Arquipélago, de Joel Neto: a Ilha longe e perto

Joel netoEm literatura, é possível fixarmo-nos nos postes da rede telegráfica, não vendo os fios que os ligam e lhes dão sentido  e função. A metáfora, vinda do campo das comunicações num tempo muito anterior à internet e ao wireless,  é da autoria de Antonio Rodríguez-Moñino e surge num texto de 1935. Retomada  mais tarde por Gregorio Torres Nebrera também no contexto da reflexão sobre as literaturas regionais em Espanha, ela reporta-se àquelas situações em que podemos falar de autores isolados, de «manifestações literárias», mas não de literatura em sentido restrito, enquanto «sistema de obras ligadas por denominadores comuns» (Candido, 102006: 25).

Em todo o caso, neste momento, a referência não me interessa por essa vertente do campo literário, em que, aliás, dá pano para muitas mangas de variados  feitios e tamanhos.  Prefiro trazê-la para o âmbito individual e considerar que também, por vezes, construímos o nosso abrigo de leitores à sombra da(s) grande(s) obra(s), não ligando a  outros livros, ou mesmo textos, situados entre os postes e que, afinal, contribuem para a compreensão geral de um autor, do sentido da sua escrita.

Há na obra de  Vitorino Nemésio um  texto narrativo a que se tem dado pouca importância, talvez devido à sua natureza híbrida, talvez porque ofuscado pela grandeza solar de Mau Tempo no Canal ou pela intensidade da restante  matéria  insular que transborda da contística e da crónica  de viagens. Chama-se «Ante-Manhã» e  constitui o texto inicial de Paço do Milhafre (1924), o  primeiro livro  de contos  do autor terceirense: aí, um narrador distanciado, exterior,  acompanha a deambulação de uma personagem através da madrugada lisboeta,   ao longo de algumas das suas ruas e dos seus espaços emblemáticos. Sem direito a nome próprio, identificada apenas pela profissão (repórter), essa personagem vai-nos revelando  «a vida dos noitívagos» (Nemésio, 2002: 39), numa efectiva reportagem que inventaria e descreve aqueles que asseguram o funcionamento da normalidade citadina. Mas  o relato acaba por centrar-se na  dimensão grotesca dos outros habitantes da noite, os deslocados do seu espaço e da sociedade, os retidos na margem, os degredados, enfim, o «dejecto humano que a capital repudia, feroz e torva na sua bacanal das horas altas.» (idem: 42).  A modulação  expressionista, demarcando  a cores negras a vida social e recortando  a rigor o traço das  figuras humanas, contribui para uma composição em que sobressai a perspectiva pessimista sobre o espaço urbano, lugar sórdido e propício à  degradação  pessoal e colectiva.

Ora, este pendor negativo ganha novo sentido quando posto em contraste com o  que se passa no   segundo momento  do texto e  na sequência de um inesperado golpe discursivo que recupera a imagem de Lisboa tal como surgia num antigo  sonho juvenil: «intérmina de volúpia para os sentidos, onde se gozasse à doida os doidos prazeres inocentes…»,  (…) um  «feminino Eldorado a que um dia o levaria o destino – oh! vem,  formosa minha! – num  assomo encantado e todo tecido de espanto.» (idem: 45). No confronto com a cidade concreta do presente, quem perde e se dilui é a construção fabulosa da imaginação, uma pura fantasia situada num tempo remoto. E num lugar remoto também: alguns  elementos referenciais, associados a uma «personagem migrante» como Genuína (que surge noutras obras nemesianas) permitem concluir que o reporter não é senão  uma projecção ficcional do próprio  Nemésio, equacionando em termos deceptivos a sua  descoberta da capital, a metrópole apenas sumptuosa no plano da fantasia. Ao repórter/Nemésio extraterritorial do   presente, resta-lhe  a memória de um tempo anterior a que se regressa como derradeiro refúgio que importa salvar; «Ante-Manhã» acaba precisamente do seguinte modo: «Antes desta noite aziaga e torva, houve um dia que vai delido na memória, e não é esta vida senão o resto de outra vida remota, de que nem tudo se perdeu e de que nem tudo se fez lama.» (Nemésio, 2002: 47).

