Mário Machado Fraião – um percurso de melancolia

Mário FraiãoUma das imagens «definitivas»  que guardo de Mário Machado Fraião vem dos anos oitenta, mais exactamente do dia  21 de Junho de 1980. Era uma Noite Cultural Açoriana,   outro dos projectos levados a efeito nesses tempos por um grupo de açorianos residentes e/ou estudantes em Lisboa. Graças à intervenção e à amizade de Natércia Oliveira, que sempre nos abriu as portas do Grupo de Teatro A Comuna, a sessão desse dia 21 serviu para apresentação pública do número seis da revista A Memória da Água-Viva, que desde 1978 vinha sendo editada em Lisboa pelo Grupo de Intervenção Cultural Açoriano (GICA). A sessão serviu ainda para dar a conhecer a revista Aresta, que Emanuel Jorge Botelho começara a editar em Ponta Delgada, e os mais recentes  (que seriam os últimos) livros da colecção Garajau, uma iniciativa também do próprio GICA: Terra-Mote ou a destruição dos búzios (de Emanuel Jorge Botelho) e Marinheiro com residência fixa (de Urbano Bettencourt).

No meio dessas iniciativas grupais, o Mário  apresentou o seu primeiro livro,  Todas as filarmónicas perdidas e um poema por dizer, em edição de autor, mas «irmanado» com os restantes no despojamento  dos materiais gráficos e dos suportes editoriais. E a impressão que o  Mário deixava não era tanto a da previsível efusão de quem se afirmava como autor perante um público,   mas sobretudo a de quem parecia pedir desculpa por ter escrito um livro de poemas. E penso que esta imagem o acompanhou até ao fim, uma espécie de distância pessoal em relação ao «mundo literário», apesar de informadíssimo e atento em relação ao que se ia passando entre nós (os telefonemas cá para casa, depois da minha vinda para S. Miguel,  eram a prova disso).

Vieram depois outros livros individuais e a participação regular em sucessivos volumes da colecção  Viola Delta (Edições MIC). Mas, na sua dimensão simbólica,   esse título inicial parecia anunciar como que um programa íntimo a que, de algum modo, o poeta se manteve fiel ao longo dos anos, ou seja, um sentido de perda e a consciência do não-feito, do bruscamente interrompido, uma outra forma, afinal, de experimentar e exprimir a perda.

Um dos primeiros poemas de Todas as Filarmónicas perdidas começava com os seguintes versos, que lançam uma luz  mais precisa e directa sobre esse referido programa: «Meu pai falava / encostado à janela frontal ao Pico / – acerca destas ilhas é que deves escrever». Tudo parece articular-se, pois  escrever acerca das ilhas   é vê-las já na distância, perdidas para sempre ou apenas presentes na memória que delas guarda o poeta. Percebe-se, deste modo, o papel que  a memória desempenha nesta poesia, convocando lugares, rituais, momentos fugazes, num discurso  marcado em boa parte  por um «realismo urbano» que faz da enumeração  e da  justaposição uma das técnicas de convocação da totalidade do mundo. Se Roberto Mesquita é justamente evocado num dos poemas do Mário,  como signo de um tempo demorado e suspenso, é, todavia, em Pedro da Silveira que podemos encontrar as raízes de um descritivismo  focalizado nos pequenos acontecimentos, recortes humanos  e gestos de uma cidade «à beira-naufrágio», para utilizar a expressão de Santos Barros. É certo que a poesia do Mário não se esgota nessa dimensão insular; mas é nela que se resolve  uma parte fundamental  da sua «questão poética» (e cronística, em Carta de Marear), na aguda consciência de um tempo-espaço definitivamente perdido e irrecuperável. Ou só recuperável pela sua convocação verbal, que é o que resta quando tudo se perdeu de nós. Daí, a profunda melancolia atlântica que perpassa esta poesia e lhe dá um  registo tão «naturalmente natural» e autêntico, distanciada de muitos produtos retóricos e postiços que nos foram sendo impingidos ao longo dos anos. E é isso que faz dela um momento muito particular da segunda metade do nosso século XX açoriano.

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