Vitorino Nemésio: para um pensamento insular atlântico

CArlos Cordeiro (463x640)

 

[ A minha participação em História, Pensamento e Cultura  (Ponta Delgada, 2016), pp. 369-379]

 

A obra literária de Vitorino Nemésio constitui a manifestação proteiforme de um autor inquieto e curioso, incapaz de estabelecer-se  num domínio único e que fez da experimentação de diferentes áreas expressivas e variados géneros discursivos um modo complexo de apreender e «resolver por escrito»  a sua relação com o mundo, particularmente o açoriano. Na lírica e  no romance, na crónica e no texto expositivo, em discurso extensivo e no apontamento ocasional, e sempre num  ambíguo  registo  «racional e comovido» (como se definiu poeticamente),  o autor foi deixando um conjunto de reflexões e intuições suficientes para, em leitura globalizante, configurarem  um pensamento insular: a formulação  de um modo de compreender o mundo açoriano, a relação do homem com a história e com  o espaço.

Fruto de uma  atividade de  pensador e  criador de mitos (e de pensador através dos mitos), os Açores transformaram-se literariamente em Nemésio numa espécie de condado faulkneriano que não precisou que lhe desenhassem as fronteiras, pois a sua circunscrição espacial estava naturalmente definida pelo Atlântico e pela distância: realidade e mito, entidade empírica e ficção, constatação e impressão pessoal, tudo isso serviu ao escritor para erguer um modelo de interpretação da condição açoriana (e,  por extensão,  insular atlântica), com que viria a coincidir um não açoriano como Eduardo Lourenço.

Numa perspetiva cronológica, o ano  de 1932 constitui um ponto de referência nesse pensamento, devido à publicação de dois textos curtos com o mesmo título de «açorianidade»[1] e que assinalam a entrada em circulação do vocábulo e do respetivo conceito, sujeito a posteriores desenvolvimentos e utilização (por vezes com  desvirtuações decorrentes da  banalização associada ao uso do termo[2]). A verdade é que as coisas não começavam aí, vinham já da década anterior, e também não acabavam aí: quarenta  anos depois, em 1975, Nemésio voltará a pronunciar-se explicitamente sobre a açorianidade e a reafirmar os seus contornos semânticos e a sua abrangente dimensão  sociocultural num contexto bem  mais complexo do que o dos anos trinta.

Em qualquer dos casos,  a distância, o apartamento, constitui um elemento  recorrente,  e básico, dos textos nemesianos, enquanto referência a uma situação natural considerada no seu imediatismo geográfico, a de um arquipélago remoto, localizado longe dos continentes, entregue ao seu curso temporal e de alguma forma alheio a  grandes convulsões históricas e sociais (que não às geológicas).  O «corpo autónomo de terras portuguesas» (1932) reenvia a essa  realidade da descontinuidade e do hiato representada pela presença do mar. Considerada deste modo num primeiro momento (que pode, afinal, ser apenas o de uma leitura), a geografia constitui, não obstante, um fator de diferenciação e condição  de uma especificidade que,  posteriormente, se projetará no homem, no seu comportamento e na sua maneira de compreender o mundo e relação com ele: ou seja, o meio geográfico passará a ser entendido como  elemento condicionante do homem.

Esta é uma noção presente desde cedo no pensamento de Nemésio, como se pode ver  em «O Açoriano e os Açores», ao apresentar ao seu público académico de 1928 o objetivo da palestra que lhe  dirigia: «creio bem que adivinharão através das minhas palavras a existência de uma realidade açoriana que não só geograficamente se manifesta, mas que sobretudo é viva numa ética própria, numa vida – em suma – em   muitos pontos especializada e diferenciada.» (21995:88)

