A Memória da Água-Viva (1978-1980)

MAVA revista A Memória da Água-Viva  foi um projecto nascido da reflexão de um grupo de açorianos  residentes em Lisboa. Uma boa parte deles estudava lá, outros estudavam e trabalhavam (era o meu caso), outros ainda (militantes de esquerda) tinham sido obrigados a sair, melhor dizendo, tinham sido expulsos dos Açores na sequência dos conflitos políticos de 1974  e 1975.

A  partir de 1976 começa a fazer-se sentir a necessidade e a importância de um «meio» de aproximação e aglutinação dessas pessoas dispersas por Lisboa e que transformasse em mais-valia colectiva aquilo que era a componente individual de cada um. Para dar forma concreta a isso criou-se o Grupo de Intervenção Cultural Açoriano, constituído como Pró-Delegação em Lisboa da Cooperativa Semente (dos Açores) e que posteriormente viria a autonomizar-se.

A MAV surgiu nesse contexto;  por decisão colectiva devidamente assinalada no n.º 0, o Santos Barros e eu fomos designados director e director-adjunto, respectivamente, por sermos  «os primeiros que pensaram» a revista.

A MAV era uma forma de divulgação,  em Lisboa, de uma realidade insular que, salvo raras excepções,  passava ao lado do conhecimento público. E ao mesmo tempo constituía  uma «afirmação positiva» de açorianos no interior de um espaço que não era o deles. Podia dizer-se também que era uma outra frente do «combate» político-cultural que se travava no arquipélago e prolongava o espírito crítico que marcara a intervenção de «Glacial» (para referir apenas um dos momentos mais próximos no tempo), embora em circunstâncias já de liberdade de expressão.

Isto explica várias coisas: o facto de a MAV não ser uma revista literária, embora com o tempo esta dimensão tivesse  ganhado um relevo  maior, à medida que o «colectivo» se foi diluindo e a revista foi dependendo cada vez mais da orientação que o Santos Barros e eu lhe íamos dando; o tom fortemente crítico, agreste mesmo, em relação a aspectos da realidade política e social no interior do arquipélago; a abertura do leque de  colaboradores, da geração anterior e da seguinte, alguns dos quais nada tinham a ver com os Açores, ou seja, tornou-se uma espécie de «Glacial +», o que possibilitou uma abrangência espacial da cultura açoriana, dando conta, por exemplo,  do que passava nos Estados Unidos da América (embora também fosse um «Glacial –», em virtude do relativo afastamento de áreas como as artes plásticas).

O sumário do n.º 0  constitui  uma demonstração cabal de tudo isto. Recensões de livros, pelo Santos Barros e por mim, um ensaio sobre o conto açoriano por João de Melo,  textos criativos (de Ivone Chinita e Carlos Faria). Ao lado  disso, um texto sobre a «exploração de mão-de-obra de menores numa autarquia dos Açores» (assinado por a.m., duas iniciais de um conhecido cidadão interventivo na sociedade açoriana); dois textos de Santos Barros,  o primeiro  sobre «as ideias autonomistas nos Açores segundo Faria e Maia»; o segundo traçava  «uma perspectiva histórica da homossexualidade na ilha Terceira», texto que gerou alguns mal-entendidos e suspeições idiotas. Mas esse n.º 0 incluía ainda um texto de José Brites sobre o teatro português nos EUA e um outro de Onésimo Teotónio Almeida, recensão (muito) crítica ao livro de Francis  M Rogers, Portugueses na América – duas presenças que atestavam a concepção da cultura açoriana (e dos seus agentes) como algo que se prolongava nas comunidades emigrantes. O tom da revista estava, efectivamente dado, nesse número inaugural.

O n.º 0 da MAV saiu em Março de 1978 (embora pronto desde 1977, o que já dava conta das dificuldades com que tudo isso era feito), o n.º 6 em Maio de 1980; o n.º 7, e último, publicou-se já em Ponta Delgada, em Outubro de 1980, sob direcção de Emanuel Jorge Botelho e Eduardo Bettencourt Pinto, que tinham acedido a «receber» a revista no arquipélago.

Em tempo de passagem de testemunho e em jeito de balanço, escrevemos no editorial do n.º 6:

«Uma breve estatística dos primeiros seis números da revista: 136 páginas de textos e alguns desenhos; 27 colaboradores literários; 3 colaboradores gráficos; 23 livros de autores açorianos criticados; e poemas, contos, estudos e textos de intervenção que fizeram da MAV uma revista indispensável para quem queira contactar com a vida cultural açoriana dos últimos dois anos, referenciada amiúde nalguma imprensa – a que nos merece respeito – , obrigatoriamente silenciada pela direita da “grande informação e etc.”»

A finalizar, importa dizer que  a MAV terá sido talvez nesses anos a realização de maior visibilidade do GICA, o grupo que lhe deu vida, mas não foi a única, longe disso. Para nos determos apenas no plano editorial, haveria que referir a colecção Garajau, que abriu com um  livro de reflexões e recensões críticas de J. H. Santos Barros,  20 anos de literatura e arte nos Açores  (1977). Depois disso, avançou-se  para a poesia, tendo sido publicados  quatro livros a que o pintor José Lúcio deu o melhor do seu esforço e da sua arte para que ao menos as capas ajudassem a disfarçar a modesta qualidade técnica e gráfica interior; foram eles: S. Jorge-ciclo da esmeralda (de Carlos Faria, 1977), A humidade (de J. H. Santos Barros, 1977), Terra-mote ou a destruição dos búzios  (de Emanuel Jorge Botelho, 1980) e Marinheiro com residência fixa  (de Urbano Bettencourt, 1980).

As  restantes actividades do GICA  levar-nos-iam a outros campos, sobre  os quais já tenho  materiais recolhidos e organizados e à espera de …tempo para passar tudo isso a escrito.

Urbano Bettencourt

(depoimento dado a Lusa de Melo Ponte para a  tese de doutoramento,   Le supplément Glacial A União das Letras e das Artes (1967/1974) et l’affirmation du champ littéraire açorien, apresentada à Université Paris-Sorbonne, em 2010.

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