O facto é que o autor salta  imediatamente  e de modo abrupto para essa «vida remota», numa narrativa intitulada «Brumolândia», uma breve história dos Açores num vago registo entre a lenda e a dimensão alegórica. Se Nemésio vinculará a esse espaço mitificado da Brumolândia a maior parte da sua escrita, a verdade é que a «explicação» para isso está dada (creio eu) no início de Paço de Milhafre, com as duas narrativas iniciais, cuja disposição é ela própria  já mensagem, sentido adiantado ao leitor, à  maneira de prefácio em jeito ficcional (e repare-se mesmo na afinidade possível entre «ante-manhã» e antelóquio). Na matriz da escrita estará uma frustração[1] resultante da discrepância ou hiato entre o deslumbramento perante o mundo representado pelo  imaginário e as pequenas misérias do real concreto e «claramente visto»; mas nisto inscreve-se também uma outra dinâmica, aquela que se estabelece  entre o interior e o exterior, entre a ilha e o mundo (para socorrer-me de um título de Pedro da Silveira), em que a partida é frequentemente vista no seu dramatismo (veja-se o início da narração de Gente Feliz com Lágrimas, João de Melo) ou mesmo como uma  maldição: em A Fome, de José Martins Garcia, a viagem prolonga uma fatalidade insular sem solução e, além disso, aqueles que partem para leste, rumo à Europa, são amaldiçoados pelos velhos: partir, só para oeste – diziam  eles e  lá teriam as suas razões.

O significado   desta  minha «volta do  largo» (metáfora colhida na náutica dos descobrimentos e tão ligada aos Açores, afinal) situar-se-á  não apenas na própria   interpretação da escrita nemesiana, mas também (talvez mesmo, sobretudo) no facto de com ela se estabelecer um quadro de referência que permite uma análise contrastiva da «nova escrita» açoriana, os modos da sua realização e da percepção do mundo,  e como nela se poderão observar aproximações ou afastamentos em relação a esse modelo anterior. Isto significa, obviamente, situar a obra de Joel Neto na tradição literária açoriana, coisa que corresponde, aliás,  a um posicionamento assumido pelo autor e não anula  a possibilidade de outras leituras, antes as enriquece.

Quando Joel Neto se estreou com O Terceiro Servo (2000), quem soube ler o romance pôde aperceber-se de que havia ali um escritor, isto é, alguém capaz de construir uma história, com o seu universo de encontros, desencantos e conflitos, e sobretudo capaz de inventar processos próprios e uma linguagem pessoal para contá-la.  Numa curta nota que escrevi dois anos mais tarde, e tendo por referência esse primeiro romance e já também O Citroën que escrevia novelas mexicanas (2002), mas cujo teor podia aplicar-se igualmente a Os Sítios sem  Resposta (2012) e a Arquipélago (2015), assinalei em Joel Neto um  diálogo descomplexado com a tradição literária (a açoriana, em primeiro lugar), mas exercendo-se em intersecção com outros espaços e discursos; e acrescentava ainda: «a sua escrita reflecte já a experiência de uma geração posterior à guerra colonial  e às dramáticas condições insulares dos anos cinquenta a setenta: tanto em O Terceiro Servo como em O Citroën que escrevia novelas mexicanas há uma circulação entre interior e exterior (ou vice-versa) que decorre de forma apaziguada e “natural”, sem que a partida e a distância ou a própria condição insular sejam vividas de forma angustiada e traumática.» (Bettencourt, 2003: 60). Entre Lisboa e a Terceira, as personagens de Joel Neto  deslocam-se (quase) tranquilamente, sem que a angústia da insularidade as tome de assalto e  as paralise no tempo e no espaço ; e mesmo que Miguel Januário Barcelos ou Miguel João Barcelos (personagens de O Terceiro Servo e de Os Sítios sem  Resposta, respectivamente) possam experimentar a solidão e os desconchavos de Lisboa, isso ocorre  já num quadro que é o da despersonalização e da rotina da vida urbana moderna: como não havia à partida deslumbramento algum em relação à capital, também não se seguem frustrações profundas, daquelas capazes de dar a volta à vida e à escrita de um homem.

Falava eu de circulação, mas convém introduzir alguma precisão nos termos. Na verdade, mais do que a escolha da partida e da viagem  como elementos narrativos, aquilo com que nos deparamos é com regressos, o movimento do exterior para o interior, e, pela sua recorrência, é um dado (relativamente) novo num corpus literário tradicionalmente marcado pela preponderância das  narrativas da partida e da fuga. De resto, se o afastamento e a distância não foram vividos como uma  forma exacerbada de exílio, os regressos traduzir-se-ão apenas numa emotividade contida e bem controlada, sem lugar para aquelas  manifestações excessivas de nostalgia e para a dramática tentativa de recuperação de qualquer tempo perdido: as imagens afectivas  do passado serão algo a preservar intimamente e envolvidas num leve  manto de melancolia, sobretudo quando confrontadas com um tempo açoriano em que as crianças já não jogam à bola na rua e no seio da família as migalhas da Segurança Social asseguram uma sobrevivência precária, ao mesmo tempo que a  toxicodependência aí vai abrindo o seu caminho lento de destruição  (Os Sítios sem  Resposta).