Ora, a explicação para essa diferenciação era já adiantada aí em termos que ganharão maior relevo e,  sobretudo,  terão um eco público muito mais forte e duradouro com o  texto de 1932,  a saber, a geografia e a história. Elas explicam, segundo Nemésio, aquilo em que se transformou o pré-açoriano, esse  homem português dos Descobrimentos, transposto para um novo habitat e submetido aos condicionalismos do «viveiro insular». A descrição geral do açoriano, antes da particularização a que Nemésio se entrega de seguida,  passa pela consideração do que foi uma inevitável  adaptação histórica e que ficaria, afinal,  como traço do «génio» e  comportamento ilhéus, em que se pode encontrar  «não a têmpera exigida contra o aborígene rebelde às disciplinas civilizadas, mas a paciência, a resignação e uma conformidade de quem muitas vezes teve de fazer o seu pão com as raízes do fieito.» (21995: 93-94) Essa «conformidade» não pode ser vista  como uma desistência, antes se há de entender como atitude de altiva  persistência, de  perseverança, uma espécie de muda teimosia,  que um dos quatro textos de 1975 definirá como a «ira dos mansos», ainda assim radicada nos factores anteriormente referidos: «a força de tradição,  de raiz portuguesa num solo e num clima tão outros, dá ao açoriano um ânimo forte, a tranquila altivez capaz da chamada “ira dos mansos”.» (1975: 11).

No universo das referências a  Nemésio, talvez nenhum outro fragmento seja tão convocado como «a geografia, para nós, vale outro tanto como a história…» (1932).  Como sabemos, não é a novidade da formulação e do pensamento que está em causa, os dois termos já se encontram empregues em anterior contexto; o que agora lhes permite funcionar de outra maneira é a  natureza sintética da moldura discursiva que os envolve. O que era expositivo  em 1928 torna-se afirmação lapidar em 1932 e esse carácter incisivo ajudará a perceber a sua circulação e sobrevivência; graças ao seu teor assertivo e   breve, próprio dos enunciados aforísticos,  ele presta-se  a uma memorização sem grande esforço e a uma convocação instantânea, adequada à circunstância do discurso e da comunicação, para mais pondo em relevo o fator geográfico como elemento configurador da condição humana nas ilhas, aparentemente ao mesmo nível da história.

Importa, no entanto, referir que a acomodação discursiva do fragmento citado se faz à custa do pensamento e da sequência sintática do texto de Nemésio, pela supressão de uma segunda frase que explicita os termos da primeira. Na verdade, o período completo é o seguinte: «A geografia, para nós, vale outro tanto como a história, e não é debalde que as nossas recordações escritas inserem uns cinquenta por cento de relatos de sismos e enchentes.» Ou seja, dentro daquilo que é a história açoriana (enquanto sucessão de eventos da vida de uma sociedade no seu devir temporal num determinado espaço e enquanto memória escrita desse processo), uma boa parte  desse campo está preenchido por factos associados à condição geográfica, geológica, das ilhas; o «meio milénio de existência sobre tufos vulcânicos» (1932) ganha assim um relevo que acaba por relativizar a importância da história tout court ou por torná-la desimportante, pelo menos se a considerarmos na sua  dimensão política.

Este é, aliás, o teor dominante no outro texto publicado com o mesmo título de açorianidade (1932a).[3] Se não parece muito curial ver  na reincidência no título o efeito de qualquer distração do autor, o   que podemos deduzir daí é o facto de em ambos os textos Nemésio pretender dar conta da sua «consciência de ilhéu» e de afirmá-la publicamente em contextos comunicativos diferentes. Com efeito, publicado originalmente em Lisboa, Açorianidade [II] constitui uma espécie de reavivar da memória ou uma lição expressamente dirigida ao público continental: isso poderá explicar a insistência de Nemésio nas vicissitudes do relacionamento histórico entre Portugal e o território insular, para com isso assinalar  a forma distanciada como a vida açoriana sempre se desenrolou, num ritmo interno sem sobressaltos e de pequenos acontecimentos, um ritmo que «só alguns dramas, encenados lá» vão interrompendo e transformando  o arquipélago num «viveiro de experiências políticas exteriores», a resistência do Prior do Crato, a Restauração e o Liberalismo  (1932a: 323).[4]

