No centenário de Orpheu – Armando e a imprensa: o caso de Voz do Longe

cortes-rodrigues

Um tema como “Armando e a Imprensa” devia levar inevitavelmente a  uma pesquisa demorada sobre o que foram as relações de Armando Côrtes-Rodrigues (ACR) com a imprensa, a participação do poeta em  jornais e revistas, pelo menos nos que lhe ficavam mais próximos. E isso não apenas na sua qualidade de “colaborador” mais ou menos distanciado e exterior, mas também na outra dimensão, a de agente e participante interno e directo, como no caso da direcção da Insula, cargo que desempenhou a partir de 1934, isto é, na segunda fase da revista.

Mas, fosse aonde fosse que essa eventual pesquisa nos levasse, em termos quantitativos e ainda de continuidade no tempo, importaria sobretudo reter daí o sentido da  relação do autor com a imprensa, que é também por extensão uma relação do escritor com o (seu) público. Esta será, afinal, a razão última dessa presença, que mantém em funcionamento um circuito de comunicação e intensifica o  grau de cumplicidade de um autor com o leitor, do mesmo modo que atesta a  proximidade com o seu tempo e  lugar e a atenção ao mundo em que lhe foi dado viver.

E haveria que considerar ainda, num plano mais específico, a natureza dessa presença escrita, os moldes em que ela se concretiza, os diversos géneros que a corporizam. Há, com efeito, uma variação de grau e sentido comunicativos entre a publicação de um texto literário nas suas diferentes modalidades (e ACR deixou vários nas páginas da Insulana e da Açória, por exemplo) e a publicação de um apontamento impressivo ou cronístico, surgido na margem do quotidiano e provocando o comentário, a reflexão do autor. Neste último caso, a ancoragem no real próximo abre sempre caminho para uma pluralidade de  registos, narrativo, evocativo, rememorativo, em que a livre associação  e o fluir discursivo operam um efeito de maior transparência que permite melhor vislumbrar o perfil do autor, aquilo que constitui o seu modo de ver o mundo e os outros, a maneira de posicionar-se nesse  mesmo mundo. Estaremos, aqui, a aproximar-nos muito mais da figura do autor, entidade cívica e lugar de cruzamento de interesses, gostos e preferências, linhas estéticas e ideológicas.

Como   informação parentética destinada aos seus leitores,  Voz do Longe[1] traz, em cada um dos  seus dois volumes, a seguinte rubrica: “Palestras escritas para serem proferidas no Emissor Regional dos Açores”. Nas “Palavras Prévias”  que antecedem o Volume I, João Bernardo de Oliveira Rodrigues especifica: “…crónicas que, entre 1961 e 1966, redigiu para serem proferidas no Emissor Regional deste Arquipélago e a seguir publicadas no quotidiano de Ponta Delgada “Diário dos Açores” (Vol. I, p. VII).

As duas proposições suscitam algumas questões prévias à leitura dos textos de ACR. Por um lado, remetem para o seu veículo imediato de divulgação, a rádio, o que implicaria talvez alargar para “Armando e a Comunicação Social” o tema genérico desta aproximação a ACR. Por outro lado, as repercussões que esse facto poderá ter na aceitação ou concepção das tipologias  de escrita a esperar, em função dos códigos e regras  aplicáveis em cada um dos casos; na verdade, “palestra”, na sua acepção de conferência breve e de  conversa ou cavaqueio, com reenvio à oralidade, parecerá  o termo mais adequado ao enquadramento radiofónico dos textos de ACR. No entanto, a sua posterior publicação na imprensa suscitará sempre a questão de saber até que ponto a versão definitiva, impressa, corresponde fielmente à sua versão oral, em dimensão e em apuro verbal, estilístico, ou traduz um posterior trabalho de aperfeiçoamento e expansão e de adequação ao novo suporte de divulgação. Sem entrar em mais pormenores, que só uma consulta de  eventuais registos gravados poderia esclarecer em definitivo,  o que me parece, assim de imediato, é que estes textos atestam por si só um outro tempo da rádio, mais pausado e demorado, menos sujeito às imposições da cronometria interna e à ditadura  das audiências e da  “opinião pública”, a que Camilo Castelo Branco, talvez com alguma sobrecarga de sarcasmo, chamava “uma esfinge… com cabeça de burro”. Ou seja, tenho sérias dúvidas de que alguns textos (ou “os textos”)  de Voz do Longe conseguissem hoje ser admitidos em qualquer espaço da rádio que temos — em virtude da sua extensão, da sua matéria e também em virtude do seu carácter fortemente pessoal e do estilo poético, chamamos-lhe assim; por todos esses aspectos, estes textos destoam do português primário,  mercantil  e burocrático com que nos deparamos por aí.

Abstraindo desses aspectos, concentremo-nos nas crónicas tal como nos chegaram através da sua compilação em Voz do Longe. “Crónicas” não deixa de ser uma designação cómoda, mas que me parece ser a que melhor dá conta da grande parte  dos textos de ACR: os que partem de um breve motivo ou pretexto factual e se desenvolvem lançando mão da reflexão, do comentário, da evocação subjectiva  e da convocação de outros factos afins (sejam eles sociais ou mesmo  textuais). Construídos deste modo, os textos constituem-se como uma deriva muito pessoal, em que o autor vai projectando o seu olhar sobre o mundo envolvente e ao mesmo tempo, de forma mais directa ou mais indirecta, se vai expondo perante o leitor, revelando o seu perfil subjectivo e ideológico, as suas afinidades e mundividências.

