CODA (em jeito de posfácio): «Uma reflexão»

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Urbano Bettencourt

Cadernos de Santiago I, pp. 427-431

 

Há, em primeiro lugar, o facto, ou seja, a iniciativa de reunir um conjunto de  poetas,  pô-los em diálogo entre eles e com o leitor, um projecto cujo resultado se corporiza sob o título de Cadernos de Santiago. E,  em segundo lugar, a leitura que se possa fazer das  diferentes dicções, o modo como elas,  eventualmente,  se interpelam e  interligam ou divergem, permitindo no final construir o quadro da expressão poética num determinado espaço cultural, para lá da dimensão individual de cada voz. E talvez um  terceiro aspecto, oscilando entre os outros dois, aquilo que um projecto destes representa numa dimensão não apenas literária, mas também cultural,   em sentido mais genérico e institucional.

Creio não existirem dúvidas sobre as reais   virtualidades de  trabalhos deste género, por aquilo que eles proporcionam enquanto veículo de congregação e reunião pública  simultânea de autores  que, de outro modo e isoladamente,  mesmo  o leitor mais interessado e atento teria  dificuldade em congregar; quer   se fique por uma simples informação de natureza geral, quer pretenda aceder a um mais específico conhecimento literário, o leitor tem numa antologia o  meio concentrado  e expedito para uma visão de conjunto. De resto, a instituição literária é pródiga em produções deste tipo, o que é uma forma de reconhecer a sua importância e o seu papel,  seja através de  uma seleção obedecendo a critérios temáticos,  estilístico-epocais ou autorais, seja  mediante  um projecto de  natureza genológica ou ainda submetido  a  um critério  que talvez possamos identificar  como geo-cultural, mesmo concedendo o grau de fluidez e imprecisão da terminologia: circunscritas a um espaço  geográfico preciso, de natureza nacional ou local,  há antologias que asseguram a representação da expressão  poética num contexto determinado, enquanto artefacto verbal e, ao mesmo tempo, sinal de uma dinâmica  sócio-cultural mais vasta, ultrapassando a dimensão pessoal inerente a cada acto de criação literária.

O meu primeiro contacto com a poesia madeirense ficou a dever-se a uma iniciativa deste género, precisamente ao volume Ilha 2 (1979), coordenado pelo poeta José António Gonçalves e chegado numa altura em que o aturado trabalho de investigação de Manuel Ferreira e de Pedro da Silveira me dera a conhecer o que se passava em Cabo Verde e nos Açores, em termos históricos e de contemporaneidade também. Ilha 2, reunindo sete poetas,  permitia-me complementar  a informação sobre os três arquipélagos de língua portuguesa (o arco poético da Macaronésia só se completaria para mim alguns anos depois, com a poesia das Canárias e  possibilitando um olhar mais abrangente e mesmo comparativo sobre aquilo que ocorre nesse espaço atlântico insular, os dados de uma expressão poética que aí ocorre e com traços em comum, para lá da língua e da cultura  e mesmo da condição político-administrativa). A verdade é que o volume inicial da série Ilha já fora editado em 1975;   o meu demorado acesso à poesia madeirense atestava a dificuldade de comunicação e circulação que envolve estes processos, os obstáculos que é necessário vencer para que a  voz insular consiga fazer-se ouvir para lá do seu espaço de origem.[1]

A escolha de um título como Ilha pareceu-me, então,  funcionar como um sinal territorial, não necessariamente temático, capaz de assinalar à partida um lugar de proveniência e radicação, que na sua dimensão informativa constituía igualmente uma manifestação daquela «impulsividade afirmativa» que falava Vitorino Nemésio por esse mesmo tempo de 1975 e a propósito das suas coisas e gentes açorianas  –   uma dupla afirmação, aliás, a de uma actividade poética e a de um   espaço cultural insular, o madeirense. No prefácio que escreveu para Ilha 2, Natália Correia acentuava a articulação entre essas duas vertentes, num discurso de formulação mítica e entoação tribunícia dirigido aos «cornígeros exegetas» continentais, convidando-os a  aproximarem-se do mistério da criação poética, que é sempre um gesto insulado, mesmo quando a referencialidade empírica não se manifesta nas malhas do texto ou  nele apenas aparece   em disseminação  subtil  através de processos de transfiguração que lhe são próprios. Convocando a ilha enquanto realidade e mito,  para falar de uma amostra  de poesia e poetas madeirenses, Natália Correia deixava registados alguns aspectos pertinentes sobre a poesia genericamente entendida como acto pessoal e íntimo, mas ainda enquanto expressão associada a circunstâncias concretas de natureza temporal e espacial; o seu apelo aos referidos exegetas para que viessem ao encontro da poesia ali reunida e se dispusessem a conhecê-la é, sob forma invertida,  a reafirmação dos constrangimentos que afectam, em termos institucionais, a acessibilidade da poesia madeirense (e insular, poderá dizer-se) ao seu espaço interno próprio e a outros contextos fora do seu território.[2]

Esta digressão inicial destinou-se a assinalar que, passados quarenta anos, o aparecimento de Ilha pode ser considerado  um daqueles acontecimentos que com o tempo se tornam um ponto de referência e se  inscrevem na história como um elemento separador. No  caso de Ilha, em concreto,  é possível hoje efectuar uma leitura daquilo que entretanto ocorreu no campo poético, os percursos aí já anunciados e desenvolvidos, a sua consolidação, ou os que não tiveram sequência, bem como os novos que se revelaram e construíram também o espaço da sua voz (independentemente de sabermos que as organizações antológicas estão sempre sujeitas a uma selecção e exclusões que podem tornar precária uma tentativa de leitura abrangente e «completa» dos factos).

