AQUELE ANO DE 1995: DJUTA BEN-DAVID ENTRE DOIS ARQUIPÉLAGOS

Djuta Ben-David

No início de Abril de 1995 o vulcão da Ilha do Fogo entrou em erupção. Em Julho  (no dia 14) completar-se-iam cinquenta anos sobre a publicação, no jornal A Ilha,  de um artigo de Pedro da Silveira sobre a poesia de Jorge Barbosa, que iniciava uma prolongada presença da literatura e da cultura cabo-verdianas nas páginas daquele jornal de Ponta Delgada.

A súbita e inesperada  combinação da geografia e da história esteve, possivelmente, na base do projecto que apresentei à Livraria Solmar, no sentido de reavivar a memória das antigas ligações culturais entre os dois arquipélagos: uma breve exposição bibliográfica e discográfica complementada por uma sessão leitura de poemas e também…música. O acolhimento  por parte da Livraria foi imediato, a parte da palavra e dos textos era fácil de solucionar, o problema residia na música. Quem poderia ou quereria cantar e tocar ao vivo na Solmar?

Até que um dia  Sidónio Bettencourt me falou em Djuta Ben-David, excelente tocadora e cantora, conhecida apenas daqueles que tinham acesso ao seu círculo próximo, pois que há cerca de quatro décadas não cantava em público. Não se perde nada em tentar. E foi o Sidónio que me levou a casa dela, onde  ambos apresentamos argumentos a favor da sua participação na sessão. Creio que a referência ao drama que então vivia a ilha do Fogo terá  sido talvez aquilo que a levou a aceitar. Do que me lembro  perfeitamente é de Djuta se pôr a tocar e a cantar e, no final,  me perguntar com o seu jeito  desconcertante: «O sr. Urbano acha que isto é bom para apresentar em público?». Não sei bem o que lhe respondi ou sequer se lhe respondi,   pois de repente eu encontrava-me ali entre os «clássicos» cabo-verdianos.

A 21 de Abril, na Livraria Solmar, Laura Lobão leu poesia de Cabo Verde e a seguir  foi a surpresa e a emoção, quando se começou a ouvir a voz e o violão de Djuta, acompanhada pela percussão do filho Henrique.

Depois houve alguns acasos e coisas que se encadearam da melhor forma.

Em Maio, não sei se já no princípio de Junho, Leão Lopes passou por Ponta Delgada. Deixei–lhe  nas mãos um dossiê com os materiais entretanto publicados na imprensa e na sequência da sessão na Livraria. Também para ele, Djuta e o seu percurso eram uma descoberta.

O facto é que a 20 de Junho me chegava um fax de Cabo Verde com pedido de entrega a Djuta, convidando-a a participar nas cerimónias do XX aniversário da Independência Nacional e incluindo já um plano de viagem. Assinava-o Leão Lopes, do Secretariado Executivo do OCAI (Organização das Comemorações do XX Aniversário da Independência Nacional). Mas o lado afectuoso de tudo isso  vinha num segundo fax, com a seguinte mensagem:

«Esta, a hora em que cantamos adolescendo com o mar e o vento os nossos vinte anos de liberdade. Que venha também a Djuta e traga a sua juventude solidária. Que venha a Djuta matar saudades.

«Nesta hora guardamos um mocho à sombra e um pote com água fresca para todos os nossos irmãos regressados da terra longe.

«Nesta hora convidamos a Djuta que venha reviver a terra e celebrar connosco o XX Aniversário da Independência de Cabo Verde

Uma síntese do que foi esse regresso a Cabo Verde após quase cinquenta anos de ausência está no documentário que Zeca Medeiros realizou mais tarde, Djuta Ben-David, Voz & Alma, especialmente  no apontamento sobre a breve participação de Djuta no espectáculo musical comemorativo do aniversário: apresentou-a ao público  o músico Tito Paris.  E quando ela começou a tocar e a cantar «Nha terra bô ti tá sofrê», naquele palco e com um suporte musical daquela qualidade, começava   a fugaz recuperação de um tempo perdido, mesmo que sempre aceite por ela com uma natural tranquilidade. E deu claramente para entender que, se a deixassem, Djuta ficaria ali a cantar até ao fim dos seus dias perante aquele público, o seu povo, afinal.

Depois muita coisa aconteceu. Registo apenas uma.

O «Suplemento Açoriano de Cultura» (do Correio dos Açores) dirigido por Vamberto Freitas, que a 18 de Maio destacara  nas suas páginas centrais  Djuta e a  sessão na Solmar, dedicou as doze páginas do  seu número de 7 de Dezembro de 1995 à cultura cabo-verdiana. Nesse número incluí uma longa entrevista que Djuta me tinha concedido em Outubro: a sua história desde a juventude no Mindelo, a vinda para Lisboa para cantar com o irmão,  o encontro com o futebolista Henrique Ben-David e a fixação definitiva nos Açores; mas também a viagem a Cabo Verde e a família e os amigos reencontrados.

A transcrição escrita da entrevista ocupava doze páginas dactilografadas que lhe entreguei para eventuais acertos e emendas; acabava com as seguintes palavras: «A minha filha, que é daqui, dos Açores, e vive na Holanda foi agora pela primeira vez a Cabo Verde e dizia-me: “Ó mãe, S. Vicente não é pobre, nós temos de compreender que é uma ilha pequenina; mas a maneira como eles vivem lá… não se vê uma tristeza, vê-se tudo alegre, vai-se para um sítio à noite, são aqueles bailes, aquelas mornas, enfim.” Adorei ouvir a minha filha falar da minha terra.»

No texto que me devolveu, Djuta acrescentou um último parágrafo escrito pelo seu punho: «Mas quero deixar bem frisado que entre S. Vicente e S. Miguel não há distinção para mim. O carinho e a simpatia com que este povo nos acolheu desde o primeiro dia em que pisámos este chão e que continua dando a mim e aos meus filhos está gravado no fundo do meu coração para o resto da minha vida. Daí que todo o meu obrigado é pouco, pois quero gritar bem alto,  meu rico S. Miguel,  e vos adoro.»

Creio que este parágrafo é uma síntese pessoal perfeita, o texto  que eu não conseguira encontrar para aquele  remate assertivo de que falam os manuais.  A  verdade é que eu falava de fora, ela sentia de dentro. E  isso fazia toda a diferença.

De forma directa ou indirecta, a ida de Djuta a Cabo Verde em 1995 estaria na origem de algumas coisas que se sucederam no relacionamento entre os dois arquipélagos, de algumas portas que chegaram a abrir-se por algum tempo.   Mas esta já é outra história.

Urbano Bettencourt

14 de Julho de 2015 (em lembrança também de Pedro da Silveira)

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FOTO: Walter Tapia (Outubro de 1995)

Texto publicado no Diário dos Açores, 18.07.2015

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