Entre a China e Bruxelas – um chá com literatura em volta

Scanner_20160616 (474x640)

No romance A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós, há um momento em que Gonçalo Mendes Ramires grita ao velho Bento: “Leva para a livraria chá verde, forte, com torradas. Hoje só almoço tarde, às duas… Talvez nem almoce!”[1]

Para melhor se compreender a situação, importa referir que  o protagonista anda às voltas com a escrita de uma novela histórica, a saga da família, a que deu o título de Torre de D. Ramires, cujos três primeiros  capítulos se destinam ao número inaugural dos Anais de Literatura e de História. Ora, perante o arrastamento da escrita e a demora em concluir a obra, o editor enviara a Gonçalo um ultimato, impondo-lhe um prazo para a entrega dos originais. Daí, a decisão de Gonçalo de fechar-se na livraria, num esforço para dar um empurrão definitivo ao trabalho.

Ao longo da história de A Ilustre Casa de Ramires, este não é o único caso de referência directa ao chá: por vezes,  como ingrediente da gastronomia e  simultaneamente uma actividade já  ritualizada  e dotada de um valor social e simbólico;   outras vezes, em contextos de natureza muito mais restrita, associado ao espaço da livraria (biblioteca, diríamos hoje) e ao  isolamento da escrita ou da leitura.[2] Simples e ligeiro substituto alimentar, capaz de proporcionar  alguma economia de tempo por relação a uma refeição normal – tal como o sugere o fragmento inicialmente citado  –talvez o chá possa ainda ser visto aqui com uma função de estimulante intelectual e criativo, mesmo que fiquemos sem saber se Eça conhecia o poema “A Via do Chá”, do poeta Chiao-Jên  (da dinastia Tang: 618-907):

Ofereceu-me o meu amigo de Yueh

Tenras folhas de chá Yen-Hsi,

Para as quais escolhi chaleira

Toda de ouro e marfim.

Em tigela  branca de neve fiz a mistura.

Com sua cor clara, sua espuma e seu perfume,

Semelhava, dos Imortais, o doce néctar.

Com a primeira chávena afloraram mil ideias;

Parecia que cintilava o mundo inteiro.

A segunda desanuviou-me o espírito,

Tal como purifica a terra um aguaceiro!

Com a terceira senti-me igual aos Imortais.

Para que servirá agora a austeridade?

Será que afasta o sofrimento humano?

Aqueles que se abandonam ao vinho

Rapidamente ficam desiludidos,

Porque agora eu sei que a via do chá é verdadeira;

Quem, senão  Tau Ch’in, para a encontrar?[3]

 

Auto-estima, estímulo e  ideias eram, na verdade,  coisas de que Gonçalo bem precisava no  momento em que se lançava a essa corrida contra o tempo e o emperramento da escrita.   Mas, tendo em conta a  presença recorrente do chá noutras obras de Eça, não será despropositado pensar que também aqui a bebida funciona como um traço social distintivo dos estratos que Eça mais privilegiou: as classes média e alta da sociedade portuguesa – uma aristocracia nitidamente em decadência e uma burguesia optimista e auto-satisfeita, que o século XVIII  captara já   no seu aconchego doméstico, em torno do chá, e assim representada por Correia Garção:

 

O louro chá no bule fumegando

De Mandarins e Brâmenes cercado;

Brilhante açúcar em torrões cortado;

O leite na caneca branquejando;

 

Vermelhas brasas alvo pão tostando;

Ruiva manteiga em prato mui lavado;

 O gado feminino rebanhado,

E o pisco Ganimedes apalpando.

 

A ponto a mesa está de enxaropar-nos.

Só falta que tu queiras, meu Sarmento,

Com teus discretos ditos alegrar-nos.