Como  discurso dirigido ao outro lisboeta e político,  Açorianidade [II] ganha contornos de uma exposição (queixa subtil?) e os termos que recobrem a perspetiva nemesiana do relacionamento  da metrópole com as ilhas  podem ser a já referida  distância (em modo eufemístico) e ainda o esquecimento e o desinteresse. A explicitação desse pensamento é um pouco extensa, mas merece citação integral:

 

«Para um país que fosse senhor dos mares e não simplesmente o seu primeiro ocupante histórico (uma Inglaterra, uma América do Norte ou mesmo uma Itália inquieta e bastante provida de estaleiros), os Açores seriam uma destas bases de refresco cheias de idas e vindas, povoadas de um alto frenesim que, a par das nuvens, acrescentaria ao crocitar dos cagarros o roncar dos aviões. Assim, com uma velha canhoneira em estação num dos portos, fazendo no Verão a escala turística das suas cidadezinhas, Portugal tem mantido naquelas solidões uma soberania obscura, indisputada e modesta.» (Nemésio, 1932a : 324)[5]

 

Reduzida, assim, a importância da história externa, política, Nemésio valorizará fundamentalmente o decurso da história interna, a sequência de acontecimentos decorridos em cinco séculos de existência e que, se bem lida a sua frase na formulação integral, são, em  grande parte,  acontecimentos de natureza geográfica ou à geografia associados: os «cinquenta por cento  de relatos de sismos e enchentes» do registo histórico  representam um outro nível de fenómenos dentro dessa situação primordial que é a do afastamento e da distância,  e constituem um dos fatores que justificam e explicam a realidade dos Açores como «viveiro insular».

A metáfora está  naturalmente associada a valores semânticos  de experimentação e laboratório e pode entender-se numa dupla vertente: por um lado, a referência aos Açores enquanto espaço de chegada, lugar de aclimatação, proteção  e desenvolvimento de espécies que aí se recolheram, adaptando-se a novas condições e em virtude disso  diferenciando-se da origem (o que é também uma forma de distanciação); por outro lado, em   momento posterior, o viveiro é um recurso que proporciona o transplante e a  replantação, num continuado processo de expansão e nova aclimatação, que não se faz sem uma outra diferenciação. O «homo açorensis» sem antepassados de que fala o Nemésio criador de mitos, em parte pela voz do cientista-poeta Monsieur Queimado (Nemésio, 1940)[6]  seria o modelo «puro» e radical   desse primeiro momento,  resultante do processo de adaptação a um novo habitat, num processo de vaga filiação darwininana.[7]  A segunda vertente do viveiro,  a do transplante, tem a ver com o momento de afastamento da casa insular e  de dispersão pelo mundo, aspecto a que Nemésio também é particularmente sensível, ao consignar  ao açoriano uma espécie de missão em que se prolongava de algum modo a tarefa  do primeiro momento e se reconhece igualmente o esforço e o espírito empreendedor de quem «civilizou largamente as suas ilhas e ainda teve vagares para ajudar a fazer a terra a alheia, sobretudo o Brasil e a América.» (Nemésio, 31998: 51)

A «consciência de ilhéu» de Nemésio e a «impulsividade  afirmativa»  que o levam a esse trabalho continuado de compreensão e interpretação da realidade social  e humana poderão, vistas de fora, ser levadas à conta de algum excesso de zelo e, a partir daí, relativizadas nos seus resultados e nas suas leituras. A verdade é que mesmo um não açoriano como Eduardo Lourenço, homem de cultura e intérprete da história portuguesa,  não deixou de, em momentos diferentes, assinalar essa diferenciação ou distanciação de que fala Nemésio e em termos que muito se aproximam das formulações adiantadas pelo escritor açoriano.

