicação e da relação de empatia entre leitor e autor, ou seja,  «a comunicabilidade do estilo simples  e directo e o terra-a-terra das vidas movimentando-se nas suas obras» (idem, p. 1).

A terminar o seu texto,  a que uma adenda acrescentará ainda informação geral sobre outros escritores cabo-verdianos, Pedro da Silveira apresenta  um quadro contrastivo que revela a intencionalidade autoral e  dá ao texto uma «utilidade» literária e cívica, para lá da simples divulgação jornalística: «Tomarei ainda da obra de Jorge Barbosa (como da de outros escritores crioulos) um exemplo para os intelectuais açoreanos, abstratamente especados à beira do Gulf Stream, a magicar versos de amores impossíveis, à Soares de Passos, sem olhos para o que os rodeia.» (idem, p.2)

Nos seus diversos artigos sobre a literatura de Cabo Verde, Pedro da Silveira não deixará de acentuar essa vinculação dos escritores ao seu tempo  e espaço, traduzida numa poesia com raízes na terra, num contexto  em que «a realidade é já imperativa, o poeta já não pode furtar-se a ela» (Silveira, 1950: 2), como escreve ao recensear os Poemas  de quem ficou, de Manuel Lopes. Este  último corroborará este modo de ver e ler, numa longa entrevista concedida a Pedro da Silveira, lançando mão da metáfora «ficar os pés no chão», para dar conta do  propósito dos claridosos quanto a uma arte enraizada no seu próprio meio, embebida «do húmus autêntico das nossas ilhas» (F.F.-M, 1950: 2).

A dimensão literária será apenas um dos aspectos a reter da leitura da Claridade e da atenção prestada pelo poeta açoriano à cultura cabo-verdiana em geral. Ele não deixará de referir-se a uma outra componente, a que diz respeito à natureza social,  histórica de Cabo Verde, que diferentes ensaístas ajudam a compreender. Se no texto em que entrevista o Comandante Lopes da Silva (Silveira: 1946: 1), coloca os ensaios de história económico-social de Simão de Barros no mesmo plano de importância dos textos criativos dos principais claridosos,  enquanto factores de conhecimento da realidade de Cabo Verde, mais tarde, ao ocupar-se da nova fase de Claridade, registará que ela «peca por demasiado circunscrita à literatura», lamentando a ausência de «artigos e notas sobre os cruciantes problemas da terra crioula», bem como a ausência de nomes como os de Jaime Figueiredo, João Lopes, António Nunes e Teixeira de Sousa, cuja participação viria valorizar a revista, conferindo-lhe uma configuração mais abrangente (Silveira, 1949: 2)[1].

Na recensão aos Poemas de quem ficou, de Manuel Lopes, deixou-nos Pedro da Silveira uma anotação que nos remete já para o interior da própria poesia, para o impacto inicial de Jorge Barbosa na descoberta do seu caminho poético:

“Lembro os tempos há quatro ou cinco anos atrás, quando me foi possível tomar um  contacto mais directo com a nova Literatura Cabo-verdiana e procurava já encaminhar-me – tão às cegas –  no sentido da açorianidade nalgumas pobres tentativas poéticas. Jorge Barbosa foi então para mim como a luz a indicar-me uma porta no meio da noite. Foi este poeta humaníssimo, com o seu Ambiente, quem me afinou o ouvido para escutar os ruídos da banda de lá – a mão que se estendeu para mim e me levou para lá da porta. E a mesma sensação, com maior ou menor intensidade, tiveram outros do meus companheiros.” (Silveira: 1950: 2)

 

 

Na verdade, uma das vozes que mais repercutem no primeiro livro de Pedro da Silveira, A Ilha e o Mundo (1952), é a de Jorge Barbosa, embora sem descurarmos a presença de Manuel Lopes e António Nunes, que participam  igualmente  nesse diálogo intertextual.

A interpelação directa de Barbosa  no poema 3 da sequência «Êxodo»  é apenas um traço pontual das afinidades que a poesia de Pedro da Silveira manifesta  com a de Jorge Barbosa, facilmente detectáveis na idêntica percepção do «mundo abreviado» da ilha: cercado, preenchido por vidas monótonas e de pequenos acontecimentos, no qual se recorta o perfil vago de figuras humanas divididas entre o apego à terra e o apelo do mundo, finalmente anuladas pelo peso da rotina e «encharcadas de solidão». Num quadro assim,  a irrupção  do grande mundo e dos seus sinais, através do vapor, alterando o ritmo da vivência quotidiana, reveste-se de aspectos festivos e excepcionais («o dia santo de São Vapor») – mas este é também um momento dramático, pois nele se concretizam ou frustram os desejos de partida e a aspiração de uma vida outra, melhor, em fuga às fomes insulares e à reduzida dimensão do espaço.

O poema Ilha, na escassa dimensão dos seus quatro versos, resume a situação insular, nas vertentes histórica, geográfica, individual e colectiva e num registo   que deixa de ser uma simples  expressão localista para tornar-se, em  outro contexto estético, a expressão da mesma condição humana de que falava Nemésio, a respeito   de Mesquita:

 

                      ILHA

Só isto:

            O céu fechado, uma ganhoa

pairando. Mar. E um barco na distância:

olhos de fome a adivinhar-lhe,  à proa,

Califórnias perdidas de abundância.

                                                              (Silveira, 1952: 17)

Este lirismo ganhará uma  notória dimensão social ao longo do livro, com o poeta a assumir-se a voz daqueles que a não têm e a denunciar o passado e o presente, para de seguida anunciar um futuro a haver. Daí, a sua forte «consciência» histórica, a incidência nos seus dramas e contingências, partidas e errâncias pelo mundo (a que um título de extracção bíblica como «Éxodo» confere uma significação punitiva e pungente), mas acentuando a situação de um povo abandonado a meio do Atlântico e submetido aos caprichos da natureza e dos agentes políticos da dominação. Tudo isso, num discurso marcado por forte prosaísmo e por um descritivismo que não raro recorre à enumeração e à acumulação para dar conta da totalidade do mundo representado e de forma tendencialmente objectiva. Esta poesia «desadornada», despojada de artifícios retóricos,  corresponde, afinal, à «comunicabilidade do estilo simples e directo» que Pedro da Silveira assinalara em Jorge Barbosa e é condição para uma escrita «sem mentiras bonitinhas» (Silveira: 1945a: 1), capaz de pôr frente ao leitor e dar-lhe a ver a realidade de que se ocupa

Na sua polémica com Jacinto Soares de Albergaria, Pedro da Silveira afirmou que ninguém pretendia copiar  os escritores cabo-verdianos, mas podia recolher deles um exemplo quanto ao modo de pensar a relação do escritor e da literatura com o seu mundo e o seu tempo:

“O que vamos buscar aos cabo-verdianos, ilhéus como nós e também súbditos de Portugal, é uma como que lição de atitude, uma indicação do caminho a tomar. Apoiados no exemplo dos escritores «claridosos» (e também no de Vitorino Nemésio, no dos escritores das nações das ex-colónias da América, etc.), lançámo-nos também à tarefa de descobrir o nosso arquipélago. Iniciámos a descida do mundo das nuvens à  terra das ilhas, direi.” (Silveira, 1950a: 3)

Essa descida à terra, enquanto rasto da lição claridosa, pode detectar-se a vários níveis no espaço cultural açoriano, nos diferentes modos da sua concretização.

Em primeiro lugar, e como acabámos de ver, no interior do discurso de A Ilha e o Mundo, também  pelo lugar que a oralidade aí ocupa, com o seu ritmo e fonética  próprios, num processo de identificação do poeta com o universo popular, com a narrativa das suas experiências do mundo, que incluem, como no caso de Romance (um título que evidencia já um modelo narrativo oral),  o contacto entre açorianos e  cabo-verdianos a bordo das barcas da baleia.

A valorização da cultura popular levará ainda a  outros caminhos em Pedro da Silveira, ou seja, o da investigação e o da recolha de espécimes da literatura tradicional ainda em circulação nesses tempos, como forma de preservar, pelo menos em forma escrita, um património colectivo; em sentido diverso, a investigação histórica e literária por ele levada a efeito de forma persistente pode ser ainda interpretada como a permanência de uma atitude que, no fundo,  radicava no exemplo recebido de Claridade. Num caso e noutro, investigar era descobrir o passado para compreender o presente e questioná-lo, sabendo que  chão se pisa.

 De igual modo, o extenso e aprofundado labor crítico e ensaístico de natureza histórico-literária realizado por  Eduíno de Jesus (a precisar ainda de uma recolha sistemática) há-de proceder da atitude inicial dos anos 40, a da indagação das condições de existência de uma literatura açoriana, a sua natureza, tendo como ponto de partida o caso cabo-verdiano.

Por via indirecta, a irradiação açoriana de Claridade manifesta-se ainda na descoberta da literatura brasileira, pelo menos de uma parte dela, sendo de ter em conta os testemunhos de alguns escritores desse  grupo de Ponta Delgada sobre o que ela representou também em termos de renovação e orientação na busca de caminhos poéticos pessoais. 

Numa perspectiva mais vasta, é possível pensar a experiência de  Claridade, enquanto processo em que repercute a lição brasileira e que depois se projecta no espaço cultural açoriano, como exemplo de dinâmicas insulares assentes na relação entre o exterior e o interior, em que aquele é apreendido como contributo para uma reflexão sobre este último, abrindo caminho para uma síntese transformadora. Finalmente, o  que isto traduz ainda  é a circulação atlântica de culturas  e a realidade das ilhas como plataformas onde elas se  cruzam e interagem.  

Filinto Elísio e Márcia Souto (Org), Claridosidade. Edição crítica. Lisboa: Rosa de Porcelana Editora, 2017, pp. 153-165.

 

 

 

Referências

AIRES, Fernando (2015), Era Uma Vez o Tempo. Diário. Guimarães, Opera Omnia.

F.F.-M (1950), «Encontro com um escritor caboverdeano: Manuel Lopes», A Ilha, 8 e 15 de Julho. [As iniciais correspondem a Fernando Fisher-Mendonça, um dos vários pseudónimos utilizados por Pedro da Silveira, para evitar problemas com a censura e com os agentes da polícia política].

FRANCO, António Cândido (1996), Exercício sobre o Imaginário Cabo-Verdiano (Simbologia Telúrico-Marítima em Manuel Lopes). Évora, Pendor Editorial.

GONÇALVES, Egito  (2001), depoimento a J.M. Tavares Rebelo, «O poeta que se formou na ‘Universidade de Ponta Delgada’».  Atlântico Expresso, 2 de Julho, p. 9. 

JESUS, Eduíno de (1987), «Eduíno de Jesus em discurso directo». Entrevista a Álamo Oliveira,  Suplemento «Quarto Crescente», n.º 153, jornal A União, 6 de Fevereiro.

LOPES, Baltasar (1992) Entrevista in LABAN, Michel, Cabo Verde. Encontro com escritores. Porto, Fundação Eng. António de Almeida

NEMÉSIO, Vitorino (1970), «O Poeta e o Isolamento: Roberto de Mesquita», Conhecimento de Poesia, 2.ª ed. Lisboa, Editorial Verbo.

___________ (21995) «O Açoriano e os Açores», Sob os Signos de Agora, introdução de José Martins Garcia. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda

SILVEIRA, Pedro da (1945), «Notas sobre Literatura Moderna – A Literatura Caboverdeana e Jorge Barbosa», A Ilha, 14 de Julho.

