Antero, leituras

 

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Muito para cá da  sua morte há 125 anos (11.09.1891),  Antero permanece ainda um  enigma que teima em provocar  a nossa perplexidade e em  desafiar a compreensão de uma vida,    sobre a qual tanto as cartas como os sonetos talvez lancem mais sombras do que luz; de outra forma:   a complexidade de uma figura que se ergue já entre os da sua geração como alguém que, estando nela,  a ultrapassa de largo  livra-nos  hoje da tentação de uma abordagem totalizante, antes nos convida à singularidade de leituras pontuais e diversas, capazes de progressivamente restaurarem o perfil de um homem  inquieto (V. Nemésio), no  que isto  pôde significar em termos de questionamento  e inquirição do mundo, a começar pelo íntimo, o dele  próprio – e tudo isso equacionado em palavras.

Daí que Antero se preste, enfim, a uma leitura plural, eventualmente infinita, entre a abordagem literária   e o contributo   histórico  e  factual, entre  a simples glosa  e a apropriação transformadora, entre a demanda filosófica e a política, e cada uma delas será apenas a faceta de aproximação possível a um autor que em si mesmo congregou a complexidade e as contradições do seu  tempo. Desde a leitura anteriana por   Roberto de Mesquita  no sentido (que é também sentimento)  de um irredutível exílio interior (ontológico, dirá Eduardo Lourenço), até à presença de Antero na bagagem literária do republicano  Germano de Melo,  desterrado no interior de Moçambique nos finais do século XIX (Mia Couto, Mulheres de Cinza, 2015), passando pela  investigação brasileira de Vilca Marlene Merízio (Dá ROSAS, ROSAS, a quem sonha rosas, 2013), para citar apenas alguns exemplos de ocasião, o que aí sobressai é ainda a irradiação do enigma anteriano,  a resposta ao continuado desafio  da  sua sombra tutelar.

Foi dedicado  a Antero o último  painel do 26.º Colóquio da Lusofonia,  que, entre 28 de setembro e 2 de outubro de 2016, decorreu em Ponta Delgada, na Ribeira Grande e na Lomba da Maia. Nela participaram José Andrade, João Paulo Constância, Maria João Ruivo e Eduíno de  Jesus, cujos textos se reúnem agora neste livro, proporcionando o seu acesso a um público mais alargado.

Antes do mais, importa salientar aqui a confluência anteriana de duas gerações,  a dos anos 40 do século passado, que tem em Eduíno de Jesus o último representante do seu núcleo duro, e a dos mais novos, para quem, e embora por razões diversas,  Antero é de igual modo  um próximo. E ainda, neste ano em que se completam os 125 anos da morte do poeta, ocorre uma outra efeméride, de certa forma a ele ligada: a criação, em 1946,  do Círculo Literário Antero de Quental por um grupo de alunos do então Liceu da cidade de Ponta Delgada, entre os quis se contava o próprio Eduíno de Jesus. O CLAQ constituiu  nesses anos, sobretudo a partir de 1948, um  importante polo  de dinamização literária e cultural, em termos individuais e coletivos, e sob diversificadas  formas de intervenção.

A projeção da memória anteriana e os modos de o fazer, na pedra ou na página,  a divulgação da obra do poeta e a sua apresentação a leitores jovens, uma indagação ainda sobre os meandros do pensamento filosófico de Antero, eis em síntese os conteúdos do painel anteriormente referido.

O texto de José Andrade centra-se  na «memória de pedra», ou seja, o inventário da toponímia, da  estatuária e monumentos que assinalam a presença de Antero em espaços públicos, numa surpreendente malha  que,  fora dos Açores, vai do sul ao norte de Portugal e atravessa o Atlântico para chegar a várias cidades e estados do Brasil. Naturalmente, é na  cidade natal do poeta que se concentra o número suficiente de elementos para se poder estabelecer um roteiro anteriano, também delineado por José Andrade.

João Paulo Constância ocupa-se do contributo do Instituto Cultural de Ponta Delgada para o aprofundamento da vida e obra de Antero, no domínio editorial propriamente dito e na abertura do seu órgão oficial, a revista Insulana, a quantos nela quiseram dar a conhecer os seus trabalhos sobre o poeta. Neste contexto, a edição de uma  obra como Antero de Quental – subsídios para a sua biografia, de José Bruno Carreiro  (uma obra de fôlego que só um excessivo despojamento levou o seu autor a subintitulá-la de «subsídios»),  bastaria para garantir   ao ICPD um merecido lugar no universo dos estudos anterianos, e isto sem menosprezar outras edições próprias.