Vistos  sob este prisma, os Cadernos de Santiago apresentam alguns traços que os individualizam. Desde logo, a sua amplitude, reunindo mais de duas dezenas de autores e, sobretudo, concedendo a cada um deles uma representação textual mais extensa e coesa, que possibilita   ao leitor uma compreensão  mais alargada  do que é habitual em organizações deste género, tanto a nível do espaço cultural  em si, como principalmente do universo poético individual, das suas tensões internas e dos seus processos expressivos, dos recursos imagéticos e da relação com a própria linguagem. Essa compreensão acaba por ganhar um contributo precioso com a nota  crítica   que acompanha cada poeta: elaboradas por uma (também) selecção de leitores primeiros e «instrumentados» (como se diz nos manuais), elas constituem valiosos propiciadores de leitura,  na medida em que constituem uma abordagem inicial e sintética, lançando luzes e abrindo caminhos para  uma aproximação aos autores antologiados.   Como  cada poeta constrói o seu universo próprio,   o que resulta  de um projecto da natureza de Cadernos de Santiago é uma diversidade de sistemas, de poéticas heterogéneas, a que corresponde uma salutar diversidade das abordagens e leituras.

Se o título desta colectânea, na sua dimensão metafórica, parece elidir a vinculação poética a uma circunscrição insular,[3] a verdade é que a sua organização interna, obedecendo a um Mote seguido de Variações e Glosas,  abre caminho a uma leitura nesse sentido, sobretudo quando esse mote é constituído por um texto como «Ilha», de José Agostinho Baptista. E sobretudo quando nesse texto se inscrevem os signos de uma condição insular  intimamente transformada em experiência e memória:   dos objectos, dos seres amados, das imagens fulgurantes e das  sensações de um tempo, o da infância, num espaço marcado pelo sentido  da distância e da lonjura,  que desde logo evoca o poder da sua força centrífuga. Daí, os correlatos motivos da partida e da errância, da deriva  e da experiência do mundo, num misto de libertação e de exílio que há-de tornar-se,  um dia,  movimento de regresso, transformado este  numa forma outra de extraterritorialidade, agora interna. Inquietação insular, em síntese,  no modo de  perceber a relação com  o «mundo abreviado» (V. Nemésio)  da ilha, oscilando entre a nostalgia e amargura, e a  resolver-se no ofício da escrita, enquanto lugar de expressão de tudo isso e também ofício de viver.

Um mote destes deixa espaço aberto a uma pluralidade de glosas e variações, em aproximação  ou em  afastamento, na retoma e exploração de um tópico singular e restrito, numa dimensão mais vincadamente «referencial»  ou mais metafórica, em que a ilha tanto pode ser a matéria concreta e sensorial «recolhida» sob uma luz solar como tornar-se um reduto íntimo,   pessoal, uma espécie de sinal impresso e inseparável do eu poético, susceptível de manifestar-se mesmo no espaço do grande mundo.  Nalguns casos, a ilha constrói-se como organização das imagens poliédricas de um tempo já distante, recuperando as imagens dos elementos primordiais; noutros, ela pode ser figurada como  casa, lugar de refúgio e aconchego, mas noutros ainda a visão que nos chega é disfórica, de uma experiência de desconforto e, mais do que isso, de olhar distanciado e crítico, mesmo de conflito aberto, numa situação em que a dimensão social se torna muito mais premente do que  a subjectividade lírica.

A chamada de atenção para esta  inscrição do lugar (seja ele a ilha ou o mundo) não deve levar-nos a subalternizar a diversidade da dicção poética, os modos como cada autor equaciona a sua relação com a linguagem, na procura do meio mais adequado à construção da sua voz. Se há um dado geral que é o da vigilância sobre o discurso  é possível ainda encontrar traços particulares da expressão individual, entre, por um lado, a contenção  que se traduz numa depuração do verso e a instauração de uma abertura para o silêncio e, por outro lado, uma discursividade transbordante e de natureza oralizante,  de longa respiração; mas é possível encontrar  também aí uma organização textual sobre a base da «montagem», da enumeração e da acumulação nominal como forma de captar a totalidade  do mundo, com efeitos no ritmo do próprio poema. E ao lado de poemas cujo fazer assenta no questionamento da linguagem, da sua (in)capacidade expressiva,  ou na auto-reflexão sobre o próprio processo de construção, outros atestam a sua errância textual, na medida em que convocam textos anteriores, fragmentos alheios, e os reescrevem em novo contexto, atestando com isso a consciência da escrita também como uma memória da literatura, da cultura na sua vertente erudita ou popular.

Por tudo isto e por muitos outros aspectos não referenciados  nesta nota de conjunto, os Cadernos de Santiago constituem uma consistente e elucidativa mostra da actual poesia madeirense, ao mesmo tempo que representam um valioso instrumento para o seu conhecimento e para a sua divulgação junto do público.

 

[1] Também  já de 1977 era o volume organizado por A. J. Vieira de Freitas, Da Ilha que Somos, e que só me chegou bastante mais tarde.

[2] Estas questões de natureza social e institucional são objecto de análise por parte de Giampaolo Tonini em Poeti Contemporanei dell’Isola di Madera (Venezia:  Centro Internazionale della Grafica di Venezia, 2001), que aí procede ainda a  uma pormenorizada abordagem histórica.

[3] Esse apagamento da  referência geográfica ocorria já em Pontos Luminosos, embora o  subtítulo  indicasse tratar-se de uma antologia de poesia açoriana e madeirense do século XX. Pontos Luminosos, org.,  prefácio e notas de Diana Pimentel, selecção de poemas por Maria Aurora Carvalho Homem  e Urbano Bettencourt. Porto: Campo das Letras, 2006.

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