____________ (1945a),  «Os Poemas de Longe de António Nunes», A Ilha, 3 de Novembro.

____________ (1946), «A Terra e a Gente de Cabo Verde. Pedro da Silveira entrevista o Comandante João de Deus Lopes da Silva, A Ilha, 2 de fevereiro.  

____________ (1949), «Notas de Leitura: Literatura Caboverdeana», A Ilha, 26 de Março.

____________ (1950), «Notas de Leitura – Poemas de quem ficou», A Ilha, 7 de Janeiro.

____________ (1950a), «A Literatura Açoriana ou uma Conferência Infeliz de Jacinto Soares de Albergaria»,  A Ilha, 13 de Maio.

____________ (1952), A Ilha e o Mundo. Lisboa, Centro Bibliográfico.

____________ (1986), «Aqueles anos de 1940 e tal», in ALMEIDA, Onésimo Teotónio, Da Literatura Açoriana – subsídios para um balanço. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, pp. 31-42.  

____________ (1987), «Pedro da Silveira: Às vezes fui intempestivo no que escrevi, mas não estou arrependido». Entrevista a Álamo Oliveira, Suplemento Quarto Crescente, jornal A União, 17 de Julho.

Filinto Elísio e Márcia Souto (Org), Claridosidade. Edição crítica. Lisboa: Rosa de Porcelana Editora, 2017, pp. 153-165.

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[1] A segunda parte do ensaio é preenchida com uma análise de Chiquinho e em que aparentemente há uma resposta à  recensão de Mário Dionísio  ao romance de Baltasar Lopes (Vértice, vol.V, n-º 54, Fevereiro de 1948) e onde  o crítico afirmava que Chiquinho chegava dez anos atrasado. Pedro da Silveira refere que só é possível afirmar isso se o considerarmos no quadro da literatura portuguesa, o que não é o caso: «O facto de Cabo Verde ser uma possessão portuguesa não implica que chamemos literatura portuguesa ao que, depois de Claridade, tem escrito a intelectualidade crioula.»

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Ser ilhéu – e salvar-se pelos livros

 

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Nesse tempo, levantávamo-nos às quatro da manhã, para subirmos do Calhau até ao Curral da Pedra, o centro da freguesia. A camioneta arrancava às cinco horas (ainda não havia  autocarro, que a escolaridade e a comunicação social haviam de fazer chegar lentamente ao vocabulário  do  quotidiano, ao mesmo tempo que relegavam uma parte dele para esse escaninho das velharias  a que os especialistas gostam de chamar arcaísmos). Às nove horas, depois de quarenta quilómetros de ilha e mais  nove de Canal, desembarcávamos, finalmente, na Horta, a cidade em frente.

Esse tempo era o de meados da década de cinquenta no Pico. E a duração da viagem entre a Piedade, no extremo leste da ilha,  e o  Faial, costumo usá-la como medida de referência:  cinco horas dão hoje para chegarmos de Ponta Delgada a Boston. Bem sei: tudo é relativo neste nosso mundo e, na altura,  seria outro o tempo necessário para cobrir a distância entre as ilhas e o continente a  oeste; mesmo assim, na sua dimensão relativamente imperfeita, essa medida serve para mostrar  como os Açores de hoje já não são os dessa década, simultaneamente próxima e remota: afastada já na  folha  dos calendários e no rol das suas dramáticas condições de vida, ela continua presente e íntima no  modo como aprendemos a apreender  o mundo  e a situar-nos nele.

Se eu quiser recuperar dessa época alguns traços que ajudem a traduzir, agora,  uma compreensão da vida e da (minha)  existência insular, aquilo que de imediato me ocorre é a noção de escassez (e esta poderá ser  também uma forma encapotada ou eufemística de nomear a penúria de bens materiais, a  sua redução àqueles mínimos que asseguravam uma vida gizada à custa de expedientes quase diários,  fruto de um engenho aguçado pela necessidade, como a sabedoria popular se aprestava a esclarecer). Na verdade, a consciência da escassez começava talvez por ser a de território sólido em que assentássemos os pés, sempre ameaçados pela presença do mar  e pelas  suas inesperadas e incontroláveis  variações de humor: tudo era pequeno, a começar pelo espaço e pelas terras  que nos tinham saído em sorte (ou azar), mas  isso não impedia que cada deslocação de um sítio a outro da ilha fosse vivida com um sentimento misto de excitação e lonjura, mesmo àqueles que, como a Calheta, ficavam perto da Piedade.  Tudo era pequeno e tudo era distante, para abreviar.  É certo que, na costa norte do Pico, tínhamos em frente a ilha de S. Jorge, uma espécie de sentinela permanente, com as suas escarpas misteriosas, com as suas gentes e vidas mais adivinhadas do que conhecidas; mas isso não anulava de todo o sentimento de que a proximidade era, nesse caso, inseparável da condição de afastamento e distância.

E no entanto… talvez tenha sido isso que me levou a indagar aquilo que se escondia  para lá do espaço circunscrito  das ilhas, a interpretar os sinais que desses mundos nos chegavam: um deles foi um colete axadrezado e em tons de azul, chegado da América, como se fora feito para mim, e sobre o qual suponho ter exercido a minha primeira análise estética, aos cinco anos de idade. Nesse tempo, isto (também) era ser ilhéu. Mas os livros e a palavra impressa foram simultaneamente os grandes sinais do mundo e o veículo  que me conduziu a outros, de variadas configurações, entre o real e o efabulado.

Na família não havia a Odisseia, nem Os Lusíadas ou a Guerra e Paz nem sequer a Bíblia, aqueles  livros que constroem o futuro leitor de longo curso.  Havia, isso sim, uns livros miúdos que  nunca soube de onde vinham, narrativas populares em folhetos de edição barata, a história de Pedro Sem (Que Teve e Já Não Tem), a história de  João de Calais  (que só mais tarde eu  soube que não devia ler-se  como uma forma do verbo calar).

E havia também pequenas brochuras impressas na costa leste dos Estados Unidos, a Rosa do Adro, em quadras que desfiavam uma história de enganos e desenganos, na cantilena do seu ritmo e da sua rima. E havia ainda uma novela açoriana do princípio do século, O Oiro da Califórnia, que dividia os homens em bons e maus: um deles perdia-se no álcool e na solidão da ilha das Flores, no entanto  um irmão chegava da Califórnia para repor a ordem familiar e a do mundo também.

Mas o grande livro da minha infância (depois de começar  a juntar letras) e da primeira adolescência foi outro.

Na loja do senhor Luís Sapateiro vendia-se  quase tudo o que era essencial para uma comunidade de consumos frugais e que, não raro, sobrevivia ainda em regime de troca direta: açúcar, farinha, tecidos, petróleo, sal, botões, cadernos, lápis para ardósias (as pedras xurdeirentas, que obrigavam a, pelo menos,  uma ação de  higiene semanal). À esquerda de quem entrava, um estreito armário de canto, envidraçado, guardava objetos de que perdi o nome e a memória, pois era também aí que se encontrava um romance em tudo estranho e longínquo: o título, John chauffeur russo, e o autor: Max  du Veuzit.  Tudo nele me atraiu e despertou a curiosidade, a diversidade da composição gráfica sobre a capa azul, o mistério de uma palavra escrita que nada parecia  ter em  comum com aquele «chofer» que nos guiava pelas estradas tortuosas  da ilha em camionetas barulhentas e ronceiras; e eu estava ainda longe de saber que um nome outro se escondia por trás desse disfarce autoral.  Nunca tive a coragem de pedir ao senhor Luís que me deixasse ao menos folhear o romance,   e o dinheiro desse tempo não dava para comprar livros. Depois, era já demasiado tarde para correr o risco de um desencanto. E nunca li o romance de Max du Veuzit.  Na sua não-leitura, ele acabou, mesmo assim,  por integrar o conjunto daqueles pequenos textos que me ensinaram a ultrapassar o óbvio e o imediato e a embrenhar-me na realidade outra que a imaginação nos avança e, através da qual, nos dá a ver a complexidade das relações, das interações com que se escreve a realidade primeira que, por vezes, julgamos tão linear.

O tempo trouxe-me a possibilidade de viajar regularmente entre as ilhas, de pisar o seu chão e aos poucos conhecer as suas gentes;  mais tarde, o arquipélago ficou para trás e novos espaços se abriram ao meu olhar e  à minha experiência, nem sempre em circunstâncias  que tenham deixado  à  memória razões para sentir-se bem com os seus arquivos mais secretos. Em todo esse tempo, no entanto, o conhecimento do mundo e do outro e  a descoberta da diferença e do estranho   foram sendo construídos a partir da observação direta e da leitura, a partir do real concreto e das palavras que o dizem. Simultaneamente, a imagem de ilha foi-se revelando  aquela que melhor definia a minha perceção  do mundo, era o modo que eu tinha de construir e situar-me num espaço erguido à medida humana da nossa mão. Ainda antes de  E. F. Schumacher o ter escrito, eu já descobrira que, embora noutra perspetiva,    small is beautiful   e espero não escandalizar  ninguém se disser que, em pleno tempo de guerra,  me senti bastante confortável  nesse mês e meio que passei na ilha de Bolama, próxima do litoral  da Guiné-Bissau, embora não suficientemente distante para evitar os mísseis dos nossos inimigos. E mesmo agora sei  que é sempre a partir da construção imaginária de uma ilha em volta que me movimento e me sinto livre e solto nas cidades que me acolhem e que elegi como minhas.

Depois de catorze anos de andanças e errâncias, regressei aos Açores. As circunstâncias fizeram-me regressar,  será, por certo, o modo mais correto  de dizer as coisas – mas o tempo  tem o dom de esculpir e dar novos contornos à matéria outrora  informe, aparando  as suas linhas dissonantes.  Agora, o  avião pode transportar-me para fora do arquipélago e trazer-me de novo a casa em menos tempo do que aquele que,  ainda no início dos anos setenta,  eu gastava para viajar  de Lisboa ao Pico ou vice-versa. A net faz-me chegar rapidamente os livros e os CD que, através dela própria,  vou descobrindo. Sento-me diante do computador, ligo o skype  e falo com as minhas filhas no retângulo português ou com os meus sobrinhos nos confins do Brasil. Os meus amigos estão por aqui e por ali, em muitos lados,  e já não dependemos da lentidão dos correios para trocarmos ideias e traçarmos   projetos.

Os cosmopolitas esforçados dirão que acabaram as distâncias e a experiência física  do tempo suspenso. A verdade, porém, é que o mar continua ali, como o dinossauro de Augusto Monterroso, e esta ilha que também se tornou  minha não vai além dos seus setecentos e cinquenta  quilómetros quadrados mal medidos, e é a maior. Algumas, menos povoadas e mais pequenas, provocam-me  uma sensação de espaço imenso e íntimo como só pude experimentar  em África; no limite da redução territorial, outras deixam-me uma desolação interior, uma mágoa anónima   que nenhumas  palavras descreverão, e o desejo nada  absurdo de fugir, mesmo para outras ilhas, desde que afastadas do nosso universo próximo, demasiado próximo, por vezes.