Como aproximar  de Antero os leitores de hoje, os leitores jovens que frequentam o ensino secundário, agora que o poeta regressou aos programas da disciplina de  Português? Maria João Ruivo, na sua qualidade de docente, levanta esta e outras questões e avança com algumas propostas de natureza pedagógico-didática, mesmo concedendo que a complexidade não deixa de constituir um óbice a qualquer aproximação ao autor. Por um lado, apresentar Antero no seu  circunstancialismo  insular e na correlativa procura  de outros espaços físicos, o  que se traduziu também num projeto  de existência  assente numa atitude de busca permanente e de interrogação do mundo; por outro lado,  a morte do poeta como o ponto final dessa busca, assinalada nos Sonetos pelos dois textos-limite:  «Ignoto Deo» e «Na mão de Deus».

Em  carta enviada de  Ponta Delgada  a Oliveira Martins (30.05.1887), Antero confessava a sua convicção sobre «a impossibilidade de penetrarmos absolutamente, totalmente até ao fundo do problema da existência», admitindo, no entanto, que neste processo «a humildade do coração» era mais apta do que «o orgulho da inteligência» para uma aproximação à Verdade, para concluir: «Afinal, o que está está bem, o que vai vai bem. A nós o que nos cumpre é descobrir o como e o porquê  deste paradoxo universal das coisas – na certeza de que é um divino paradoxo.»

É a partir daqui e da noção de contradição que Eduíno de Jesus propõe uma abordagem à filosofia de Antero, mesmo admitindo que este é mais um pensador do que um filósofo sistemático, na medida em que é sobretudo «um espírito que questiona mais do que responde» e que responde,  contraditoriamente,  de forma emotiva ou de forma filosófica, através da paixão ou da razão, num processo interno que é ele mesmo consequência da imaginação do poeta.

Para Eduíno de Jesus, é em torno da antítese Determinismo/Liberdade  e  da  sua contradição que se deve proceder a uma indagação da filosofia de Antero, procurando compreender a natureza de cada um dos contrários  e o modo como o poeta tenta conciliá-los.

Dilucidando as formulações e os conceitos-base anterianos, chegados de  proveniências diversas (entre outras, as cartas e os sonetos,  em particular «A ideia (IV)» e  «Ad Amicos»), Eduíno descreve o pensamento filosófico de Antero como um percurso que desemboca na explicação do homem como «o lugar onde  da epifania da liberdade», ainda que imperfeita. O encontro do homem concreto com o «ser absoluto» só se concretiza com o «passo» capaz de ultrapassar «os muros da cadeia» (ou «as grades da prisão», expressão  colhida num outro sintomático poema, «Os cativos») – um passo representado pela Morte, que surge em Antero como uma necessidade metafísica, pois constitui o modo de continuar em frente quando já se esgotou o campo do ideal possível, nas limitadas condições da realidade material, concreta. Transição do ser para o não-ser (que em Antero se aproxima do que na tradição mística se chama «a união da alma com Deus»), a Morte constitui o tema de um conjunto de sonetos, entre eles o intitulado «Na Mão de Deus», cuja interpretação, refere muito justamente Eduíno, não deve ser relegada para uma reconciliação com os valores do seu catolicismo da infância.

Descritos pelo próprio poeta como «espécie de autobiografia de um pensamento e como que as memórias de uma consciência», os Sonetos abrem com «Ignoto Deo» e encerram com «Na Mão de Deus», na sua orgânica original (feita em vida do poeta  e agora felizmente restituída na edição da Livraria Solmar-Artes e Letras, 2016). Se esta disposição é significante (e creio firmemente que é), o  primeiro deles, sintomático da inquietação anteriana,   constituirá  a interrogação sobre a natureza de um Deus ou visão  que está para lá do mundo concreto e, portanto, encoberto, por desvendar, e ponto de partida para uma busca íntima e pessoal; o último representará o remate dessa demanda, a libertação do coração, a transposição das «grades da prisão», a realização da liberdade absoluta, a consecução plena do não-ser.

Em jeito de conclusão, o conjunto de textos aqui reunidos, tão diversos entre si no ângulo de abordagem, representa mais um contributo  para  a aproximação ao universo anteriano, para a compreensão do seu pensamento,  e constitui ainda uma reflexão sobre os  modos  como a sua   figura e a sua obra  puderam ser projetadas junto da comunidade e sobre as possibilidades e os meios de prolongar no futuro essa presença através dos jovens leitores de hoje.

Urbano Bettencourt

(Outubro 2016)

Prefácio que escrevi para  o livro Antero 125 anos depois. Edição da Associação dos Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental, Ponta Delgada, 2016)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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