Fê-lo, em primeiro lugar, no decurso da VIII Semana de Estudos dos Açores, em Angra do Heroísmo, ao referir-se aos Açores como «território e realidade singular no espaço de raiz e invenção portuguesas a que os séculos, a distância e os homens imprimem uma identidade particular.» (Lourenço, 1988: 52). Se os séculos reenviam a história, a distância institui no discurso a noção da geografia, na sua dimensão imediata e com as implicações que os textos de Nemésio devidamente explicitam, uns e outra condicionando a ação humana, o modo de ser  particularmente diferenciado. De resto, essa noção do afastamento ocorre ainda no interior do discurso de Eduardo Lourenço e graças a  um processo comparativo que, por maioria de razão, dá um peso mais significante à condição açoriana, mas acrescentando  uma perspetiva diferente, a da distância sentida e apercebida intimamente, e num processo que envolve já a perceção que o outro tem dos Açores e dos açorianos:

 

«se um poeta portuense contemporâneo podia dar a um dos seus livros o título “Lisboa é longe”, que título os açorianos podiam dar aos seus livros escritos ou não escritos para exprimir a distância que os separa de Portugal continental? E vice-versa, que título senão o de que os Açores são longe, podemos nós dar ainda agora, menos á distância física que à interior, à realmente vivida, que nos separa a todos do vosso maravilhoso arquipélago?» (Lourenço, 1988: 57)

 

Eduardo Lourenço voltaria a ocupar-se do caso açoriano no interior de uma reflexão sobre os imaginários lusófonos, o tempo e o modo como a matriz lusitana do mundo se foi multipolarizando e descentrando,  até se tornar modelo da «cultura em arquipélago», em resultado da própria dispersão portuguesa pelo mundo. Para o ensaísta, o exemplo  puro disso são os Açores:

 

«Aqui começámos a ser  mais e menos do que éramos e, sem o saber ainda, outra coisa, primeiro vivida sem consciência disso, como tudo no mundo, e, pouco a pouco, num misto de fascínio, orgulho e distância que não era só a do ponto de partida europeu, mas de nós mesmos. Esta distância, paradoxalmente sofrida e amada, nada tem a ver com a tão decantada consciência de periferia ou margem dos europeus da extrema Europa (…), mas de uma espécie de sublime e ontológico exílio. E é nesse exílio e contra esse exílio que a alma açoriana se construiu, emigrando ou lutando para não emigrar, mas, sobretudo construindo sobre ele uma música que no interior da cultura lusíada desenha uma outra configuração (…)Também aqui confluem ou refluem ecos e miragens de uma peregrinação pelo mundo propriamente açoriano que não tem equivalente no continente. Não como restos da ressaca imperial, mas como relíquias de viagens, estadas noutros mundos e, coisa importante, noutras culturas e línguas, como se nos tivéssemos ainda dispersado, perdidos e achados em mares da China de outrora.»  (Lourenço, 1999: 190-191)

 

Ora, se (para Lourenço) Antero e Nemésio polarizam, respetivamente,  a representação da universalidade abstracta  e o universal concreto dessa configuração, que outra coisa ocorre no interior da obra literária do escritor terceirense senão essa música que, na voz pessoal do poeta ou na voz não pessoal das personagens, em cada momento transcreve a consciência do exílio, do apartamento e da longitude (termos do próprio Nemésio) ? E que não deixa de ostentar  os sinais e os termos de um forte apego à (sua)  terra, mesmo quando um não menos forte  «instinto de amplidão» (Nemésio, 31998: 62),  impele o açoriano a aventurar-se na terra dos outros. Neste sentido, Mau Tempo no Canal  constituirá a representação sublimada dessa identidade particular para que concorrem o tempo, a distância e os homens. Principalmente em Margarida, mas não apenas nela, está presente a consciência de pertença a um espaço com uma história própria (mesmo que nem sempre a relação da personagem com o passado se estabeleça  de forma pacífica), e a inquietação que constitui o traço indelével do temperamento da heroína de Nemésio radica numa dialética  do fechado e do aberto, na tensão entre o sentimento de amor à terra e o desejo da viagem como forma de libertação e conhecimento do mundo: na sua formulação imaginária, a viagem é ainda uma caminhada em  busca de um passado mitificado, mas circunscrito à história interna e aos seus momentos fundacionais.