Daquelas por onde passo, tento sempre aprofundar o conhecimento das suas gentes e da sua realidade física e  guardar comigo os sinais mais fidedignos de culturas que atestam,  em concreto,  experiências do diverso, também  por nelas se cruzarem o mesmo e o outro, o interior e o exterior, em resultado de serem,  as ilhas, placas giratórias ou encruzilhadas, para socorrer-me do termo de Carl Sagan. Mesmo que isso implique aproveitar uma folga  num Curso de Verão em Tenerife    e meter-me numa camioneta, agora chamada guagua, e fazer os oitenta quilómetros entre Adeje e La Laguna para «visitar»   a Librería Lemus e nela me perder.

E  assim me entendo como ilhéu: um homem sobre  um rochedo, rodeado de mundos, imaginados, concretos, por todos os lados. E sem sentir que deva pedir desculpa por isso, seja a quem for.

Urbano Bettencourt

ELAS

Capa Livro_Mulheres Açorianas

Há, obviamente, os homens que se cruzaram com algumas delas na vida e com elas  partilharam percursos de companheirismo e de solidariedade  ou, em sentido oposto,  se tornaram contrapesos, náufragos a quem foi necessário lançar a mão e resgatar do abismo. Mas o foco das biografias reunidas neste volume está centrado no universo feminino, na vida de um conjunto de  mulheres e no modo como elas enfrentaram os desafios que, em cada momento, a sociedade e a vida lhes colocaram, abrindo caminhos onde, por vezes, surgiam muros aparentemente intransponíveis.

Independentemente das  circunstâncias concretas em que surgiu este projecto e da moldura precisa que rodeou  o seu aparecimento e posterior desenvolvimento, importa determo-nos no resultado final, isto é, o conjunto de biografias  realizadas e proceder à  leitura de algumas das suas linhas de força.

No contacto com  esta obra, uma das primeiras impressões poderá ser a de proximidade, que resulta do conhecimento imediato, por vezes da convivência pessoal, do leitor ou da  leitora com algumas das biografadas. Com efeito, no conjunto das mulheres aqui reunidas encontram-se figuras cuja presença  ao longo do tempo, e  de uma forma ou de outra,  reconhecemos no quotidiano e na sua interacção com a colectividade. Noutros casos, mesmo sem essas marcas directas, há nomes destes que se nos tornaram familiares, no entanto, pela aura de respeitabilidade com que chegaram até nós, conseguida por aquilo que sabíamos da sua  intervenção no  espaço e no contexto social, em prol do bem comum. Finalmente, há ainda nomes que só agora descobrimos,  graças a este livro e à efectiva proximidade entre eles e os respectivos biógrafos. E não se veja nisto qualquer problema. Se «a biografia é uma velha ciência que raro se deu por tal» (V. Nemésio), os métodos de pesquisa, inventariação e  elaboração que a suportam não afastam de todo a possibilidade de uma empatia para com o objecto de que se ocupa, como forma de humanizar um perfil para lá dos elementos históricos e factuais que o configuram.

Das biografias de dezoito mulheres açorianas reunidas nestas  Vidas e do olhar atento que sobre cada uma delas  é lançado, reteremos as diferentes formas de empenhamento pessoal  em diversos campos de acção, no ensino e na educação, na cultura e na assistência social em domínios restritos,  mesmo até  no núcleo específico da vida familiar e naquilo que ele representa em termos de educação, da sua exigente, por vezes penosa, gestão diária de modo a promover a satisfação das necessidades elementares; como reteremos ainda uma sabedoria de vida e a  sua  irradiação sobre o mundo dos outros. São vidas organizadas e preenchidas  à escala do pequeno mundo insular e a essa mesma luz devem ser interpretadas, sem que isto lhes reduza o significado e a relevância enquanto práticas de promoção social (e mesmo o caso particular de Natália Correia deve ser visto ainda como o de uma mulher que sai do remoto e abreviado mundo atlântico para ocupar  fora do seu espaço o lugar que todos lhe reconhecemos); alguns testemunhos recolhidos constituem a prova de como pequenos gestos individuais e localizados ganham um amplo alcance pelas suas  consequências no domínio colectivo.

Para lá disso, de uma pura dimensão individual, por aqui circulam elementos que permitem configurar um determinado tempo insular, precário e de penúria por vezes, mas em que o ensino e a educação eram valorizados como factor de promoção pessoal e social, daí o esforço e as batalhas travadas, nalguns casos, para aceder a um e a outra. Nesta leitura colateral, resulta também a perspectiva dos Açores como encruzilhada, lugar de chegadas e principalmente de partidas para oeste, com as  mulheres e os  homens empurrados pela «fome de pão e de distâncias» (Pedro da Silveira) para as rotas  da emigração – e tudo isto a condicionar, por vezes, o destino individual, os encontros e também os desencontros de algumas vidas.

Se estas Vidas conseguirem, em síntese, aproximar-nos mais destas mulheres, do seu universo pessoal, e revelar-nos uma outra dimensão para lá da superfície e do quotidiano, mesmo daquelas que conhecemos pessoalmente – então elas terão cumprido um dos seus propósitos centrais, o de evitar o silêncio e o esquecimento  e  de, ao mesmo tempo,  relembrar-nos como a vida individual se faz também de pequenos gestos e de sonhos e cuja concretização se projecta, sob diversos modos, no mais vasto mundo colectivo.

U.B.

Prefácio ao livro Vidas Mulheres Açorianas,

coord. de Ângela Furtado-Brum.

Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017

Uma outra “Açorianidade” — um texto esquecido de Nemésio*

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Num texto datado de 1975, Vitorino Nemésio referia as circunstâncias  em que cerca de quarenta anos antes  criara o termo açorianidade: no contexto da leitura de ensaístas espanhóis, entre eles o Pi y Margall  de Las Nacionalidades e Unamuno,  e por decalque de “hispanidade” e “argentinidad”[1]. A importância desse texto (o último da  série de quatro, considerado pelo próprio autor “o mais significativo e denso” e marcado  pela  presença de alguns sinais de zanga[2] ) deriva não apenas do facto de vir a público desvelar as condições particulares de uma génese, mas igualmente do cuidado posto por Nemésio na explicitação do âmbito e dos contornos do conceito de açorianidade, deixando de parte (mas não em absoluto) algum  simbolismo e também “as imagens e o metaforismo” que assinalavam o seu texto de 1932.

Efectivamente, nesse ano, a revista Insula, editada em Ponta Delgada, dedicava o seu número 7-8 (Julho-Agosto)  à comemoração do  V centenário do descobrimento dos Açores e Nemésio aparecia aí com uma breve colaboração intitulada exactamente “Açorianidade”. Este texto, que assinalava a  entrada em circulação do neologismo   e mereceria quase de imediato um  “desenvolvimento prático” por parte  de Luís Ribeiro  (com a sequência  de artigos publicados em 1936  no Correio dos Açores e  mais tarde reunidos em volume[1]), tem constituído  um  ponto de referência no âmbito dos estudos nemesianos, em termos do que poderemos entender como  um “pensamento insular” (arquipelágico, se quisermos lançar pontes a Edouard  Glissant)  que por diversos modos e tempos se vai formalmente estabelecendo  e, no mesmo passo, enforma boa parte da  escrita   ficcional do autor[2].

Ora, acontece que, no decurso da sua investigação da imprensa açoriana da primeira metade do século XX, o Professor Carlos Cordeiro veio a deparar-se com um outro texto de Nemésio também intitulado “Açorianidade”,  publicado no Correio dos Açores de 6 de Setembro desse  mesmo ano de 1932: tratava-se, afinal, de um artigo  transcrito  do número especial do Diário de Notícias, de Lisboa,  comemorativo do…. V centenário do descobrimento dos Açores! Este texto, que  adiante se republica[3], suscita alguns comentários, em primeiro lugar sobre as conexões que, entre a  derivação e a complementaridade, estabelece com o outro originariamente vindo a lume no número de Insula, lançando luz sobre aspectos não aflorados neste último e com isto também procedendo a uma abordagem  sob ângulos diferenciados, a que não serão  alheios o contexto de comunicação e os  leitores visados.

Se a reincidência no mesmo título não deve ser levada à conta de uma eventual distracção, hipótese que as circunstâncias editoriais e o propósito da colaboração ajudam a afastar, o que transparece dessa repetição terá,  então, muito mais a ver com uma manifestação da “impulsividade afirmativa” referida por Nemésio em “Açorianidade” e que o leva a aproveitar a efeméride  e as respectivas celebrações  para trazer  a público  uma reflexão sobre a condição insular açoriana, enquanto realidade cujas origens históricas entroncam directamente nos descobrimentos quatrocentistas. Fugindo àquilo que já uma vez referira como  “os hinos à terra, no estilo das caravelas e das cruzes de Cristo dos cinzeiros”[4], Nemésio prefere falar  da sua “consciência de ilhéu”,  e por isto há-de entender-se o particular modo de ver e sentir o mundo, em íntima relação com  a percepção e a  vivência do espaço (sintomaticamente, a enunciação singular do eu dará lugar ao colectivo nós). Se é  certo que em “Açorianidade”  Nemésio  põe lado a lado  o contributo da história e o da  geografia na formação do homem açoriano[5] e da sua  mundividência, com a reconhecida afirmação de que “a geografia, para nós, vale outro tanto como a história”, não é menos verdade que aí o autor se ocupa muito mais dos aspectos atinentes ao espaço,  à geografia, que ajudaram a moldar e diferenciar esse português de Quatrocentos que deixou a casa histórica peninsular para nunca mais regressar o mesmo (como já escreveu Eduardo Lourenço, que cito de cor).

A história, essa,  estava destinada a “Açorianidade [II]”, onde constitui o núcleo central do discurso, numa espécie de lição expressamente dirigida ao público continental, daí a particular insistência de Nemésio nos diferentes modos e vicissitudes do relacionamento histórico entre Portugal e o território insular. Distanciação, desinteresse, esquecimento — poderão ser termos para designar a realidade dessa relação e que, pelas suas consequências, explicarão em parte o fenómeno da emigração e o seu papel estruturador da sociedade açoriana; neste campo, a interpretação de Nemésio parece-me um pouco benigna, pois deixa fora de consideração questões de sobrevivência  e factores de natureza económica que se situarão na base da fuga açoriana para o Brasil ainda no séc. XIX, em condições tão desumanas e trágicas que só muito remotamente a simples “sedução do mar envolvente” poderia levar a enfrentar (isto sem esquecer, todavia, que Nemésio será o autor açoriano em que mais repercute, literariamente, a emigração para o Brasil).

Num outro domínio de anotações, convém salientar que em “Açorianidade [II]” Antero volta a ser apresentado como o exemplo da inquietação insular (e repare-se como, através da inquietação, subtilmente o texto reafirma a íntima ligação entre espaço e homem), tal como já acontecera em “O Açoriano e os Açores” e mesmo em “Le Mythe de Monsieur Queimado”, em que  Antero passa por ser o único europeu nascido no espaço tão longínquo e deserdado dos Açores (Monsieur Queimado considera-o, porém, “um açoriano infiel”). E, se quisermos entrar pelas ironias da história, não podemos deixar de confrontar o desejo aqui expresso de “uma estação naval e aérea” para os Açores com o que cerca de vinte anos mais tarde o próprio Nemésio escreverá sobre a Base das Lajes em Corsário das Ilhas  ou então em Festa Redonda, onde aquilo que era sonho em 1932 se transformou em lamentação e quase pesadelo nas vozes líricas das “Cantigas ao Campo das Lajes”.

