Um Açoriano, Missionário em Timor -livro de D. Carlos Ximenes Belo

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Num texto datado de 1928, Vitorino Nemésio utilizou a metáfora «viveiro insular» para referir as condições históricas e geográficas em que se formara e desenvolvera  o modo de ser açoriano.[1]

A metáfora está  naturalmente associada a valores semânticos  de experimentação,   laboratório,  e pode entender-se numa dupla vertente.

Na primeira delas, pode ver-se a referência aos Açores enquanto espaço de chegada, lugar de aclimatação, proteção  e desenvolvimento de espécies que aí se recolheram, adaptando-se a novas condições e em virtude disso  diferenciando-se da origem (o que é também uma forma de distanciação); por outro lado, o viveiro está associado a uma acção posterior de transplante  e replantação em novo espaço e contexto.

Esta segunda dimensão do viveiro tem a ver com o momento de afastamento da casa insular e  de dispersão pelo mundo, aspecto a que Nemésio também é particularmente sensível, ao consignar  ao açoriano uma espécie de missão em que se prolongava de algum modo a tarefa  do primeiro momento e se reconhece, de igual modo, o esforço e o espírito empreendedor de quem «civilizou largamente as suas ilhas e ainda teve vagares para ajudar a fazer a terra a alheia, sobretudo o Brasil e a América.».[2]

Ora, é aqui, neste domínio, que penso ser possível enquadrar uma parte importante da história açoriana e de que este livro de D. Carlos Ximenes Belo representa um caso individual, concreto – isto é, a acção missionária da Igreja dos Açores, a sua presença  evangelizadora nos diferentes continentes. É certo que no texto de Nemésio poderá ler-se, de preferência, uma alusão à emigração propriamente dita, cujas motivações (materiais, económicas, se situarão em campo diferenciado (em parte, pelo menos) daqueles que deixaram a sua terra insular em resposta a um chamamento religioso, para cumprirem a missão que sentiram estar-lhes destinada e em que se articulavam a acção evangelizadora e a civilizadora.

Não existe, que eu saiba, uma história geral e sistemática desta componente missionária da Igreja açoriana, embora algumas abordagens pontuais nos possam dar conta do seu peso histórico nos mais diversos espaços, destacando algumas das suas figuras proeminentes.[3] Numa monografia sobre o contributo da ilha do Pico para esse processo, e significativamente intitulada Daqui houve Missionários até aos confins do mundo, o Padre José Carlos (ele próprio um picoense com  presença em Timor[4]) apresentava uma lista de quarenta e seis padres cuja acção missionária começara na segunda metade do século XIX (1869) e na costa leste dos Estados Unidos, junto das comunidades migrantes. A partir de 1931, com a chegada do Padre Jaime Garcia Goulart, que viria a ser eleito o primeiro bispo de Timor (em 1945), seguir-se-iam mais cinco sacerdotes picoenses a exercer o seu múnus sacerdotal neste território.[5]

Um texto informativo, publicado em 2003, por ocasião da participação de D. Carlos Ximenes Belo nas festividades de Santo Cristo  dos Milagres, fazia um inventário mais alargado da presença do clero açoriano em território timorense, particularizando a sua proveniência de outras ilhas como a Terceira, S. Jorge e S. Miguel.[6]

Entre  os padres naturais da ilha Terceira, encontra-se precisamente o Padre Carlos da Rocha Pereira, de que se ocupa este  livro de D. Carlos Ximenes Belo, Um Açoriano, Missionário em Timor.[7]

O livro traça o percurso biográfico de Carlos da Rocha Pereira desde o nascimento na ilha Terceira (1910) até à sua morte em Timor (1994), onde missionou desde 1937, ano em que recebeu a ordenação sacerdotal, após o período de formação (1921-1937) no Seminário de São José, em Macau, que foi também,  e no seu campo específico de formação, uma espécie de viveiro (para usar de novo a metáfora inicial).

Naturalmente, a parte substancial do livro é ocupada com os quase cinquenta anos em que o Padre Carlos R. Pereira exerceu o seu ofício em Timor, mais  concretamente nas Missões de Cova-Lima e de Sobaida (onde se cruzará com o seu conterrâneo terceirense, o Padre Januário Coelho da Silva), mas também  como capelão do Hospital e das prisões de Dili e  ainda como «missionário ambulante», percorrendo o território e cooperando com outros colegas, já depois de ter passado à situação de aposentado (entre  1983 e 1984 aceitaria mesmo ficar encarregado  da Missão de Liquiçá). A informação genérica fornecida pelo autor a propósito das  diferentes circunscrições e missões por que passou o Padre Carlos permite avaliar as condições materiais e religiosas também em que exerceu a sua acção evangelizadora.