A outra história  de que Mau tempo Canal se alimenta é a dos  acontecimentos miúdos  que entretecem as relações de família (sobre as quais  vem projetar-se o lastro do passado, as memórias do  lido e do vivido, como um selo e um signo), bem como a dos jogos sociais  entre as personagens e as classes a que pertencem  e justificam o fluir da intriga no decurso de um tempo demorado, por vezes quase suspenso da vontade e da força do espaço geográfico, cuja função narrativa está muito para lá da cenografia, antes se desenvolve  como um poder atuante  sobre a vontade humana. Tudo isso num «mundo abreviado» (expressão cara a Nemésio) e distante, a que a guerra que consumia a Europa nesse ano de 1918 chegava quase apenas através dos exercícios de treino (simulacros)  com submarinos imaginários. A grande história (ou História com maiúscula) passa relativamente ao lado do espaço insular, como,  aliás,  se verificará de novo em S. Jorge, onde apenas um título nobiliárquico concedido em paga de serviços eleiçoeiros constitui o rasto comercial da atividade política na ilha. A história que Margarida poderá ler em S. Jorge é aquela que, nemesianamente, se lhe depara no «manuscrito da Urzelina» (os sinais ainda próximos e vivos da violenta erupção de 1808, as marcas de destruição impressas no corpo da ilha)  e na memória transmitida oralmente pelo relato da caminhada avassaladora do fogo e da morte, e da sobrevivência milagrosa também; como é ainda aquela que por associação aparentemente fortuita, e em registo escrito nas páginas do Arquivo dos Açores, lhe chega do grande terramoto de Vila Franca do Campo, em 1522.   Com isso, a geografia transforma-se em história. E  esta perde a sua individualidade ou significado pontual  para ganhar a dimensão de história geral açoriana: os episódios naturais, a sublevação do solo   insular, a extensão do medo e dos pavores, as crenças coletivas e o sentido do mistério, as construções do imaginário (e ainda, remotamente a dispersão pelo mundo que, por norma, os  fenómenos vulcânicos (e sísmicos) provocavam.

Numa narrativa  que efetua   um notório descentramento para proceder a um recentramento outro (desdobrado em recentramentos vários, aliás) Nemésio ilustrou ficcionalmente um conjunto de anotações, formulações dispersas e leituras do mundo  açoriano enquanto espaço naturalmente autónomo, mas a que acresce a natureza, também diferenciada, de uma humanidade submetida durante mais de  cinco séculos  aos     condicionalismos da geografia e às contingências da história.

NOTAS 

[1] Durante muito tempo, referenciou-se apenas aquele de que se tinha conhecimento, publicado em Ponta Delgada no n.º 7-8 da revista Insula  destinado a celebrar os quinhentos anos do descobrimento dos Açores (Nemésio, 1932). Mas no decurso da investigação na imprensa açoriana da primeira metade do século XX, Carlos Cordeiro veio a deparar-se com um outro texto de Nemésio também intitulado «Açorianidade» e publicado no Correio dos Açores de 6 de setembro do mesmo ano; tratava-se da transcrição de  um artigo inserido no número especial do Diário de Notícias, de Lisboa,  comemorativo do V centenário dos Açores (Nemésio, 1932a). Tive possibilidade de analisar algumas das  diferenças entre os dois, resultantes do diferente contexto comunicativo e da natureza diversa dos públicos-alvo, o insular e o continental português (Bettencourt, 2001).

[2] Leia-se Almeida (22011).

[3] Por ocasião da sua republicação em 2001, designei-o por Açorianidade [II], para simplificar a identificação; mantenho aqui esse mesmo processo de referência e cito o número de  página por esta edição.

[4] Pensamento idêntico aparecia já em Paço do Milhafre (1924), numa narrativa intitulada «Brumolândia», uma  versão vagamente mitificada    da história dos Açores; aí são referidas as «convulsões políticas de transplante» que vinham romper o ensimesmamento da vida rural, pastoril e piscatória insular  –  não raro, «causas perdidas da nação que a [Brumolândia] anexara eram lá ganhas e salvadas.» (Nemésio, 22002: 50).

