Imagens do Concelho de São Roque do Pico

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Não é um livro recente. Mas  o facto de ir numa segunda edição e, mais do que isso, o reconhecimento da sua qualidade intrínseca justificam alguma atenção a estas  Imagens do Concelho de São  Roque do Pico (2005; org. de José Manuel Martins Gomes e Paula Maria Oliveira Gil; 2,ª ed. revista e aumentada; concepção e arranjos gráficos de  Mário Leal. Câmara Municipal de São Roque).

Em relação a este livro, creio que nos podemos deter, fundamentalmente, em duas ordens de questões: a do próprio livro em si, a sua organização interna, valor representativo e documental, por um lado; as circunstâncias e as condições da sua génese, da sua concepção, por outro lado.

Na origem remota destas Imagens  está, de facto,  uma exposição fotográfica realizada em 2001 pelo Professor José Gomes com uma turma do 7.º ano na Escola Básica Integrada/Secundária de S. Roque. A exposição organizara-se a  partir de fotografias recolhidas pelos alunos junto das famílias e  acabou por suscitar o interesse e  a adesão dos visitantes; o projecto do livro nasceu aí, a ele veio juntar-se a Professora Paula Gil.

Há em tudo isto alguns aspectos que julgo deverem merecer a nossa atenção.Trata-se, em primeiro lugar, de um projecto que, embora tendo nascido na Escola, ultrapassa o seu domínio físico e acaba por envolver a própria comunidade, tornando-a participante ou, sob outra perspectiva, possibilitando-lhe que se reveja numa actividade desenvolvida pela Escola. Este é um aspecto particularmente grato de  referir, por mostrar que “há mais vida para lá… da sala de aula” e que essa vida implica disponibilidade pessoal, tempo, as tais horas que nenhuma burocracia triunfante  saberá ou estará disposta a contabilizar.

Quanto ao livro propriamente dito, é de realçar o seu propósito organizativo que pressupõe já uma metodologia “científica”, digamos assim,  na abordagem do Concelho e da sua realidade histórico-social: a distribuição dos materiais fotográficos por freguesias e/ou núcleos populacionais e de acordo com itens temáticos como locais e eventos, associações, festas e actividades económicas, entre outros, fornece uma uniformidade de critérios que permite, em contrapartida,  uma  perspectiva da diversidade social, económica do próprio Concelho.

Organizado desta forma, recolhendo imagens que vêm já desde o final do século XIX e sobretudo documentam o século XX, este livro proporciona uma visão da passagem do tempo sobre pessoas e lugares e atesta a existência e o desaparecimento de dinâmicas económicas e industriais, de comportamentos individuais  ou colectivos. No seu particular carácter fragmentário e avulso ( próprio do registo fotográfico), estas Imagens constituem, em último caso, uma narrativa histórica, económica e social do Concelho, com abundante matéria de interesse ainda para o antropólogo.

Lendo o livro com atenção, é possível constatar aquilo que o tempo tem vindo a introduzir na nossa vivência colectiva, como é também possível reactivar uma memória pessoal ou social, evocar pessoas que conhecemos e com quem deixámos já de cruzar-nos e confrontar-nos igualmente com a dinâmica dos próprios espaços, pois, tal como as pessoas, eles nascem, crescem e transformam-se. Mas há ainda  um exercício intelectualmente estimulante (e neste sentido o livro tem um inegável sentido de pedagogia cívica e até política) que consiste em ler as fotografias ao pormenor, reparar (verbo barthesiano) nos sinais que  nos enviam do lado de lá desse tempo suspenso que é o delas: o que vestem as pessoas, ou não vestem; o que calçam, ou não calçam; de que modo se colocam em pose frente à câmara ou, no extremo posto, em que lugares e ocasiões foram surpreendidas pelo ruído brusco do disparo. Fotos como a n.º 231 (do grupo de deportados  políticos dos anos 30)  ou a n.º 37, com as vítimas da crise sísmica de 1973 a dormir em barricas, dizem-nos mais do que o suficiente sobre as condições sociais de um tempo de abandono e misérias (e 1973 está ainda ali,  ao virar da esquina) e trazem-nos a memória  da falta de direitos cívicos  e  o aguilhão desse tempo em que os Açores funcionavam como uma espécie de logradoiro político em que a metrópole vinha despejar os indesejados do regime (Nemésio, eufemisticamente, dizia que os Açores serviam como “lugar de repouso para políticos revoltados”).

Este é, na verdade, um contributo valioso para a nossa memória colectiva. E se é verdade que não devemos ficar reféns da memória, também é verdade que sem ela dificilmente poderemos pensar, ou pensar bem, como afirma Harold Bloom.

Urbano Bettencourt

(2005)

 

 

 

 

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