Complementando o outro texto do mesmo ano e com idêntico título, “Açorianidade [II]”  vem ainda alargar o corpus daqueles textos (citados ao longo desta nota) em que Nemésio formula, através de aproximações sucessivas, o seu pensamento insular. Eles exigiriam talvez, para melhor clarificação, um estudo de conjunto que detectasse e sistematizasse as suas linhas de força fundamentais e, numa fase posterior de articulação, permitisse equacionar as relações existentes entre esse campo teórico e a ficção narrativa de Nemésio (já noutro lado referi a existência de algumas ligações, não perigosas, entre “Le Mythe de Monsieur Queimado” e Mau Tempo no Canal).

 

Em momento de conclusão, apetece voltar de novo a Nemésio: “Há-de haver sempre na nossa vida de ilhéus uma mágoa abafada: não podermos gritar aos outros que a nossa singularidade não é dessas, das que desonram pela estultícia, mas a singularidade do isolamento, a reposição do homem no indivíduo e no adâmico, o Jardim das Oliveiras com um mísero e pobre suor”[6]. Apesar da persistente actualidade da citação (ou talvez por causa dela), esta seria decerto uma nota demasiado melancólica para entoar em tempo de centenário; acrescento-lhe por isso uma outra, colhida em Sapateia Açoriana, não como forma de negação, mas mais em jeito de suplemento de optimismo: “a minha vida está velha/ mas eu sou novo até aos dentes”.

 

Urbano Bettencourt

                                                                                            Abril/2000

***

Açorianidade  [II] 

Vitorino Nemésio          

“O descobrimento português dos Açores em 1432 vale como prefácio das grandes devassas marítimas que culminaram no fim do século com a rota da Índia e o achado do Brasil. Portugal, fixado como território da Península, limitara a noção de “aquém e além” ao peristilo  mediterrâneo: ia alargar pelo mar tenebroso os seus limites de água e criar em orlas remotas núcleos de alargamento.

Em si mesmos, os Açores valiam pouco. Talvez significassem a princípio uma possibilidade de rumo português à alta América, tentado pelos Corte Reais, João Fernandes, navegadores meio obscuros como aquele Pero de Barcelos cuja inscrição tumular gastavam os pés dos pescadores na Igreja da Misericórdia da Vila da Praia da Vitória. A lenda, que Chateaubriand se apressou a recolher nos Natchez, descobria um penedo antropomórfico nas solidões do Corvo que parecia apontar nesse sentido. Mas a breve trecho as ilhas remergulharam no silêncio, salvado apenas pela onda das enchentes nas horas de drama telúrico.

Por isso o destino dos Açores me parece ser historicamente um limbo de obscuridade. A sua história interna, própria, sem intromissões de fora parte, desenvolve-se num quadro de pequenas vicissitudes que só alguns dramas, encenados lá, vão quebrando. As ilhas fizeram-se viveiro de experiências políticas exteriores. Para lá foi tentar resistir D. António, e a Restauração  montou ali tardiamente a sua máquina.

Mas a grande página de história insular é o Liberalismo. O português  que se sente novamente europeu lá vai preparar, depois do exílio, a invasão da europeidade — e o Robinson nacional encontra na Terceira a sua ilha. É — di-lo Herculano — “o rochedo da salvação”.

Com efeito, a grande aventura não podia encontrar melhor teatro do que essas ilhas perdidas e  meio dormentes no Atlântico, que  Palmela, obrigado a amplificar tudo por exaltação romanesca e por táctica, chamava os “Estados da Rainha”.

Afora estes dramas, cuja emotividade se destinaria a embeber de aventura o ilhéu preso, permanecendo-lhe até certo ponto como que alheia  e excessiva, a vida açoriana insistia numa mediocridade deliciosa, feita de mar e de lava, e do que o mar e a lava precipitam: sargaços, peixes, piratas, um pouco de enxofre e sismos. Neste círculo se apertava  a vida do açoriano, até que a  sedução do mar envolvente se tornava mais forte do que ele. Vinha a emigração.

Para um país que fosse  senhor dos mares e não  simplesmente o seu primeiro ocupante histórico (uma Inglaterra, uma América do Norte ou mesmo uma Itália inquieta e bastante provida de estaleiros), os Açores seriam uma destas  bases de refresco cheias de idas e vindas, povoadas de um alto frenesim que, a par das nuvens, acrescentaria ao crocitar dos cagarros o roncar dos aviões. Assim, com uma velha canhoneira em estação num dos portos, fazendo no Verão a escala turística das suas cidadezinhas, Portugal tem mantido naquelas solidões uma soberania obscura, indisputada e modesta.

São terras de paz e de esquecimento. Levaram quatrocentos anos para darem à Metrópole o espírito português mais inquieto — Antero de Quental — e mantiveram-se no seu magnífico apartamento, como afloramentos destinados apenas às garras das aves marinhas.

Eram o património dos altos infantes de Avis. O ducado de Viseu e o senhorio da Covilhã aumentavam-se daquelas possessões sem rendimento nem futuro, que davam às vezes aguada às naus da Índia depois que Vasco da Gama foi deixar na Terceira o cadáver do irmão. Melhor do que o túmulo de Paulo, os Açores deviam ter sido a campa solene onde ardessem constantes os lumaréus do mar. Têm, não sei porquê, a configuração de túmulos, e uma imponência a que as nuvens baixas dão uma luz de cripta. Temo que não são terras vivas. Falta-lhes a tal animação que só lhes viria de uma estação naval e aérea — do sonho, enfim, que não está nas nossas cansadas mãos fazer realidade.

E, todavia, lá vivem almas portuguesas das rijas e lá se passa uma comédia humana que tem, pelo menos, a grandeza da solidão.

Soa meio milénio sobre o descobrimento das ilhas e o tempo festeja-se a si  mesmo com alguns dramáticos tremores. A Povoação, onde aportaram os primeiros colonizadores idos da ilha vizinha, rui para se lembrar. Não parece um capricho do destino em reservar aquelas terras para palcos de vida obscura e apesar de tudo inquieta?”

 

NOTAS

[1] Vitorino Nemésio, “Açores: de onde sopram os ventos” in  Açores – actualidade e destino, Comentários de João Afonso, Angra do Heroísmo, Edições Atlântida, 1975.

O livro  reúne quatro artigos publicados no Jornal Novo, de Lisboa, em Setembro desse ano, e transcritos em vários jornais açorianos, entre eles o Diário Insular, onde inicialmente saíram os comentários de João Afonso.

[2] Alusão ao poema “Corsários à Vista”,

[3] Luís Ribeiro, Subsídios para um ensaio sobre a açorianidade, Informação Preambular, Notas e Bibliografia por João Afonso, Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 1964.

[4] Questionado e re-enquadrado por Onésimo Teotónio Almeida em diversas ocasiões, o conceito de Açorianidade tem revelado a sua validade operatória nos trabalhos de José Martins Garcia, António Manuel B. Machado Pires, Heraldo Gregório da Silva, entre outros.

[5] Actualizou-se a ortografia e introduziu-se a indicação numérica para distingui-lo do de Insula, que se designará simplesmente por “Açorianidade”.

[6] Vitorino Nemésio, “O Açoriano e os Açores”, in  Sob os Signos de Agora, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932 (2.ª ed., 1995).

[7]  A tese nemesiana de “uma estrutura autónoma” e de um homo açorensis sem antepassados, com uma história sem Antiguidade, sem Idade Média, sem Renascença nem humanismo, encontra-se em “Le Mythe de Monsieur Queimado”, texto publicado no Bulletin des Etudes Portugaises et de l’Institut Français au Portugal, tomo VII, Coimbra,  décembre, 1940.

Trata-se de uma Conferência proferida em Nice e que merecia uma tradução portuguesa que lhe proporcionasse uma maior divulgação.

 [8] Vitorino Nemésio, “Nota sobre Antero”, in Aventura, n.º 2, Agosto, 1942.

***

*Publicado  em   Vitorino Nemésio.1.º Centenário do Nascimento 1901-2001. Separata da revista  Atlântida, Vol XLVI, 2001. Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura. pp. 321-324..

 

Grotta -arquipélago de escritores

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O reconhecido vulcanólogo Victor Hugo Forjaz assina o texto de apresentação da revista de criação literária grotta, dirigida por Nuno Costa Santos e propriedade de Publiçor/Letras Lavadas Edições (#1#2016).  E tudo bate certo!

Afinal, a missão de um vulcanólogo também é dar nome às coisas, olhar o geo-mundo e as  suas manifestações e colar-lhes o nome que as singulariza e identifica perante nós (no campo social, uma actividade aproximada  talvez consista em   «chamar os bois pelo nome», embora com nuances que não cabe aqui deslindar).  Além disso,  a literatura parte da linguagem e é de palavras que se ocupa Victor Hugo Forjaz, «vulcanólogo no exílio», como se auto-designa. Mais precisamente, da palavra  grota,  nome  atribuído a ribeira, quando esta, a partir de determinada altitude, se transforma num «rego longo, fundo ou muito fundo, abrupto, tenebroso (…) longo e perigoso de saltar.»  – nome dado pelos povoadores que, neste campo, também foram rotuladores, por necessidade de organizar o mundo para que eram atirados.

Ostentando uma grafia arcaizante que reenvia simultaneamente a um tempo originário e à língua italiana, grotta parece assinalar desde logo a sua vinculação a um espaço físico, mas sobretudo cultural (veja-se a inscrição subtitular «arquipélago de escritores»), sem se conter exclusivamente nele,  abrindo caminho para outras geografias, concretizadas, neste caso, pelo dossiê de   poesia irlandesa. A diversidade é, de qualquer modo, uma das marcas deste número 1, tanto a nível de colaboradores, como de géneros e discursos.

Um breve exercício de memória, e apenas referente a revistas de criação literária nos Açores, levar-nos-á a transeatlântico (Companhia das Ilhas, direcção  também de Nuno Costa Santos) e,  mais atrás ainda, a Magma (dirigida por Carlos Alberto Machado a partir do Pico)   e a Neo (uma iniciativa de John Starkey, enquadrada no antigo Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores). Ou seja, há aqui uma persistência  em criar espaços de expressão literária abertos a gerações diversas e a abordagens heterogéneas, e em que diferentes culturas e proveniências linguísticas encontraram local de acolhimento no meio do Atlântico norte. E o levantamento não inclui o suplementarismo  literário que desde os anos 90 recuperou a dinâmica de décadas anteriores, superando-a mesmo nalguns aspectos, muito por esforço e obra  de Vamberto Freitas.

Por mera coincidência temporal, encontrava-me ainda a ler este número de grotta, quando me chegou o mais recente livro de ensaios de João Barrento, A Chama e as Cinzas. O último capítulo ocupa-se precisamente da situação da literatura «em tempos de indigência» (uma expressão que remonta a Hölderlin), a sua in-significação, a sua diluição na configuração global do mundo, num quadro cujas causas hão-de encontrar-se, segundo o autor, numa «existência sem memória» e ainda  na «predominância dos paradigmas economicistas, pragmáticos e vivenciais.», que afastaram do mundo social e cultural «o simbólico e a letra»; ora, um caminho para combater este estado de coisas passa «pela insistência e persistência na manutenção de espaços, nichos institucionais ou não institucionais». Neste sentido, grotta resulta de mais um gesto de teimosia e constitui, à sua maneira,  um nicho de valorização da palavra e da sua natureza simbólica, um espaço de manutenção da memória e da sua projecção num tempo que sendo o nosso pode ser também o futuro. Nicho ou ilha, para melhor contextualizarmos a  metáfora. Mas as ilhas movem-se,  também elas. E nem sempre se deixam ir na corrente.