 

Se vens, ou caia chuva, ou brame o vento,

Não pode a longa noite enfastiar-nos,

Antes tudo será contentamento.[4]

 

De resto, e voltando ao século XIX e ao círculo de Eça de Queirós, refira-se aqui o  apontamento deixado por Antero numa carta a Francisco Machado de Faria e Maia, datada de 27.09.1888, ou seja,  dez anos depois da chegada a S. Miguel dos chineses Lau-a-Tang e Lau-a-Pang, cujos nomes ficariam para sempre ligados à história da introdução da cultura  do chá na ilha. Escreve Antero, desde Vila do Conde:

Oxalá colhas boas informações a respeito do chá. A mim parece-me que o chá verde teria no mercado português mais probabilidades de venda do que o preto, que pouca gente cá usa, e essa gente rica, por conseguinte exigente na qualidade.[5]

Breve anotação pontual, datada de um tempo em que o cultivo do chá se implementava de forma que viria a  tornar-se duradoira, embora com os acidentes de percurso que são conhecidos – ela vale o que vale, em função do momento e da circunstância da sua formulação; mas mesmo que de modo enviesado, ela pode lançar pontes para os textos de Maria Ondina Braga (1932-2003).

Contra a vontade e o querer de alguma teoria literária, a obra de Maria Ondina Braga (MOB), nos  seus universos e referentes, é inseparável da vida da autora, da sua errância pelo mundo: Inglaterra, mas sobretudo África e Oriente – espaços que o romance e o conto se encarregam  de refigurar e transfigurar, devolvendo-nos experiências ficcionadas que, muitas vezes, a crónica nos revelara sob o registo da evocação e da memória.

Fica-nos dessa escrita o impacto da surpresa e da novidade – A China fica ao lado (de Macau, entenda-se) é um livro de 1968, mas passa ao lado daquela China que por esses tempos excitava Paris, donde o Oriente era visto através das embaciadas lentes maoístas. E fica-nos sobretudo o traço feminino e frágil de um modo de olhar o outro, o diferente, numa atitude de abertura e receptividade: Eu vim para ver a terra, livro de crónicas, constitui uma espécie de programa pessoal para o contacto com os espaços e as gentes que se foram sucedendo no percurso da autora. As ficções narrativas e as crónicas são já o momento posterior, em que nos é dado a conhecer aquilo que foi objecto da descoberta original da autora. Neste sentido, Angústia em Pequim, conjunto de narrativas breves, “crónicas quase poemas”, traz-nos o relato da experiência de MOB como professora de Português do Instituo de Línguas Estrangeiras de Pequim. O cuidado em revelar o mundo social, histórico, cultural, literário chinês traduz-se no manancial de informação que o livro veicula, inclusive sobre o chá, matéria que aqui nos ocupa: variedades, rituais de preparação, crenças quanto aos seus atributos medicinais, o papel do chá enquanto factor de sociabilidade e convivialidade – de tudo isso se ocupa a obra, sem deixar de assumir, mesmo com notória ironia, o desconforto de quem se vê frente a frente com uma realidade que desfaz ideias feitas, lugares-comuns sobre o mundo oriental. E vale a pena citar:

De tarde, os pequineses tomam chá-de-jasmim: moli-hua-cha: verde, amargo, aromático, e digestivo. “Após o almoço – uma pequena sesta; /Ao despertar – o chá-divino”. À noite, não, à noite chá preto, que adormenta como um narcótico. Pois no Ocidente tem-se chá preto por excitante; excita tanto como o café; teína pior que cafeína […] O chá servido à maneira chinesa : despeja-se a primeira chávena no bule, a fim de revolver as folhas e as fazer abrir à cor, e o bule pousado de lado, com o bico noutra direcção que não a das pessoas. Ora, excitante! Chá verde estimula o pensamento e aconchega o estômago, e chá preto prepara o repouso da noite. De qualquer modo, sempre o chá contendo poderes medicinais: na Mongólia interior, como se come lá muita carne, bebe-se também muito chá para desfazer as gorduras, para desgastar: chá em blocos prensados, “tijolos de chá”, para facilidade de transporte e arrecadação. O chá faz bem a tudo. O chá que afasta as cinco causas da dor. Mas cuidado que a bebida não arrefeça. Chá frio espanta o sono.[6]

 

(E, de repente, se fosse nisto que também  pensava Antero na sua carta, na necessidade urgente que tinha a sociedade portuguesa de final do século não tanto de aconchegar o estômago, mas sobretudo de estimular o pensamento?)

Numa outra dimensão, a ficcional, importa referi como o chá se torna uma presença inarredável no entrecho das histórias que decorrem sobre um fundo chinês ou macaense: especialmente no  Nocturno em Macau  e no já referido A China fica ao lado.