Do ponto de vista narrativo, O Terceiro Servo assenta numa vaga moldura  policial, na medida em  que o regresso do jornalista  Miguel Januário Barcelos à ilha  é suscitado pela notícia  que constitui a abertura abrupta do romance: «Sargento Herculano brutalmente assassinado». Mas no decurso da acção, essa vertente seguirá em paralelo com um processo de indagação que tanto refaz uma cartografia íntima do protagonista e o percurso de Herculano Cota,  como procede a  uma configuração do tempo e dos costumes insulares; essa indagação é inseparável do estatuto de Miguel («um jornalistazinho de meia-tigela», dir-lhe-á Teresa), mas o seu resultado é também uma revisitação da  ilha, dos seus ritos  e jogos sociais, permitindo ainda a observação das transformações colectivas.

Em certa medida essa modulação policial assiste também à organização narrativa de  Arquipélago,  embora num enquadramento diferente, pois  os acontecimentos que a desencadeiam cruzam-se de modo fortuito (mas não aleatório) no quotidiano de José Artur, regressado à ilha por causa de um manuscrito encontrado ocasionalmente, o diário de Gordon Mason, e que lhe pareceu abrir pistas para uma tese de doutoramento (tema absurdo, dirá de Lisboa o  Doutor Salvaterra). Esses dois achados, o esqueleto jovem e o texto de Gordon, polarizam  as duas linhas de investigação de Arquipélago: o primeiro, surgido no decurso de um  processo de reconstrução, reenvia a um tempo próximo, a esse acontecimento balizador  que foi o sismo de 1980[2] («para os velhos da sua terra, o tempo continuava a dividir-se entre Antes e Depois do Abalo», p. 147); o segundo abre caminho ao levantamento e ao estudo das pistas que poderão atestar as «presenças humanas prévias  [na Terceira]  aos gloriosos tempos das caravelas» portuguesas (p.98).

Entre os dois filões, podemos incluir um terceiro espaço discursivo, configurador do presente da personagem, num processo de (re)descoberta da ilha e,  simultaneamente,  de reconstrução interior de José Artur e da sua relação com o mundo e, em primeiro lugar,  com o universo familiar e pessoal.

Sabe-se, pelo menos desde Anatole France (chegado via Nemésio), que todo o romancista é um espião e que a literatura é função de uma actividade de espionagem (Enrique Vila-Matas). Isto deve entender-se,  em  sentido imediato, como o exercício de um olhar perscrutador e atento sobre o mundo, no registo e na posterior religação e interpretação dos factos  colhidos; mas,  num outro modo,  cada autor exerce espia as suas personagens, decifrando-lhes os movimentos da fala e os sinais que, não raro, as denunciam e traem nos seus jogos de dissimulação e subentendidos, nos claros  e escuros da sua humanidade.

Neste contexto, Joel Neto procedeu a um notável e minucioso trabalho de espionagem que lhe permitiu construir um romance de largo espectro como há muito não acontecia no universo literário açoriano. Desenvolvendo as duas linhas da inquirição e  articulando-as  com o quotidiano de José Artur, Arquipélago configura um universo em que confluem a eventualidade pré-histórica  e a  realidade mítica (a Atlântida),  a factualidade recente, não só a geológica e telúrica, mas também a política (os tempos da FLA, por exemplo) e ainda a  social. E tudo isso num processo discursivo e narrativo  que faz deste romance uma vasta tapeçaria em que os fios se cruzam (e por vezes se descruzam também), num registo ora realista, ora fantástico ou meramente fantasioso, ora ainda cronístico, alternando os grandes planos e movimentações com a intimidade microscópica do comportamento e dos gestos individuais.

A Terceira merecia isto. E nós, leitores, também.

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(Ponta DelgadaLivraria Solmar, 2 de Julho de 2015)

REFERÊNCIAS:

BETTENCOURT, Urbano (2003), Ilhas conforme as circunstâncias. Lisboa: Edições Salamandra.

CANDIDO, Antonio (102006), Formação da Literatura Brasileira. Momentos Decisivos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul.

NEMÉSIO, Vitorino  (2002), Paço do Milhafre/O Mistério do Paço do Milhafre, Obras Completas de V. N, vol. VII, introdução e fixação do texto de Urbano Bettencourt. Lisboa:  Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

NETO, Joel  (2015), Arquipélago. Queluz de Baixo: Marcador.

TORRES NEBRERA, Gregorio (1994), « “Los poestes y el tendido”: Realidades y propósitos de la cultura literaria en Extremadura», in José María Enguita e José-Carlos Mainer (eds.), Literaturas Regionales en España. Zaragoza: Institución «Fernando El Católico», pp.  141-160.

……………………………………………

[1] Nada de novo, afinal. O próprio Nemésio referiu-se à frustração amorosa que está na base de Mau Tempo no Canal.

[2] Já textualizado, aliás, por Álamo Oliveira em Pátio d’Alfândega meia-noite  (1992)

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