Antero, leituras

 

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Muito para cá da  sua morte há 125 anos (11.09.1891),  Antero permanece ainda um  enigma que teima em provocar  a nossa perplexidade e em  desafiar a compreensão de uma vida,    sobre a qual tanto as cartas como os sonetos talvez lancem mais sombras do que luz; de outra forma:   a complexidade de uma figura que se ergue já entre os da sua geração como alguém que, estando nela,  a ultrapassa de largo  livra-nos  hoje da tentação de uma abordagem totalizante, antes nos convida à singularidade de leituras pontuais e diversas, capazes de progressivamente restaurarem o perfil de um homem  inquieto (V. Nemésio), no  que isto  pôde significar em termos de questionamento  e inquirição do mundo, a começar pelo íntimo, o dele  próprio – e tudo isso equacionado em palavras.

Daí que Antero se preste, enfim, a uma leitura plural, eventualmente infinita, entre a abordagem literária   e o contributo   histórico  e  factual, entre  a simples glosa  e a apropriação transformadora, entre a demanda filosófica e a política, e cada uma delas será apenas a faceta de aproximação possível a um autor que em si mesmo congregou a complexidade e as contradições do seu  tempo. Desde a leitura anteriana por   Roberto de Mesquita  no sentido (que é também sentimento)  de um irredutível exílio interior (ontológico, dirá Eduardo Lourenço), até à presença de Antero na bagagem literária do republicano  Germano de Melo,  desterrado no interior de Moçambique nos finais do século XIX (Mia Couto, Mulheres de Cinza, 2015), passando pela  investigação brasileira de Vilca Marlene Merízio (Dá ROSAS, ROSAS, a quem sonha rosas, 2013), para citar apenas alguns exemplos de ocasião, o que aí sobressai é ainda a irradiação do enigma anteriano,  a resposta ao continuado desafio  da  sua sombra tutelar.

Foi dedicado  a Antero o último  painel do 26.º Colóquio da Lusofonia,  que, entre 28 de setembro e 2 de outubro de 2016, decorreu em Ponta Delgada, na Ribeira Grande e na Lomba da Maia. Nela participaram José Andrade, João Paulo Constância, Maria João Ruivo e Eduíno de  Jesus, cujos textos se reúnem agora neste livro, proporcionando o seu acesso a um público mais alargado.

Antes do mais, importa salientar aqui a confluência anteriana de duas gerações,  a dos anos 40 do século passado, que tem em Eduíno de Jesus o último representante do seu núcleo duro, e a dos mais novos, para quem, e embora por razões diversas,  Antero é de igual modo  um próximo. E ainda, neste ano em que se completam os 125 anos da morte do poeta, ocorre uma outra efeméride, de certa forma a ele ligada: a criação, em 1946,  do Círculo Literário Antero de Quental por um grupo de alunos do então Liceu da cidade de Ponta Delgada, entre os quis se contava o próprio Eduíno de Jesus. O CLAQ constituiu  nesses anos, sobretudo a partir de 1948, um  importante polo  de dinamização literária e cultural, em termos individuais e coletivos, e sob diversificadas  formas de intervenção.

A projeção da memória anteriana e os modos de o fazer, na pedra ou na página,  a divulgação da obra do poeta e a sua apresentação a leitores jovens, uma indagação ainda sobre os meandros do pensamento filosófico de Antero, eis em síntese os conteúdos do painel anteriormente referido.

O texto de José Andrade centra-se  na «memória de pedra», ou seja, o inventário da toponímia, da  estatuária e monumentos que assinalam a presença de Antero em espaços públicos, numa surpreendente malha  que,  fora dos Açores, vai do sul ao norte de Portugal e atravessa o Atlântico para chegar a várias cidades e estados do Brasil. Naturalmente, é na  cidade natal do poeta que se concentra o número suficiente de elementos para se poder estabelecer um roteiro anteriano, também delineado por José Andrade.

João Paulo Constância ocupa-se do contributo do Instituto Cultural de Ponta Delgada para o aprofundamento da vida e obra de Antero, no domínio editorial propriamente dito e na abertura do seu órgão oficial, a revista Insulana, a quantos nela quiseram dar a conhecer os seus trabalhos sobre o poeta. Neste contexto, a edição de uma  obra como Antero de Quental – subsídios para a sua biografia, de José Bruno Carreiro  (uma obra de fôlego que só um excessivo despojamento levou o seu autor a subintitulá-la de «subsídios»),  bastaria para garantir   ao ICPD um merecido lugar no universo dos estudos anterianos, e isto sem menosprezar outras edições próprias.

Como aproximar  de Antero os leitores de hoje, os leitores jovens que frequentam o ensino secundário, agora que o poeta regressou aos programas da disciplina de  Português? Maria João Ruivo, na sua qualidade de docente, levanta esta e outras questões e avança com algumas propostas de natureza pedagógico-didática, mesmo concedendo que a complexidade não deixa de constituir um óbice a qualquer aproximação ao autor. Por um lado, apresentar Antero no seu  circunstancialismo  insular e na correlativa procura  de outros espaços físicos, o  que se traduziu também num projeto  de existência  assente numa atitude de busca permanente e de interrogação do mundo; por outro lado,  a morte do poeta como o ponto final dessa busca, assinalada nos Sonetos pelos dois textos-limite:  «Ignoto Deo» e «Na mão de Deus».

Em  carta enviada de  Ponta Delgada  a Oliveira Martins (30.05.1887), Antero confessava a sua convicção sobre «a impossibilidade de penetrarmos absolutamente, totalmente até ao fundo do problema da existência», admitindo, no entanto, que neste processo «a humildade do coração» era mais apta do que «o orgulho da inteligência» para uma aproximação à Verdade, para concluir: «Afinal, o que está está bem, o que vai vai bem. A nós o que nos cumpre é descobrir o como e o porquê  deste paradoxo universal das coisas – na certeza de que é um divino paradoxo.»

É a partir daqui e da noção de contradição que Eduíno de Jesus propõe uma abordagem à filosofia de Antero, mesmo admitindo que este é mais um pensador do que um filósofo sistemático, na medida em que é sobretudo «um espírito que questiona mais do que responde» e que responde,  contraditoriamente,  de forma emotiva ou de forma filosófica, através da paixão ou da razão, num processo interno que é ele mesmo consequência da imaginação do poeta.

Para Eduíno de Jesus, é em torno da antítese Determinismo/Liberdade  e  da  sua contradição que se deve proceder a uma indagação da filosofia de Antero, procurando compreender a natureza de cada um dos contrários  e o modo como o poeta tenta conciliá-los.

Dilucidando as formulações e os conceitos-base anterianos, chegados de  proveniências diversas (entre outras, as cartas e os sonetos,  em particular «A ideia (IV)» e  «Ad Amicos»), Eduíno descreve o pensamento filosófico de Antero como um percurso que desemboca na explicação do homem como «o lugar onde  da epifania da liberdade», ainda que imperfeita. O encontro do homem concreto com o «ser absoluto» só se concretiza com o «passo» capaz de ultrapassar «os muros da cadeia» (ou «as grades da prisão», expressão  colhida num outro sintomático poema, «Os cativos») – um passo representado pela Morte, que surge em Antero como uma necessidade metafísica, pois constitui o modo de continuar em frente quando já se esgotou o campo do ideal possível, nas limitadas condições da realidade material, concreta. Transição do ser para o não-ser (que em Antero se aproxima do que na tradição mística se chama «a união da alma com Deus»), a Morte constitui o tema de um conjunto de sonetos, entre eles o intitulado «Na Mão de Deus», cuja interpretação, refere muito justamente Eduíno, não deve ser relegada para uma reconciliação com os valores do seu catolicismo da infância.

Descritos pelo próprio poeta como «espécie de autobiografia de um pensamento e como que as memórias de uma consciência», os Sonetos abrem com «Ignoto Deo» e encerram com «Na Mão de Deus», na sua orgânica original (feita em vida do poeta  e agora felizmente restituída na edição da Livraria Solmar-Artes e Letras, 2016). Se esta disposição é significante (e creio firmemente que é), o  primeiro deles, sintomático da inquietação anteriana,   constituirá  a interrogação sobre a natureza de um Deus ou visão  que está para lá do mundo concreto e, portanto, encoberto, por desvendar, e ponto de partida para uma busca íntima e pessoal; o último representará o remate dessa demanda, a libertação do coração, a transposição das «grades da prisão», a realização da liberdade absoluta, a consecução plena do não-ser.

Em jeito de conclusão, o conjunto de textos aqui reunidos, tão diversos entre si no ângulo de abordagem, representa mais um contributo  para  a aproximação ao universo anteriano, para a compreensão do seu pensamento,  e constitui ainda uma reflexão sobre os  modos  como a sua   figura e a sua obra  puderam ser projetadas junto da comunidade e sobre as possibilidades e os meios de prolongar no futuro essa presença através dos jovens leitores de hoje.

Urbano Bettencourt

(Outubro 2016)

Prefácio que escrevi para  o livro Antero 125 anos depois. Edição da Associação dos Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental, Ponta Delgada, 2016)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagens do Concelho de São Roque do Pico

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Não é um livro recente. Mas  o facto de ir numa segunda edição e, mais do que isso, o reconhecimento da sua qualidade intrínseca justificam alguma atenção a estas  Imagens do Concelho de São  Roque do Pico (2005; org. de José Manuel Martins Gomes e Paula Maria Oliveira Gil; 2,ª ed. revista e aumentada; concepção e arranjos gráficos de  Mário Leal. Câmara Municipal de São Roque).

Em relação a este livro, creio que nos podemos deter, fundamentalmente, em duas ordens de questões: a do próprio livro em si, a sua organização interna, valor representativo e documental, por um lado; as circunstâncias e as condições da sua génese, da sua concepção, por outro lado.

Na origem remota destas Imagens  está, de facto,  uma exposição fotográfica realizada em 2001 pelo Professor José Gomes com uma turma do 7.º ano na Escola Básica Integrada/Secundária de S. Roque. A exposição organizara-se a  partir de fotografias recolhidas pelos alunos junto das famílias e  acabou por suscitar o interesse e  a adesão dos visitantes; o projecto do livro nasceu aí, a ele veio juntar-se a Professora Paula Gil.

Há em tudo isto alguns aspectos que julgo deverem merecer a nossa atenção.Trata-se, em primeiro lugar, de um projecto que, embora tendo nascido na Escola, ultrapassa o seu domínio físico e acaba por envolver a própria comunidade, tornando-a participante ou, sob outra perspectiva, possibilitando-lhe que se reveja numa actividade desenvolvida pela Escola. Este é um aspecto particularmente grato de  referir, por mostrar que “há mais vida para lá… da sala de aula” e que essa vida implica disponibilidade pessoal, tempo, as tais horas que nenhuma burocracia triunfante  saberá ou estará disposta a contabilizar.

