HÁ LIVROS QUE NOS CHEGAM DO FUTURO

Praça da cançãoBem sei que vou repetir-me, mas não resisto a adaptar a pergunta que em tempos fiz em circunstância idêntica: Celebramos o quê,  quando comemoramos os cinquenta  anos de um livro?
Se a  relação do leitor com um livro é sempre algo de muito pessoal e íntimo, quase secreto mesmo,  a verdade é que um acto como este  ultrapassa o simples domínio individual  para tornar-se uma celebração  colectiva em que se cruzam motivações e representações de ordem  diversa e que, em síntese, traduz  o reconhecimento público do lugar que um livro ocupa no espaço literário e num tempo histórico, sem que isso anule a sua presença efectiva na memória de leitor que é a de cada um de nós.

Praça da Cancão, o livro, conquistou esse lugar graças ao modo como soube exprimir a percepção de um  momento funesto da vida portuguesa e dar  voz a um     sentimento de recusa  do conformismo e da submissão ao estado das coisas. Conseguiu-o, além disso, através de uma dicção muito própria, de um discurso poético adequado ao seu propósito: o de ir «direito ao coração de toda a gente» (p. 33) – pois só nestes termos se assegurava a eficácia comunicativa da mensagem poética na sua dupla função  de denúncia do presente e anúncio de um futuro outro.

Sobre esse ano de 1965 e sobre o contexto histórico mais vasto em que surgiu o livro de Manuel Alegre, dispensarei aqui o comentário, pois esses elementos   estarão demasiado presentes na memória da geração que de imediato o acolheu como livro seu, bem como no entendimento  dos que, vindo depois,  souberam equacionar esse tempo e dentro dele o papel desempenhado por Praça da Canção. Por outro lado,  a introdução preparada por José Carlos de Vasconcelos para esta edição comemorativa apresenta ao eventual leitor  um detalhado   panorama  dos antecedentes da obra, as condições da sua edição e  difusão.  Porque o modo da sua entrada em circulação  é igualmente um dos aspectos peculiares de Praça da  Canção, inseparável das condições políticas e sociais do tempo, da ausência de liberdade, do cerceamento do direito de expressão.

Cada leitor terá, a esse respeito, uma experiência própria e se trago aqui a minha é apenas pelo facto de ela poder tipificar a relação do leitor com algumas obras,  nesses tempo de policiamento das almas. Na verdade,  não tenho uma ideia certa de quando é que Praça da Canção se tornou para mim um livro, enquanto objecto concreto e manuseável, nem mesmo sei se isso terá acontecido  em 1971 ou já em 1972,   em Setúbal, onde conheci um móvel que, por trás de uma fila cerrada de  manuais  escolares, protegia dos   olhares «indiscretos» alguns livros e discos só disponibilizados  a «gente da casa». Mas consigo situar com exactidão  o lugar em que, muito antes,  eu tinha ouvido  pela primeira vez Praça da Canção, num remoto Verão picoense. E  uso o verbo  ouvir, porque o texto chegara-me  oralmente, nem sequer bem declamado, mas isso era coisa de menor importância nesses tempos em que o sentido era (quase)  tudo, muito embora a leveza do verso e o andamento narrativo do «Romance de Pedro Soldado» (pois era esse o  texto) não me tivessem passado  ao lado, com o seu remate incisivo e em jeito  epigramático.

Por ironia (trágica) da história portuguesa, o poema  de Manuel Alegre recuperava daquela forma  o modo primordial de ser da poesia, enquanto  palavra transmitida oralmente,  de boca em boca; e a intervenção musical sobre esse e outros textos por parte de  compositores e cantores devolvia a essa poesia a sua dimensão clássica de canto, que o próprio título do livro já explicitamente convocava.