A Parte II e a Parte III desta obra são preenchidas fundamentalmente com as crónicas que o Padre Carlos R. Pereira começa a publicar em  1949, na  Seara, o suplemento semanal do Boletim Eclesiástico da Diocese de Dili, criado nesse mesmo ano por D. Jaime Garcia Goulart, e que o Padre Carlos descreve, logo na sua primeira intervenção escrita,  como o «arauto dos nossos trabalhos para estímulo de   muitos outros» (p. 48).

Na verdade, o que ressalta da leitura das crónicas  do Padre Carlos transcritas neste livro é sobretudo a anotação minuciosa das diversas manifestações da vida religiosa, com a preocupação de dar a conhecer o andamento  concreto das  comunidades e a sua vivência da fé, esperando que ao mesmo tempo essa divulgação ajude  a despertar outras vocações, a incentivá-las para o serviço da messe, porque «é vasta a seara, mas os operários são poucos», como concluía na sua primeira crónica, jogando simultaneamente com a alusão bíblica e o título do jornal para que escrevia. As festas dos grandes ciclos religiosos com os seus rituais, a participação dos fiéis nas diferentes práticas materiais e espirituais, as acções de formação cristã, eventos como a visita do Bispo, e mesmo as andanças do Padre Carlos por diferentes Missões e Estações Missionárias, mas também a vida dos Colégios, o progresso da escolarização e os seus resultados pormenorizados em termos de aproveitamento (e insucessos), os trabalhos agrícolas dos alunos nos campos do colégio –  tudo isso nos é dado com precisão e rigor, por vezes recorrendo aos dados estatísticos e conferindo  a estas crónicas um pendor de relatórios cuja função acaba por prolongar-se no tempo, muito para além do momento da sua publicação na Seara.

Efectivamente, o que deste livro decorre é, em primeiro lugar,  o perfil do missionário, o seu empenhamento junto das comunidades que serviu,  a dedicação de homem de Deus junto dos outros homens e o sentido de missão que orientou a sua actividade ao longo de quase meio século em Timor. Mas a verdade é que,  pelo teor concreto e preciso dos elementos registados pelas crónicas do Padre Carlos,  pela informação aí veiculada, elas constituem um documento importante para a história da vida pastoral,  e mesmo cívica, em Timor no tempo de vida do missionário açoriano e nos lugares por onde ele passou. Dizer isto é reconhecer, em resumo, o significado deste livro, o seu contributo para o alargamento do nosso conhecimento pessoal e histórico sobre um espaço geográfico e humano, o de Timor, a que nos ligam laços que se perdem no tempo.

Urbano Bettencourt
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Texto lido na apresentação do livro na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, a  28 de Setembro de 2016, no âmbito do 26.º Colóquio da Lusofonia.

Apresentação na Casa dos Açores do Norte (Porto), a 22 de Outubro de 2016.

Publicado no semanário Atlântico Expresso, de 3 de Outubro de 2016

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NOTAS

[1] Nemésio,  Vitorino (1995), «O Açoriano e os Açores», Sob os Signos de Agora, 2.ª ed., Obras Completas, vol. XIII. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda,  pp. 88-101.

[2] Nemésio, Vitorino (1998), Corsário das Ilhas, 3.ª edição, Obras Completas, Vol. XVI.  Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, p. 51.

[3]Veja-se, por exemplo,  as duas obras de Maria Guiomar Lima, José Vieira Alvernaz – Patriarca das Índias, Arcebispo de Goa e Damão. Angra do Heroísmo: IAC, 2010,    e também  Nascido para Vencer – D. José da Costa Nunes. Macau: Editora Livros do Oriente, 2015. Ou  os trabalhos de Raul Leal Gaião, que ainda no 26.º Colóquio da Lusofonia, terminado ontem, 2 de Outubro, apresentou uma comunicação intitulada «Açorianos em Macau: D. Paulo José Tavares».

[4] Em 1967, o Padre José Carlos (Vieira Simplício) era o director da Seara, de que adiante se falará (veja-se na página 49 o fac simile de um número de Seara).

[5] Apud  Martinho,  Padre Marco, A Vivência da Fé: Expressão da continuidade da Língua Portuguesa na Diáspora Açoriana”. Intervenção na Madalena do Pico, a  27 de outubro de 2012. http://www.adiaspora.com/XI_Aniversario_2012/discurso_marco_martinho.html.  Consultado a 07.09.2016.  A data de 1931 possui  um carácter vagamente indicativo, pois tem em vista a criação da Diocese de Dili em 1940. Antes disso, e enquanto integrado na Diocese de Macau, Timor começara a registar a acção missionária do clero açoriano  já em  finais do século XIX, graças a  D. Manuel Bernardo de Sousa Enes, natural da ilha de S. Jorge e nomeado Bispo de Macau em 1873.

[6] «Santo Cristo para Timor», 12.05. 2003. http://www.azoresglobal.com/canais/noticias/noticia.php?id=2835. Consultado a 07.09.2016.

[7] Belo, D. Carlos Ximenes (2016), Um Açoriano, Missionário em Timor. Edição patrocinada por O Moinho Terrace Café e apoiada pela Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia, S. Miguel, Açores.

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