Quanto ao livro propriamente dito, é de realçar o seu propósito organizativo que pressupõe já uma metodologia “científica”, digamos assim,  na abordagem do Concelho e da sua realidade histórico-social: a distribuição dos materiais fotográficos por freguesias e/ou núcleos populacionais e de acordo com itens temáticos como locais e eventos, associações, festas e actividades económicas, entre outros, fornece uma uniformidade de critérios que permite, em contrapartida,  uma  perspectiva da diversidade social, económica do próprio Concelho.

Organizado desta forma, recolhendo imagens que vêm já desde o final do século XIX e sobretudo documentam o século XX, este livro proporciona uma visão da passagem do tempo sobre pessoas e lugares e atesta a existência e o desaparecimento de dinâmicas económicas e industriais, de comportamentos individuais  ou colectivos. No seu particular carácter fragmentário e avulso ( próprio do registo fotográfico), estas Imagens constituem, em último caso, uma narrativa histórica, económica e social do Concelho, com abundante matéria de interesse ainda para o antropólogo.

Lendo o livro com atenção, é possível constatar aquilo que o tempo tem vindo a introduzir na nossa vivência colectiva, como é também possível reactivar uma memória pessoal ou social, evocar pessoas que conhecemos e com quem deixámos já de cruzar-nos e confrontar-nos igualmente com a dinâmica dos próprios espaços, pois, tal como as pessoas, eles nascem, crescem e transformam-se. Mas há ainda  um exercício intelectualmente estimulante (e neste sentido o livro tem um inegável sentido de pedagogia cívica e até política) que consiste em ler as fotografias ao pormenor, reparar (verbo barthesiano) nos sinais que  nos enviam do lado de lá desse tempo suspenso que é o delas: o que vestem as pessoas, ou não vestem; o que calçam, ou não calçam; de que modo se colocam em pose frente à câmara ou, no extremo posto, em que lugares e ocasiões foram surpreendidas pelo ruído brusco do disparo. Fotos como a n.º 231 (do grupo de deportados  políticos dos anos 30)  ou a n.º 37, com as vítimas da crise sísmica de 1973 a dormir em barricas, dizem-nos mais do que o suficiente sobre as condições sociais de um tempo de abandono e misérias (e 1973 está ainda ali,  ao virar da esquina) e trazem-nos a memória  da falta de direitos cívicos  e  o aguilhão desse tempo em que os Açores funcionavam como uma espécie de logradoiro político em que a metrópole vinha despejar os indesejados do regime (Nemésio, eufemisticamente, dizia que os Açores serviam como “lugar de repouso para políticos revoltados”).

Este é, na verdade, um contributo valioso para a nossa memória colectiva. E se é verdade que não devemos ficar reféns da memória, também é verdade que sem ela dificilmente poderemos pensar, ou pensar bem, como afirma Harold Bloom.

Urbano Bettencourt

(2005)

 

 

 

 

Um Açoriano, Missionário em Timor -livro de D. Carlos Ximenes Belo

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Num texto datado de 1928, Vitorino Nemésio utilizou a metáfora «viveiro insular» para referir as condições históricas e geográficas em que se formara e desenvolvera  o modo de ser açoriano.[1]

A metáfora está  naturalmente associada a valores semânticos  de experimentação,   laboratório,  e pode entender-se numa dupla vertente.

Na primeira delas, pode ver-se a referência aos Açores enquanto espaço de chegada, lugar de aclimatação, proteção  e desenvolvimento de espécies que aí se recolheram, adaptando-se a novas condições e em virtude disso  diferenciando-se da origem (o que é também uma forma de distanciação); por outro lado, o viveiro está associado a uma acção posterior de transplante  e replantação em novo espaço e contexto.

Esta segunda dimensão do viveiro tem a ver com o momento de afastamento da casa insular e  de dispersão pelo mundo, aspecto a que Nemésio também é particularmente sensível, ao consignar  ao açoriano uma espécie de missão em que se prolongava de algum modo a tarefa  do primeiro momento e se reconhece, de igual modo, o esforço e o espírito empreendedor de quem «civilizou largamente as suas ilhas e ainda teve vagares para ajudar a fazer a terra a alheia, sobretudo o Brasil e a América.».[2]

Ora, é aqui, neste domínio, que penso ser possível enquadrar uma parte importante da história açoriana e de que este livro de D. Carlos Ximenes Belo representa um caso individual, concreto – isto é, a acção missionária da Igreja dos Açores, a sua presença  evangelizadora nos diferentes continentes. É certo que no texto de Nemésio poderá ler-se, de preferência, uma alusão à emigração propriamente dita, cujas motivações (materiais, económicas, se situarão em campo diferenciado (em parte, pelo menos) daqueles que deixaram a sua terra insular em resposta a um chamamento religioso, para cumprirem a missão que sentiram estar-lhes destinada e em que se articulavam a acção evangelizadora e a civilizadora.

Não existe, que eu saiba, uma história geral e sistemática desta componente missionária da Igreja açoriana, embora algumas abordagens pontuais nos possam dar conta do seu peso histórico nos mais diversos espaços, destacando algumas das suas figuras proeminentes.[3] Numa monografia sobre o contributo da ilha do Pico para esse processo, e significativamente intitulada Daqui houve Missionários até aos confins do mundo, o Padre José Carlos (ele próprio um picoense com  presença em Timor[4]) apresentava uma lista de quarenta e seis padres cuja acção missionária começara na segunda metade do século XIX (1869) e na costa leste dos Estados Unidos, junto das comunidades migrantes. A partir de 1931, com a chegada do Padre Jaime Garcia Goulart, que viria a ser eleito o primeiro bispo de Timor (em 1945), seguir-se-iam mais cinco sacerdotes picoenses a exercer o seu múnus sacerdotal neste território.[5]

Um texto informativo, publicado em 2003, por ocasião da participação de D. Carlos Ximenes Belo nas festividades de Santo Cristo  dos Milagres, fazia um inventário mais alargado da presença do clero açoriano em território timorense, particularizando a sua proveniência de outras ilhas como a Terceira, S. Jorge e S. Miguel.[6]

Entre  os padres naturais da ilha Terceira, encontra-se precisamente o Padre Carlos da Rocha Pereira, de que se ocupa este  livro de D. Carlos Ximenes Belo, Um Açoriano, Missionário em Timor.[7]

O livro traça o percurso biográfico de Carlos da Rocha Pereira desde o nascimento na ilha Terceira (1910) até à sua morte em Timor (1994), onde missionou desde 1937, ano em que recebeu a ordenação sacerdotal, após o período de formação (1921-1937) no Seminário de São José, em Macau, que foi também,  e no seu campo específico de formação, uma espécie de viveiro (para usar de novo a metáfora inicial).

Naturalmente, a parte substancial do livro é ocupada com os quase cinquenta anos em que o Padre Carlos R. Pereira exerceu o seu ofício em Timor, mais  concretamente nas Missões de Cova-Lima e de Sobaida (onde se cruzará com o seu conterrâneo terceirense, o Padre Januário Coelho da Silva), mas também  como capelão do Hospital e das prisões de Dili e  ainda como «missionário ambulante», percorrendo o território e cooperando com outros colegas, já depois de ter passado à situação de aposentado (entre  1983 e 1984 aceitaria mesmo ficar encarregado  da Missão de Liquiçá). A informação genérica fornecida pelo autor a propósito das  diferentes circunscrições e missões por que passou o Padre Carlos permite avaliar as condições materiais e religiosas também em que exerceu a sua acção evangelizadora.

A Parte II e a Parte III desta obra são preenchidas fundamentalmente com as crónicas que o Padre Carlos R. Pereira começa a publicar em  1949, na  Seara, o suplemento semanal do Boletim Eclesiástico da Diocese de Dili, criado nesse mesmo ano por D. Jaime Garcia Goulart, e que o Padre Carlos descreve, logo na sua primeira intervenção escrita,  como o «arauto dos nossos trabalhos para estímulo de   muitos outros» (p. 48).

Na verdade, o que ressalta da leitura das crónicas  do Padre Carlos transcritas neste livro é sobretudo a anotação minuciosa das diversas manifestações da vida religiosa, com a preocupação de dar a conhecer o andamento  concreto das  comunidades e a sua vivência da fé, esperando que ao mesmo tempo essa divulgação ajude  a despertar outras vocações, a incentivá-las para o serviço da messe, porque «é vasta a seara, mas os operários são poucos», como concluía na sua primeira crónica, jogando simultaneamente com a alusão bíblica e o título do jornal para que escrevia. As festas dos grandes ciclos religiosos com os seus rituais, a participação dos fiéis nas diferentes práticas materiais e espirituais, as acções de formação cristã, eventos como a visita do Bispo, e mesmo as andanças do Padre Carlos por diferentes Missões e Estações Missionárias, mas também a vida dos Colégios, o progresso da escolarização e os seus resultados pormenorizados em termos de aproveitamento (e insucessos), os trabalhos agrícolas dos alunos nos campos do colégio –  tudo isso nos é dado com precisão e rigor, por vezes recorrendo aos dados estatísticos e conferindo  a estas crónicas um pendor de relatórios cuja função acaba por prolongar-se no tempo, muito para além do momento da sua publicação na Seara.

Efectivamente, o que deste livro decorre é, em primeiro lugar,  o perfil do missionário, o seu empenhamento junto das comunidades que serviu,  a dedicação de homem de Deus junto dos outros homens e o sentido de missão que orientou a sua actividade ao longo de quase meio século em Timor. Mas a verdade é que,  pelo teor concreto e preciso dos elementos registados pelas crónicas do Padre Carlos,  pela informação aí veiculada, elas constituem um documento importante para a história da vida pastoral,  e mesmo cívica, em Timor no tempo de vida do missionário açoriano e nos lugares por onde ele passou. Dizer isto é reconhecer, em resumo, o significado deste livro, o seu contributo para o alargamento do nosso conhecimento pessoal e histórico sobre um espaço geográfico e humano, o de Timor, a que nos ligam laços que se perdem no tempo.

Urbano Bettencourt
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Texto lido na apresentação do livro na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, a  28 de Setembro de 2016, no âmbito do 26.º Colóquio da Lusofonia.

Apresentação na Casa dos Açores do Norte (Porto), a 22 de Outubro de 2016.

Publicado no semanário Atlântico Expresso, de 3 de Outubro de 2016

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NOTAS

[1] Nemésio,  Vitorino (1995), «O Açoriano e os Açores», Sob os Signos de Agora, 2.ª ed., Obras Completas, vol. XIII. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda,  pp. 88-101.

[2] Nemésio, Vitorino (1998), Corsário das Ilhas, 3.ª edição, Obras Completas, Vol. XVI.  Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, p. 51.

[3]Veja-se, por exemplo,  as duas obras de Maria Guiomar Lima, José Vieira Alvernaz – Patriarca das Índias, Arcebispo de Goa e Damão. Angra do Heroísmo: IAC, 2010,    e também  Nascido para Vencer – D. José da Costa Nunes. Macau: Editora Livros do Oriente, 2015. Ou  os trabalhos de Raul Leal Gaião, que ainda no 26.º Colóquio da Lusofonia, terminado ontem, 2 de Outubro, apresentou uma comunicação intitulada «Açorianos em Macau: D. Paulo José Tavares».