No «Romance de Pedro Soldado» inscrevia-se, por outro lado, um dos objectos da denúncia poética de  Praça da Canção, a guerra colonial,  talvez o elemento mais dramático de um tempo socialmente bloqueado, lado a lado com a dispersão e  o desenraizamento provocados pela emigração  e pela fuga. Tudo isso perpassa na voz que, de modo ora impositivo, ora  amargo e desencantado, se afirma  em Praça da Canção, concitando os signos e as imagens  de uma pátria aprisionada e reduzida ao silêncio. Mas a denúncia de um país anulado convive com o anúncio e a antevisão de um tempo outro a haver, poeticamente representado em contraponto à denegação e à disforia do presente –  por vezes, em anotações pontuais simbólicas ou mesmo referenciais que a história se encarregaria de  tornar concretas. Sintomaticamente, o livro termina com o poema «Liberdade», afirmação esperançosa para lá de um tempo de ruínas.

Se há livros que nos chegam do futuro, por serem a  expressão de um visionarismo que ultrapassa a opacidade do quotidiano imediato, Praça da Canção é seguramente um deles – pela capacidade de nos revelar, profeticamente,  um  mundo ainda oculto no tempo da enunciação poética e da sua apropriação pelos leitores (em condições muito precárias, como se sabe). O  livro de Manuel Alegre é, no entanto,  muito mais do que a sua circunstância (para trazer  aqui a alusão a Ortega y Gasset): a sua sobrevivência, a sua legibilidade  e a capacidade de comover-nos ainda hoje resultam da qualidade poética de um texto submetido a rigorosa  elaboração discursiva e imagética, resultam também do recurso a procedimentos  poéticos que, em conjunto, estabelecem a linha divisória  entre a arte literária e a simples  proclamação panfletária.

Em  termos gerais,  deve assinalar-se  a convivência  da vertente popular com  a erudita literária, a nível de sistemas métricos e modelos estróficos, com a decorrente diversidade rítmica e melódica, oscilando entre  a gravidade/gravitas do verso longo, de filiação clássica, e a leveza das estruturas de natureza  popular (a quadra e a redondilha), de onde provém igualmente uma forma narrativa como o «romance» e mesmo um conjunto de imagens e elementos discursivos que atestam a proximidade com esse universo popular. Simultaneamente, a poesia de Praça da Canção é,  em boa parte, tocada  pela singeleza ou espontaneidade do lirismo trovadoresco nacional (mas em poesia a espontaneidade é um grande artifício, como se sabe), do qual o poeta recolhe ainda, além de algum léxico específico (trova, amigo, por exemplo), os motivos da separação e da ausência provocadas pela guerra, naturalmente lidos à luz de um diferente  quadro  histórico.

O que aqui se manifesta  é já uma outra coisa, ou seja, a  escrita como memória da literatura.  Não admira por isso que em Praça da Canção se assista à  citação e à reescrita de poetas como Camões, Alexandre O’Neill, Fernando Assis Pacheco ou Álvaro Feijó, para referir apenas alguns, num diálogo textual que se traduz numa reiterada ou mesmo renovada significação à luz da actualidade. Consciência literária e poética, digamos assim, mas também consciência histórica que recupera acontecimentos e figuras do passado e os recontextualiza, investindo-os de outros sentidos  e possibilitando sempre novas leituras, como acontece com a «Carta do Manuelinho de Évora a Miguel de Vasconcelos, ministro do reino por vontade estranha», poema que ganha ainda outra ressonância quando lido neste  ano da (des)graça de 2015; ou como acontece igualmente, embora sob diferente modulação, com a «Canção de Manuel navegador», em que a explícita anotação autoral e biográfica inscreve a viagem, a errância, o expatriamento  como um percurso individual que se ultrapassa a si mesmo para constituir o traço genético  de um desígnio pátrio, colectivo (neste contexto, torna-se emblemática  a metaforização de Fernão Mendes Pinto).

Num tempo de silenciamento, o livro de Manuel Alegre era a praça possível, o lugar  onde tudo isso podia (relativamente) ser cantado, num intuito comunicativo que a cada passo se manifesta,  mediante a instituição  de  interlocutores  que o poeta convoca e interpela. Que hoje possamos, em qualquer praça (literal e não metafórica)  dar voz aos poemas de Praça da Canção é o  sinal de um  tempo que este livro soube antever e ajudou a sonhar e a concretizar.

(Livraria SolMar, Ponta Delgada,  22 de Abril de 2015,
apresentação da edição comemorativa dos 50 anos de Praça da Canção)

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