A FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DA PIEDADE na ilha do Pico

O verdadeiro lugar de nascimento é também aquele em que lançamos um olhar inteligente sobre nós mesmos. É claro que Marguerite Yourcenar não escreveu isto bem assim, mas um jeito na frase e na lógica dá jeito às vezes. Desta vez, para dizer que os meus dois primeiros nascimentos foram «lá», bem lá em baixo no Calhau, entre os calhaus e as lapas. O Calhau da Ponta, diga-se, pois havia o outro Calhau a oeste, voltado para a cidade em frente e lugar de salto em dias de mar brabo na Madalena e na Areia Larga.

freguesia da piedade
Palavras a propósito da monografia de Manuel de Ávila Coelho sobre a freguesia da Piedade. Trata-se da reedição de um texto saído no «Boletim do Núcleo Cultural da Horta» em 1961, agora sob responsabilidade editorial da Junta de Freguesia da Piedade. É um cuidado trabalho gráfico, que confere nova dignidade a um texto que se «perdera» na poeira do tempo. Como já acontecera com uma outra edição da Junta de Freguesia («O Bando da Burra», de Carlos Freitas, Fábio Vieira e Filipe Costa, 2009), há também aqui a «ordenação» gráfica de Fábio Vieira, que desenhou ainda um registo topográfico sobre a provável localização da primitiva Casa do Império.
O livro do Professor Coelho (como era geralmente conhecido) integra-se naquela vaga de monografias que, pelos anos cinquenta e sessenta, chamaram a atenção para as comunidades locais, organizando informações de natureza diversa, entre a etnografia, a história, a literatura oral, personalidades e a linguagem (o autor publicou também no BNCH um outro texto sobre o vocabulário regional das ilhas do Faial e do Pico). É disso que também se ocupa este texto do Professor Coelho, resgatando a memória de pessoas, hábitos culturais (no seu sentido mais abrangente), acontecimentos de uma história nem sempre tranquila; um breve conjunto fotográfico «ilustra» alguns dos episódios relatados e factos referidos.
O bisavô Bettencourt sai bastante chamuscado no retrato, por questões de …contrabando e de uma valente sova dada a um guarda fiscal. Nada que a literatura não resolva a contento: passa-se uma parte disso para o filho dele, junta-se um pouco de loucura insular e fica logo outra coisa (está em «Sobre o suicídio de meu avô», nos meus «Naufrágios Inscrições»).
Mas enquanto uns contrabandeavam, outros dedicavam-se a produzir moeda falsa, com requintes artísticos e proventos a condizer. Gente empreendedora, diria o actual discurso económico. Obviamente, não se deve tomar a árvore pela floresta e na lista de personalidades da freguesia há um vasto grupo de pessoas que se distinguiram por razões bem mais edificantes.
Manuel de Ávila Coelho (1891-1979) nasceu na Piedade e exerceu a sua atividade profissional no Pico e no Faial, onde, aliás, deixou uma importante marca de participação cívica e cultural, ao lado de outros colegas e intelectuais do seu tempo. Jornalista e poeta satírico, durante 17 anos (até Junho de 1971) manteve no jornal «O Telégrafo», e sob a assinatura de Frei Pedro, a sua Gazetilha da Semana, uma «crónica» semanal ácida e bem humorada sobre a vida insular.

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