GF, cronista

Para Lélia Nunes

 e Luiz Antonio de Assis Brasil 

Tempos houve em que ele se chamou Gaspar Frutuoso.

Nascido e criado na ilha de S. Miguel, coube-lhe a missão, que para si tomou, de contar o que das ilhas se sabia. Não apenas dos Açores, mas igualmente de outras ilhas  dispersas pelo grande mar Oceano Ocidental, como  as da Madeira e Porto Santo, a El-Rei de Portugal submetidas, tão perto das Canárias,  pertença de El-Rei de Espanha, e logo ainda  as  do Cabo Verde, povoadas de portugueses.

É verdade, porém, que maior  atenção lhe mereceram as ilhas que eram as da sua naturalidade. Delas traçou o perfil e o recorte, ao mesmo tempo que   assinalava o porfiado  labor dos primeiros que chegaram para dar-lhes um aspecto humano, desbravando-as, ocupando-as. Coube-lhe ainda registar o rol dos infaustos sucessos  que, subvertendo a terra, sepultavam os vivos  sob o manto do silêncio definitivo.

Curador de almas e doutor da Igreja, sabia Frutuoso que tão importante como o pão tirado da terra  é  a palavra memória do passado, que dá sentido à caminhada dos homens,  pela consciência de pertencerem  a um território conquistado ao desconhecido.  Foi ele o cronista da chegada e dos começos. E soube ver como o desterro e o apartamento eram a condição desta nova humanidade insular, a contas com ela própria, com  os seus anjos e demónios,  sem Atlântida, sem antepassados.

Mas,  ao  escrever sobre os povoadores, Gaspar Frutuoso fazia-o  já sobre um tempo havido e no tom desenganado de quem, na degradação dos homens e dos costumes, conseguia   decifrar a letra e a forma do aviso que o Infante lançara do fundo da História: os primeiros povoadores roçarão, os filhos comerão, os netos venderão e os bisnetos fugirão.

Dois séculos mais tarde, ao acompanhar esses bisnetos em fuga, ele há-de chamar-se Gaspar de Fróis.

Agora  doutor  por Coimbra e curador de corpos,  junta à sua dor e esperança as de quantos, no porão e no convés do navio, cruzam o Atlântico com sonhos de Brasil no olhar e piolhos no cabelo. A penúria das ilhas e as promessas do Reino empurram-nos para Oeste, sem supeitarem que, de porto de chegada,  o  Desterro se transformará em  prenúncio de novo desígnio. Alguns não   verão sequer os sinais da terra mal prometida e Gaspar de Fróis intimamente se recrimina de cada vez que não consegue afugentar dos corpos a asa mortal da doença. Inúteis os livros, inútil a ciência perante a imensidão da miséria humana!

No final, quando as máscaras caírem  e o logro do Império se revelar na sua nudez total, eles hão-de lançar-se uma vez mais ao encontro do incerto. Enfrentarão  climas funestos,  desbastarão florestas,  enterrarão  as mãos no solo e com raiva hão-de arrancar-lhe  as raízes  que vencem   a fome. E erguerão a fronte para afirmar  que todos esses trabalhos são nada,  quando comparados ao abandono e à perfídia do Reino.

Um dia,  nas casas térreas com  janelas de guilhotina,  eles verão chegar a bandeira do Divino, ao som de cantorias vindas de um tempo sem fundo. E, alongando o olhar sobre o mar, sonharão com navios intangíveis, em cada viagem naufragados. Porque não há regresso  possível, como bem notara o médico Gaspar de Fróis, cronista da partida,  ao assinalar-lhes a inquietação como doença  e a errância  como destino.

 (Que paisagem apagarás. Ponta   Delgada, Publiçor, 2010)

 Nota:

Gaspar Frutuoso (1522-1591). Nasceu em Ponta Delgada e frequentou a Universidade de Salamanca, onde se terá doutorado  em Teologia. Autor de Saudades da Terra, crónica que aborda os arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde na perspectiva de um espaço único atlântico.

Gaspar de Fróis. Personagem de  Um quarto de légua em quadro, do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, romance que tematiza a viagem dos “cazaes “ das ilhas para o sul do Brasil, em meados do século XVIII.

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