(AUTO)BIOGRAFIA FRUGAL

Biblioteca Pública 14.03.2015

Sempre que o interrogam (ou ele próprio se interroga) sobre os livros e a escrita, há uma imagem a que ele regressa inevitavelmente: na ponta leste do Pico, a grande janela da casa do Calhau onde um homem se vinha sentar, ao fim da tarde e da vida, a ler os seus livros já marcados pelo tempo.
Em casa desse avô Bettencourt não havia a «Odisseia«, nem «Os Lusíadas», nem a «Guerra e Paz», nem sequer a «Bíblia». Havia, isso sim, uns livros miúdos que ele nunca soube de onde vinham, narrativas populares em folhetos de edição barata, a história de «Pedro Sem (Que Teve e Já Não Tem»), a história de «João de Calais» (que só mais tarde ele soube que não se devia ler como uma forma do verbo «calar»).
E havia também pequenas brochuras impressas na costa leste dos Estados Unidos, a «Rosa do Adro», em quadras que desfiavam uma história de enganos e desenganos com a cantilena do seu ritmo e da sua rima. E havia ainda uma novela do princípio do século, «O Oiro da Califórnia», que dividia os homens em bons e maus: um deles perdia-se no álcool e na solidão da ilha das Flores, mas um irmão chegava da Califórnia para repor a ordem familiar e a do mundo também.
Os livros, a leitura e mesmo a vida ficaram-lhe para sempre ligados a essa imagem de apaziguamento e desprendimento, com o mar ao fundo apelando à fuga e à viagem infinita. Por essa altura, ele ainda não lera «Moby Dick» e não podia saber de uma personagem chamada Ismael, para quem o mar era um refúgio contra a neurastenia e contra o suicídio.
Em casa do avô Machado, ele lia os jornais portugueses da Califórnia e com isso prolongava para oeste um imaginário que, afinal, era de todos, fazendo da América uma espécie de outra ilha do outro lado do Canal.
Essa imagem de mar e errância será, no entanto, sempre incompleta sem a visão dos barcos concretos por entre os quais uma parte da infância se lhe escoou em Santo Amaro, na costa norte do Pico. Este foi seguramente o seu primeiro transplante físico, que lhe deixou a memória dos verões imensos e decorridos ao som dos rumores e ritmos das plainas, das serras e dos martelos, enquanto a rigorosa geometria dos barcos se construía demoradamente. Muito mais tarde, quando tiver de explicar o processo de construção do texto, ele puxará da metáfora «o estaleiro do escritor» para explicar como é que um poema, uma narrativa, se ergue a partir de uma quilha, à qual se vai metodicamente acrescentando o cavername, o tabuado, com precisão e paciência, até se chegar ao momento em que tudo parece corresponder ao desenho imaginado.
Mas há tempo de ilhas, tempo de perdê-las e de ganhar outras. E ele não tem dúvidas em traçar a cartografia pessoal dos sete anos vividos em Angra, do papel central que a cidade ocupa na sua formação cultural e cívica. Porque a Angra dos anos 1963-1970 era uma cidade contraditória, onde tudo se passava e confrontava, entre o conservadorismo entrincheirado e a irreverência das novas formas da cultura pop urbana, entre o imobilismo e a inquietação.
Angra foi um tempo de crescimento exterior e interior, tempo de afectos por vezes desencontrados, tempo de escritas, leituras e amigos, alguns dos quais ficaram para sempre do lado esquerdo do peito (como na canção de Milton Nascimento). Ele leu muito e de forma caótica, e isso evitou-lhe a fidelidade a sistemas e ordens mentais, a literatura ensinou-lhe a precariedade do mundo, das instituições, fê-lo descobrir o carácter humano, demasiado humano, de tudo o que se reporta à vida e tornou-o matéria não moldável, imprópria para arregimentações. Quando, no final de 1970, deixou os Açores e aportou a Setúbal, para uma breve pausa antes de África e da guerra, ele sabia que transportava consigo uma casa interior moldada e pronta a receber aquilo que o mundo tivesse para dar-lhe ou que ele se dispusesse a descobrir no mundo.
O que veio depois disso foi ficando pelos livros, na mentira que eles inventam para falar de coisas acontecidas ou apenas sonhadas.

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[texto que li na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, 14 de Março de 2015, no decurso do Encontro de Gerações, onde se falou de poesia e cada um falou da sua: Leonardo, Renata Correia Botelho, Vasco Pereira da Costa e eu próprio. O texto constitui a versão muito abreviada da primeira parte de um texto longo «in progress». A sessão foi moderada por Leonor Sampaio da Silva. A foto é de Aníbal C. Pires]

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