[4] Em 1967, o Padre José Carlos (Vieira Simplício) era o director da Seara, de que adiante se falará (veja-se na página 49 o fac simile de um número de Seara).

[5] Apud  Martinho,  Padre Marco, A Vivência da Fé: Expressão da continuidade da Língua Portuguesa na Diáspora Açoriana”. Intervenção na Madalena do Pico, a  27 de outubro de 2012. http://www.adiaspora.com/XI_Aniversario_2012/discurso_marco_martinho.html.  Consultado a 07.09.2016.  A data de 1931 possui  um carácter vagamente indicativo, pois tem em vista a criação da Diocese de Dili em 1940. Antes disso, e enquanto integrado na Diocese de Macau, Timor começara a registar a acção missionária do clero açoriano  já em  finais do século XIX, graças a  D. Manuel Bernardo de Sousa Enes, natural da ilha de S. Jorge e nomeado Bispo de Macau em 1873.

[6] «Santo Cristo para Timor», 12.05. 2003. http://www.azoresglobal.com/canais/noticias/noticia.php?id=2835. Consultado a 07.09.2016.

[7] Belo, D. Carlos Ximenes (2016), Um Açoriano, Missionário em Timor. Edição patrocinada por O Moinho Terrace Café e apoiada pela Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia, S. Miguel, Açores.

La Gomera de Bettencourt

FRANCISCO LEÓN,

“LA GOMERA” es un poema del poeta Urbano de Bettencourt (Isla de Pico. Azores. 1949). Me lo envía otro poeta, Melchor López, con la intención de que lo traduzca y pase a formar parte de una futura reedición de mi libro “El sueño de las islas”, una antología de poemas pertenecientes a escritores no canarios que, a su pasos por estas islas, dejaron unos pocos versos. En este poema, casi una miniatura de cristal biselado, aparece de nuevo la manera en que nosotros y nuestro territorio ha sido soñado y proyectado por la mirada extranjera. Esa imagen de nosotros mismos que no ayuda a comprendernos en la intimidad de nuestras islas. Transcribo el original y doy la versión (muy revisable aún) que ahora se me ocurre.

LA GOMERA

Uma ilha assim, só perfil

e nome

ou lume de farol fugaz,

é um gomo de misterio

na sua casca de cinza

e noite.

Vindo de outros mares a norte,

à distância me quedarei, porém:

nao busco americas nem tenho

Beatriz que me acalente en La Gomera

isla de fuego y viento nos versos

de Pedro García Cabrera.

(In lugares sombras e afectos. Ilustrações de Seixas Peixoto. Figueira da Foz, 2005)

** *

LA GOMERA

Una isla así, perfil tan solo

y nombre

o fuego de farol huidizo,

es un pedazo de misterio

esa corteza suya de grisura

y noche.

Vengo desde otros mares más al norte,

permanezco a distancia, y sin embargo,

no busco américas, ni tengo

Beatriz que me estime en La Gomera

isla de fuego y viento según los versos

de Pedro García Cabrera.

http://lagalaxiaamediodia.tumblr.com/

 

 

 

O exercício crítico de José Martins Garcia: Linguagem e Criação

MAchado Pires

No texto que escreveu como introdução a Exercício da Crítica, José Martins Garcia aproveitou para evocar o seu primeiro livro de crítica literária, precisamente Linguagem e Criação, escrito e publicado ainda em tempo de vigilância geral  e de  policiamento das ideias.

 O breve texto introdutório traz o mesmo título do livro e a indicação de Abril de 1994 como o tempo da sua escrita. A distância de vinte anos sobre a instauração da democracia em Portugal  proporciona a José Martins Garcia um comentário sobre as condições históricas e sociais da  crítica literária nos  tempos de censura, os constrangimentos a que esteve sujeita, de ordem externa e institucional, mas que acabavam  por projetar-se  nos procedimentos de autorregulação interna, no cuidado em evitar determinados termos não admitidos no  inventário lexical do discurso   político dominante. O   texto em causa  contém ainda elementos que nos ajudam a  compreender  o percurso da crítica em Portugal nesse arco de tempo, a  deriva ideológica trazida pelos ventos da liberdade e, num sentido diverso, a sua secundarização ou  quase anulação em termos públicos; paradoxalmente, esse foi um tempo marcado, a nível universitário, pela instabilidade crítica resultante  da diversidade das  metodologias  de aproximação e acesso às obras literárias, apoiadas em suportes teóricos que traduziam, por sua vez, diferentes concepções do seu objecto de análise e estudo.

Ora, ao balizar com duas obras suas  esse período de sensivelmente vinte anos e  enunciar em traços muito  gerais o quadro evolutivo da crítica em Portugal,  José Martins Garcia permite-nos situar devidamente Linguagem e Criação no  contexto dos anos setenta, no plano da teoria literária em vigor e da subsequente actividade crítica. E ao mesmo tempo, nos comentários  que expende já em   concreto sobre  Exercício da Crítica, deixa à consideração  do leitor o reconhecimento de um percurso próprio, também ele submetido às oscilações e derivas metodológicas de abordagem da obra literária. Entre uma prática “centrada em questões linguísticas”  e outra  orientada para o “encontro da voz crítica com o cerne da obra avaliada”[1] vai, de facto, uma distância  que, podendo ser medida em tempo,  deverá ser avaliada sobretudo pelo  evidente  afastamento, dir-se-á mesmo descrença,  do autor em relação às metodologias, a algumas pelo menos, postas em prática nesse livro inicial e também pela diferente atitude perante a obra literária; trata-se de considerá-la já não um simples objecto pronto a submeter-se ao império de grelhas e modelos  previamente selecionados, mas como um universo  a que o crítico deverá adequar os seus instrumentos  de análise, no entendimento desse “indefinível” que em cada obra escapa à pura mecânica dos procedimentos técnicos.

No caso de Linguagem e Criação, o quadro teórico em que se integra a sua prática “centrada em questões linguísticas”   é o do estruturalismo em vigor na década de sessenta, ponto de chegada de um percurso teórico que se desenvolve sobretudo desde as primeiras décadas do século XX. Um percurso que tem como foco  a concepção da obra literária, a sua natureza, e que se constituiu como uma cadeia de atitudes reactivas, de que as mais notórias, a nível europeu, são o formalismo russo e o estruturalismo checo.  Em causa estão, por um lado, a perspetiva romântica da obra literária como manifestação expressiva, confessional, da subjectividade de um autor e, por outro lado, a abordagem  positivista,  que procura no autor a razão da obra, daí a sobrecarga de elementos de natureza biográfica e  histórica  aduzidos  pelo crítico para explicar a obra, ou seja, para justificar a sua génese. O que as diferentes formulações teóricas e escolas promovem é o progressivo desgaste do positivismo, num processo que vai descentrando o autor, cujo lugar vem a ser ocupado pelo texto. “A morte do autor” traduz-se, finalmente, na afirmação de que “a linguagem é o ser da literatura, o seu próprio mundo: a literatura está toda no acto de escrever.”[2] Por aqui se abre caminho a algumas questões e princípios fundamentais:  a diluição da representação mimética da literatura, pois  a linguagem já não é um meio, um instrumento ao serviço de uma realidade que lhe é exterior e anterior; o fechamento do texto sobre si mesmo, sobre a sua trama verbal, justifica uma leitura imanentista, atenta aos seus mecanismo internos de organização, de articulação, às suas estruturas. Sendo a literatura uma “irradiação de que a linguística  é o centro,”[3]  torna-se  possível uma ciência da literatura cujo modelo será o linguístico, no sentido em que, tal como na linguística, também na literatura se podem estabelecer regras gerais de produção e funcionamento do sentido; a crítica literária ocupa-se  do sentido particular de cada obra, através de  processos de  desmontagem,   ordenação, redistribuição. Daqui resulta um trabalho de análise microscópica da linguagem, das  componentes lexicais e frásicas da matéria textual;  a crítica torna-se uma metalinguagem tecnicista e descritiva e, no seu propósito de racionalização e formalização das formas que constituem a literatura, constitui ainda um prolongamento do positivismo que pretendia combater, como afirma Eduardo Prado Coelho;[4] por seu lado, e lançando uma ponte entre os métodos formalistas  e a   filologia  do século XIX, Miguel Garcia-Posada escreve, num registo menos contido e formal,  que eles   “han sido el gran trampolim que esperaban filólogos com irresistible alma de tecnócratas de la literatura para lanzarse de cabeça a las aguas de la crítica literária.”[5]

Em jeito de síntese, poderá afirmar-se que, no mesmo passo em que assinalavam a sua importância no interior dos estudos literários, ao recentrarem a atenção na realidade concreta do texto, da obra, as metodologias formalistas ostentavam os sinais das suas limitações e insuficiências, ao consignarem  à literatura uma existência limitada  ao campo restrito da linguística.

Sabe-se, pelo referido texto introdutório  de Exercício da Crítica, que os textos de Linguagem e Criação foram escritos em 1971 e 1972, destinados a revistas e suplementos  literários; o   adjetivo “destinados” torna-se, neste caso, pertinente, dado que alguns desses textos foram impedidos de ser publicados, enquanto outros o foram, mas truncados pelo “exame prévio”, designação eufemística de “censura”. A sua apresentação  integral em Linguagem e Criação sem qualquer anotação sobre as vicissitudes por que passaram permite pensar numa  estratégia de silêncio que poderia evitar, na medida do possível, a atenção dos censores em relação à obra. Mas o desconhecimento da proveniência dos textos efetivamente publicados[6] impede-nos hoje de comparar a versão integral com a censurada e por aí tentar detetar as (des)razões que motivavam em cada caso a intervenção dos censores (também eles críticos, mas de outra espécie, naquilo que, etimologicamente, o vocábulo significa de “julgamento” e de “juízo”). Porque, sendo uma obra de crítica literária, Linguagem e Criação não deixa de refletir sobre questões gerais, a História Literária e a   crítica (melhor dizendo, sobre “as duas críticas”, para utilizar  o título do ensaio em que Roland Barthes se ocupa da situação francesa neste domínio nos anos sessenta[7]), mas sem perder de vista o contexto temporal e social de “certas latitudes” (expressão do autor).  Situam-se exatamente neste domínio os dois breves capítulos iniciais, “O Autêntico e o Vazio” (pp. 7-11) e “Acerca de História Literária” (pp. 15-18).

O primeiro deles constitui uma espécie de   réplica lançada a “certa crítica”  por um enunciador explicitamente colocado em campo oposto. As duas críticas, afinal. O texto de José Martins Garcia fornece elementos suficientes para detetarmos aí o confronto entre uma crítica tradicional, ideológica e valorativa,  e uma outra,  nova, cujos elementos caracterizadores e processos de trabalho surgem integrados no discurso, judicativo e condenatório, da primeira delas: “os tecnicistas, os desmontadores de textos, os analistas da linguagem” são, na verdade, termos que recobrem modos de actuação próprios da abordagem crítica do estruturalismo.