[5] Em Corsário das Ilhas, Nemésio não deixará de registar as consequências  sociais, culturais e económicas da presença dos americanos nas Lajes, os resultados da implantação de «uma pista de aviões numa eira».  O «roncar dos aviões»,  desejado em 1932,  ganhará, no entanto, contornos ameaçadores nas vozes  feminina e  masculina que se fazem ouvir no interior de «Cantigas  ao Campo das Lajes», em Festa Redonda (1989: 313-315); a  base de refresco, instalada no  contexto da II Guerra Mundial, revelou-se um acontecimento ambivalente, pelos benefícios e pelos perigos daí decorrentes, e os dois textos de Nemésio acabam por dar muito boa conta disso,  sob diferentes formas e expressões.

[6] Um homem, em síntese, integrado numa estrutura açoriana autónoma, com uma história  «sans  éclat, sans Antiquité, sans Moyen-Age, sans Renaissance ni humanisme.». Cito a partir de Gouveia (1986:415).

[7] Veja-se especialmente  Pires (1998). Uma metáfora de teor aproximado    ocorre em Mau Tempo no Canal, na voz de Mateus Dulmo: «Os Dulmos eram aves do Faial há mais de quatro séculos, como os milhafres e os cagarros. Flamengos de casta, sim, mas deitados em choco ali no mormaço das ilhas» (Nemésio, 81988: 259). A imagem é, apesar de tudo,  muito menos radical do que a de Monsieur Queimado, pois a adaptação ao espaço insular não anulou de todo os traços da origem flamenga.

REFERÊNCIAS 

ALMEIDA, O.T. (22011), «Usos e abusos do conceito de açorianidade», Açores açorianos e açorianidade. Angra do Heroísmo: Instituto Açoriano de Cultura, pp. 117-121.

BETTENCOURT, U. (2001), «Uma outra Açorianidade – um texto esquecido de Nemésio», in AA.VV., Vitorino Nemésio-1.º Centenário do Nascimento, separata da revista Atlântida, Angra do Heroísmo, IAC, pp. 321-324.

GOUVEIA, M.M.M. (1986), (org. e introd.), Vitorino Nemésio: estudo e antologia. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa.

LOURENÇO, E.  (1988), «Da Autonomia como Questão Cultural», in AA.VV., A Autonomia como Fenómeno Cultural e Político. Angra do Heroísmo: Instituto Açoriano de Cultura, pp. 51-62.

__________ (1999), «O novo espaço lusófono ou os imaginários lusófonos», A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia. Lisboa:  Gradiva, pp. 183-192.

NEMÉSIO, V. (1932), «Açorianidade»,  Insula, n.º 7-8, julho-agosto.

__________ (1932a), «Açorianidade», Correio dos Açores, 6 de setembro. [Transcrito e  precedido de comentário por Bettencourt (2001)].

__________ (1940), Le Mythe de Monsieur Queimado. Separata do Bulletin des Études Portugaises et de l’Institut Français au Portugal. Coimbra: Coimbra Editora.

__________  (1975), Açores Actualidade e Destinos. Angra do Heroísmo: Edições Atlântida.

__________ (81988), Mau Tempo no Canal. Venda Nova: Bertrand Editora.

__________ (1989), Festa Redonda. Obras Completas de Vitorino Nemésio, Vol. I–Poesia. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

__________  (21995), «O Açoriano e os Açores», Sob os Signos de Agora. Obras Completas de Vitorino Nemésio, Vol. XIII. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa a Moeda. O texto corresponde a uma conferência proferida por Nemésio em fevereiro de 1928.

_________ (31998), Corsário das Ilhas.  Obras Completas de Vitorino Nemésio, Vol. XVI. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

_________ (22002), Paço do Milhafre. O Mistério do Paço do Milhafre. Obras Completas de Vitorino Nemésio, Vol. VII. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

PIRES, A.M.B.M (1998), « “O Mito de Monsieur Queimado” – Uma imagem mítica dos Açores», Vitorino Nemésio Rouxinol e Mocho. Praia da Vitória: Câmara Municipal, pp. 57-64.

 

 

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