Pretexto para um encontro e troca de confidências, na intimidade do lar e do quarto ou no espaço aberto das casas de chá, gesto de afabilidade e acolhimento, o chá pontua as narrativas em que um universo feminino se ergue a pouco e pouco e em que os desabafos, as confidências, também as sombras e o silêncio são inseparáveis de uma chávena de chá (às vezes várias, para dilatar o tempo e adiar o fim de um encontro), nalgumas ocasiões indiciado apenas pelo aroma, pela coloração, pelo gorgolejar da água no outro lado do tabique e sobrepondo-se à fina escorrência da melancolia e da solidão.

Ao primeiro olhar, é também a um ambiente de convívio e  intimidade que remete o poema Five o´clock tea, de Vitorino Nemésio (escrito em Bruxelas, Julho de 1937). O próprio título convoca os pequenos gestos e  rituais que o tempo cristalizou numa prática de sociabilidade e de trocas pessoais. Mas uma distanciação irónica acaba por sobrepujar a vaga de melancolia outonal que também aqui atinge coisas e pessoas:

Eu canto o chá das cinco que minha Mulher ofereceu,

Às seis da tarde, ao longo da barra azul da sala,

Àquela senhora inglesa  que o Outono nos adiantou,

Tão distinta, discreta, boa  e doce,

Naquela cadeira exposta ali na sala aos destinos

Das pessoas que vão entrando;

Aquela senhora de modos tão finos

E de dentes brancos onde já um ramo de tempo deita sombra;

Aquela senhora, ali, inglesa, no seu vestido de miosótis,

De que não me atrevo a pedir ramo algum

Enquanto bebo o meu chá, ao lado dela, pensando

Em tantos miosótis que tenho visto e me tenho acanhado de pedir

Ou por não ser tempo de miosótis e ficar feio andar augado,

Ou por não haver outra coisas nos jardins senão miosótis e não

          [me apetecer, francamente…

[…]

Primeiramente, a disfunção estilo-matéria, em que o tom épico do “eu canto” não se adequa ao assunto a tratar, o chá; depois,  o desarranjo horário, que abala a semântica do próprio ritual,  e   os modos de referir  a senhora inglesa   deixam ao leitor o perfil de uma mulher marcada pela marcha dos dias, que nela depuseram as   sombras e os sinais de um tempo outro no qual parece refugiar-se. E até mesmo  a tentativa insinuada de um leve erotismo acaba, paradoxalmente, frustrada no braço da senhora:

O seu braço longo, desistido, inapetente, mas belo

Precisamente porque é já o braço para o neto esfregar as

[gengivas

 E  roer e rir, e rir e roer, meses depois de nascer,

Como um belo guizo de oiro que só mesmo feito em [Inglaterra.

[…]

Mesmo assim, e para lá das decepções e desencantos, o que o texto de Nemésio confirma,[7]  fechando o arco a Ocidente, é o papel social do chá, como elemento congregador de pessoas, desencadeador de rituais  de sociabilidade que, podendo ser momentos de partilha e encontro, são também, noutros casos, exercícios de “solidão povoada”, para lançar mão de Nemésio, mais uma vez.

NOTAS

[1] Eça de Queirós, A Ilustre Casa, p. 232.

[2] Veja-se um outro exemplo:  “Envergou o roupão de flanela. E à banca, com o costumado bule de chá inspirador, repassou lentamente o começo do capítulo II, que o não contentava.” Idem, p.157.

[3] Transcrito por J. D. Amaral,  O livro do chá, p. 30.

[4] C. Garção, Obras Completas, p. 18

[5] A. de Quental, Cartas, II, p. 903

[6] M.O.Braga, Angústia em Pequim, p. 85.

[7] Emanuel Félix «respondeu» a este  poema de Nemésio com o belo (e amargo) poema “Five  o’clock tear”, que amplifica até ao absoluto o sentimento de solidão da figura feminina, desde logo indiciado com o jogo fonético e semântico do seu título.

in Vieira, V. (Coord), 2016, Chá dos Açores. Confraria do Chá Porto Formoso, Ponta Delgada, pp. 111-115

Anúncios

One thought on “Entre a China e Bruxelas – um chá com literatura em volta

  1. Pingback: Entre a China e Bruxelas – um chá com literatura em volta | Urbano Bettencourt | AICL Colóquios da Lusofonia

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s