De resto, o artigo em questão reporta, em boa parte, o discurso dessa crítica institucional, para assinalar (e desmontar) o universo ideológico e a visão do mundo literário que lhe são próprios e denunciar o binarismo autêntico/vazio que, em termos éticos se desdobra no maniqueísmo bom/mau, sabendo-se que o primeiro termo é sempre reclamado como propriedade exclusiva por essa mesma crítica. Se o crítico institucional é já limitado na suas aptidões pela incapacidade de analisar  mesmo uma frase (e aí está de novo o traço linguístico da análise estrutural), embora isso o não impeça  de  pronunciar-se sobre um romance ou um conto, maior se torna essa limitação em virtude, escreve José Martins Garcia, da estreiteza de horizontes que o binarismo proporciona; a prova adequada disso vai buscá-la o autor a um texto de Nietzsche e ao exemplo do burro a  cujo elementar binarismo fónico correspondia uma limitadíssima  visão do mundo. É a vertente cáustica de um discurso  crítico que assomará ainda no último capítulo do livro, dedicado precisamente a Os Clandestinos, de Fernando Namora, e que ganhará outras dimensões e expressão em (quase) teóricos e malditos. Embora em tom menos agreste, a opinião de José Martins Garcia não deixará de acusar a vacuidade e a inépcia da crítica “humanista” que ocupa os circuitos de comunicação para divulgar e promover artefactos escritos que, por vezes, nada terão ver com literatura.

À parte isso, “O Autêntico e o Vazio” é ainda um texto sobre o papel e o relevo da crítica institucional, sobre o lugar de exclusividade  que ela ocupa no espaço público e  sobre o silenciamento a que a nova crítica é submetida “num país cujo clima embolorece as vozes discordantes e onde nem se permite que o discordante faça uma única demonstração dos seus préstimos” (p. 11). É um comentário que parte do particular para o geral, da literatura para o resto,  e assim se permite aludir ao regime de opinião única reinante no país.

De algum modo, são ainda a crítica e alguns mecanismos da instituição literária que estão no centro de “Acerca de História Literária”. José Martins Garcia parte de uma citação de Paul Valéry, que idealizava uma História da Literatura que rasurasse a história dos autores e das suas obras e se ocupasse apenas do Espírito, enquanto produtor e consumidor; essa História poderia mesmo escrever-se sem a referência a um único escritor. Por coincidência, é a mesma citação que Genette aproveita para uma reflexão, de matriz estruturalista, sobre a natureza de uma História que considerasse a literatura como um sistema global coerente e não uma  simples colecção de obras com a sua história individual.[8]

José Martins Garcia aproveita para questionar os próprios termos de Valéry  e referir a tendência positivista que continua a conceder ainda demasiada importância às minúcias biográficas do autor; a visada é mais uma vez a velha crítica e a sua aproximação extrínseca à obra literária. Mas o autor acaba por centrar-se nos mecanismos editoriais e  de circulação das obras, nos de repressão e supressão também, para passar a enumerar determinadas classes de obras que nunca poderão integrar uma História da Literatura, porque nunca acederam ao domínio do público, por razões de ordem vária, desde as socialmente inconvenientes às rejeitadas pelos mecanismos  editoriais,  das esquecidas nas gavetas às destruídas pelo fogo “purificador”  ou mesmo àquelas que não puderam ser escritas porque o mesmo fogo consumiu os seus autores antes do tempo próprio. Em suma, uma História Literária que  deveria ser, mas nunca será, a história das obras que o mundo aniquilou ao não conceder-lhes condições de existência. E que teria, no atualmente do texto, matéria suficiente com que ocupar-se, diz-se ou deixa-se dizer no não-dito do discurso.

Aparentemente, o primeiro texto crítico de Linguagem e Criação, e crítico no sentido em que se ocupa de uma obra particular, corresponde a “Drácula: Ser de Papel”, que tem como pretexto uma edição portuguesa de Drácula, de Bram Stoker. Mas o artigo abre com um excurso teórico centrado na conceção de personagem,  que a expressão apositiva “Ser de Papel”, de proveniência barthesiana, ajuda a antecipar. Trata-se de afirmar a natureza verbal, linguística, da personagem e denunciar a ilusão mimética e  até  o (pouco) sentido de uma crítica “humanística” sempre pronta a falar de algumas personagens como “seres profundamente humanos”; ao mesmo tempo, denuncia-se essa espécie de leitura de reconhecimento cujo objectivo principal consistirá em averiguar como é que cada personagem (e também os eventos ficcionais) corresponde a entidades concretas, como é que “transporta” para o interior do texto literário pessoas do mundo empírico, que aí se veriam retratadas,[9]  Neste contexto, a personagem Drácula  é um bom contra-exemplo, na medida em que a sua existência é função pura e simples das “condições de existência do texto”.

É já num momento adiantado de Linguagem e Criação que encontramos uma referência explícita a metodologias de análise e de aproximação ao texto:

 

A escolha  [do fragmento]   que efectuámos    não pode justificar-se por uma simples leitura, seja esta rápida ou atenta, mas por várias releituras, todas elas tentativas conducentes à  determinação dum passo onde se possam encontrar, em estado embrionário, os processos linguísticos que funcionam como constantes na produção dum autor.[10]

 

Uma fase prévia do labor crítico consiste, pois, na busca de um traço, um “processo linguístico” que, pela sua pertinência e extensão,  possa ser tomado com princípio operatório na produção de sentido. É de uma operação de natureza linguística que aqui se fala e de um trabalho à pequena dimensão sintática ou morfossintática, ao nível da análise microscópica  da língua, seja ela a da estrutura da frase,  a composição do sintagma, um esquema fonológico  ou tão-somente  a de um elemento categorial da língua.  E é este “programa”, com variações e combinatórias, que se aplica, afinal, à  crítica dos textos literários de que o autor se ocupa. Pode pensar-se  na crítica de A Funda (pp. 39-49) e no seu suporte teórico, a definição da categoria “verbo” apresentada no século XVII pela chamada Gramática de Port Royal, e em como a não utilização do verbo em determinados enunciados serve o intuito irónico. Pode pensar-se também no ensaio “A Linguagem de Álvaro Guerra” (pp. 51-66) e na exploração levada a cabo das virtualidades significantes das conjunções coordenativas e, mas, ou. Veja-se também a abordagem de Luuanda (pp. 83-93), aqui na perspetiva puramente linguística de um subsistema que vai alterando as regras do sistema europeu  e dele se vai afastando e que, nesse afastamento,  atesta e estipula uma nova visão do mundo. Atente-se ainda, e finalmente, no texto sobre Os Clandestinos (pp. 164-178), em que a intenção caricatural,  sarcástica, assenta numa base linguística (quase de estatística linguística, poder-se-ia dizer); é  a linguística  a impor a sua lei e os seus modelos, projetando-se até em determinados esquemas, como, por exemplo,   no recurso à representação em caixa (no texto “O Subjacente e a Escrita em Memória”, pp. 67-82).

Não obstante, este rigor da abordagem centrada no próprio texto não recusará, poucos anos depois, um título como Vitorino Nemésio. A Obra e o Homem, que parecia representar uma cedência ao biografismo anteriormente anatematizado.  Pode sempre dizer-se que a componente biográfica, com o contributo das “notas autobiográficas” de Nemésio,  constitui aí parte pouco relevante, ao menos em extensão e profundidade,  e que é muito mais significativa a componente ensaística e crítica, já muito mais fluida e flexível; a verdade é que ao reformular esse livro, ampliando-o em termos de análise, José Martins Garcia lhe alterou o subtítulo,[11] introduzindo um outro, que desloca o sentido para o domínio da criação  e da obra, mas sem abolir os elementos (auto)biográficos que vinham do antecedente.

Talvez possamos ver nisso o  sintoma de um percurso pessoal num contexto temporal que viu sucederem-se, ou no mínimo sobreporem-se, as metodologias críticas e as próprias conceções da literatura. Afinal,  “cada época, cada metodologia, cada crítico se adecuará mejor a unos sistemas textuales sobre otros, se interesará más vitalmente por unos aspectos del sistema, según las afinidades electivas o la necessidad actual científica.”[12]  Em José Martins Garcia é possível constatar  esse movimento, da rigidez analítica, unidimensional, de Linguagem e Criação até uma prática mais flexível e mais plural que os livros posteriores atestam, com o recurso a suportes teóricos mais variados (mesmo sem banir a componente linguística), daí resultando uma compreensão muito mais alargada da obra literária, porque observada a partir de diferentes ângulos.

José Guilherme Merquior sintetiza alguns aspetos da crítica moderna num capítulo intitulado  “A Ilusão Metalinguística.”[13], num jogo óbvio com “a ilusão referencial” que a crítica estruturalista tanto combateu. Aquilo a que assistimos no referido texto introdutório de Exercício da Crítica é já a uma confissão de “desilusão metalinguística” por parte do autor, ao menos nos termos exclusivistas e totalitários em que a metalinguagem era exercida em Linguagem e Criação. Que essa crítica quisesse impor a sua voz única a um tempo que condenava exatamente pelo sentido único da sua voz é que pode parecer paradoxal. E se a crítica não deixa de ser um discurso sobre um discurso, a crítica em liberdade (cívica, mas também teórica) pode abrir-se à pluralidade  dos discursos e dos sentidos da obra.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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_________________, Crítica e Verdade, trad. de Madalena da Cruz Ferreira,  Lisboa: Edições 70, 1978 (Critique et vérité, 1966).

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DOUBROVSKY, Serge, Pourquoi la nouvelle critique – critique et objectivité. Paris:  Mercure de France, 1972.

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___________________, Vitorino Nemésio – à luz do Verbo. Lisboa: Vega, 1989.

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___________________,(quase) teóricos e malditos. Lisboa:  Edições Salamandra, 1999.

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MERQUIOR, José Guilherme, O Fantasma Romântico e outros ensaios. Petrópolis: Ed. Vozes, 1980.

 

NOTAS

[1] J.M.Garcia, Exercício da Crítica, p. 6.

[2] R.Barthes, “Da  Ciência à Literatura”, p. 14

[3] R.Barthes, “Linguística e Literatura”,   p. 9.

[4] E.P.Coelho, Os Universos da Crítica,  p. 216.

[5] M.Garcia-Posada, El Vicio Crítico,  p. 33.

[6] Apenas o ensaio “O subjacente e a escrita em Memória (de Álvaro Guerra)”  traz a indicação da sua publicação,  parcial,  em A Capital (13-12-1972) e na revista Colóquio/Letras, n.º 13,  Maio de 1973.

[7] R.Barthes, “Les Deux Critiques”, pp. 246-251.

[8] Gerard  Genette, “Structuralisme et critique littéraire» pp. 145-170 (para o caso, ver especialmente as páginas 165 e seguintes).

[9] Em (quase) teóricos e malditos José Martins Garcia retoma e desenvolve esta questão no capítulo “Leitura Insular”,  em tom mais jocoso e lançando mão de vários exemplos.  E  conclui que, nos Açores, o único romance capaz de escapar a uma leitura destas é Burra Preta com uma Lágrima, de Álamo Oliveira, cuja personagem principal é exatamente aquela trazida para o título da obra e em que, obviamente, ninguém se sentirá retratado.

[10] J.M.Garcia,  Linguagem e Criação, p. 111.

[11] J.M.Garcia, Vitorino Nemésio – à luz do Verbo.

[12] P. A.de Haro, “La crítica literaria actual: delimitación y definición”,  p. 18

[13] J.G.Merquior, O Fantasma Romântico,  pp. 55-60.

 

(Incluído em AAVV (2016),  Da Literatura e da Cultura. Homenagem a António Machado Pires. Ponta Delgada: Letras Lavadas edições, pp. 471-480.