Mas nem todos os textos caem sob uma tipologia desta  natureza. Alguns situam-se num domínio da pura narrativa, como os que se acolhem sob o título de “apólogo” (o do “grilo cantador”, por exemplo, transformado numa espécie de desdobramento do poeta, do artista,  uma versão masculina da cigarra cantadeira (ou  do grilo falante, de Pinóquio?);  outros entram no domínio da interpelação de um “tu” ou organizam-se na base de um diálogo ou, no mínimo, de uma fala, como acontece com aqueles em que surge a figura de Custódio  Maria. Esta fluidez tipológica poderá talvez  ser ainda vista como um traço da modernidade formal destas crónicas (e pense-se, por exemplo, naquilo que um autor como António Lobo Antunes recolhe  sob essa designação).

Do ponto de vista da sua génese, podemos dizer, de modo abrangente,  que estas crónicas vão surgindo ao ritmo do calendário, que  o é em vários sentidos: em primeiro lugar, o do tempo no seu sentido cósmico e cívico, o decurso do tempo com as actividades humanas a ele associadas; depois também o calendário religioso, com as festividades e celebrações que marcam o ano. Encontramos, assim, crónicas como “Notas de Outubro” ou “Toadas de Janeiro” ou então “Para a noite de Natal” ou “Memento Homo”, que assinalam precisamente o andamento do tempo civil e a sua marcação religiosa. Outros assuntos, surgem , no entanto, como pretexto da escrita: um texto antigo, um livro que chegou, o Prémio Nobel e a loiça da Vila ou uma narrativa popular, uma personalidade, um acontecimento da vida micaelense (o teatro, a música, por exemplo), a visita a uma exposição de Vieira da Silva, em Paris.

Sob esta diversidade, podemos em síntese surpreender duas facetas ou vertentes de ACR, as mesmas que configuram, aliás, a sua obra poética: por um lado,  o autor erudito e viajado pela literatura e cultura europeias — e seria interessante inventariar a “biblioteca” de Voz do Longe: Rilke, Schiller, Claudel, Valéry, Juan Ramon Jiménez, Cocteau, Lorca , só para referir alguns estrangeiros; por outro lado, o autor arreigado ao chão açoriano, às suas gentes e cultura. Se quiséssemos tipificar a questão, aproveitando elementos das próprias crónicas, diríamos que ACR oscila entre Fernando Pessoa e a Tia Marquinhas Pereira.

De resto, esta vertente popular açoriana, enquanto modo de aproximação ao mundo, encontra-se explicitada em pelo menos dois momentos de referência. Logo numa crónica dedicada a Vitorino Nemésio,  mas em que  evoca ainda Frederico Lopes, Maduro Dias e José da Lata, ACR  acaba por fazer um elogio à Ilha Terceira, “que ainda  hoje conserva, intacto e puro, o perfume secular das suas tradições” (Vol. I, p. 10); ao mesmo tempo,  lamenta o autor  a febre de modernice que noutros sítios despreza tudo isto e “teima em enfraquecer e desnacionalizar a força mais profunda e construtiva da unidade de um Povo e que se chama Tradição” (ibidem). Numa outra crónica sintomaticamente intitulada “Apologia de Angra”, ao evocar os tempos passados nesta cidade no início dos anos vinte, escreve ACR: “Nunca me esqueço de que foi ali que comecei a compreender, por maior evidência, a força prodigiosa da tradição portuguesa, mantida nos usos e nas almas das gentes destas Ilhas” (Vol. II, p. 135).

Os textos de Voz do Longe vão, no seu conjunto, traçando um perfil do autor, como se disse. Mas, não esquecendo a dupla natureza dos seus meios de divulgação, podemos entendê-los também numa dimensão pedagógica, de intervenção junto do público, no sentido de mantê-lo atento a um determinado mundo que tendia a esboroar-se nessa primeira metade dos anos sessenta. O que há ainda a realçar é que este “magistério”, chamemos-lhe assim, se exerce de uma forma discreta e apaziguada, mais pela exemplificação e exposição, por um processo de trazer ao olhar e ao gosto  do público aquilo de que se gosta e em que se crê. Tudo isto sem que deva perder-se de vista a qualidade desta escrita, que não é só a do rigor sintáctico e ortográfico (coisas despiciendas hoje em dia, como a polémica recente a propósito de exames  nacionais de português veio lembrar aos mais distraídos); as crónicas de ACR investem deliberadamente na dimensão estética da linguagem (sem qualquer “pudor” perante os meios de comunicação a que se destinava),  com efeitos no seu ritmo maleável e na elegância que não hesita em variar de registo entre o culto e o popular, entre a frase grave e a de extracção oralizante, entre a anotação factual e o traço impressivo, impressionista mesmo.

Os poetas ou querem ser úteis ou dar prazer  ou ambas as coisas ao mesmo tempo, escreveu Horácio (que cito de cor).  O poeta que em Voz do Longe se exprime em prosa acolhe-se à última parte da frase do poeta latino, ainda na linha da retórica clássica que prescrevia  a obrigação de ensinar deleitando.

Urbano Bettencourt

……………………………………..

(*)Texto apresentado  na Morada da Escrita/Casa Armando Côrtes-Rodrigues (31/5/2007), numa sessão em que participou igualmente o jornalista Gustavo Moura.

[1] Armando Côrtes-Rodrigues, Voz do Longe, Vol I e IIPonta Delgada, Instituto Cultural, 1973-1974.

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