Grotta -arquipélago de escritores

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O reconhecido vulcanólogo Victor Hugo Forjaz assina o texto de apresentação da revista de criação literária grotta, dirigida por Nuno Costa Santos e propriedade de Publiçor/Letras Lavadas Edições (#1#2016).  E tudo bate certo!

Afinal, a missão de um vulcanólogo também é dar nome às coisas, olhar o geo-mundo e as  suas manifestações e colar-lhes o nome que as singulariza e identifica perante nós (no campo social, uma actividade aproximada  talvez consista em   «chamar os bois pelo nome», embora com nuances que não cabe aqui deslindar).  Além disso,  a literatura parte da linguagem e é de palavras que se ocupa Victor Hugo Forjaz, «vulcanólogo no exílio», como se auto-designa. Mais precisamente, da palavra  grota,  nome  atribuído a ribeira, quando esta, a partir de determinada altitude, se transforma num «rego longo, fundo ou muito fundo, abrupto, tenebroso (…) longo e perigoso de saltar.»  – nome dado pelos povoadores que, neste campo, também foram rotuladores, por necessidade de organizar o mundo para que eram atirados.

Ostentando uma grafia arcaizante que reenvia simultaneamente a um tempo originário e à língua italiana, grotta parece assinalar desde logo a sua vinculação a um espaço físico, mas sobretudo cultural (veja-se a inscrição subtitular «arquipélago de escritores»), sem se conter exclusivamente nele,  abrindo caminho para outras geografias, concretizadas, neste caso, pelo dossiê de   poesia irlandesa. A diversidade é, de qualquer modo, uma das marcas deste número 1, tanto a nível de colaboradores, como de géneros e discursos.

Um breve exercício de memória, e apenas referente a revistas de criação literária nos Açores, levar-nos-á a transeatlântico (Companhia das Ilhas, direcção  também de Nuno Costa Santos) e,  mais atrás ainda, a Magma (dirigida por Carlos Alberto Machado a partir do Pico)   e a Neo (uma iniciativa de John Starkey, enquadrada no antigo Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores). Ou seja, há aqui uma persistência  em criar espaços de expressão literária abertos a gerações diversas e a abordagens heterogéneas, e em que diferentes culturas e proveniências linguísticas encontraram local de acolhimento no meio do Atlântico norte. E o levantamento não inclui o suplementarismo  literário que desde os anos 90 recuperou a dinâmica de décadas anteriores, superando-a mesmo nalguns aspectos, muito por esforço e obra  de Vamberto Freitas.

Por mera coincidência temporal, encontrava-me ainda a ler este número de grotta, quando me chegou o mais recente livro de ensaios de João Barrento, A Chama e as Cinzas. O último capítulo ocupa-se precisamente da situação da literatura «em tempos de indigência» (uma expressão que remonta a Hölderlin), a sua in-significação, a sua diluição na configuração global do mundo, num quadro cujas causas hão-de encontrar-se, segundo o autor, numa «existência sem memória» e ainda  na «predominância dos paradigmas economicistas, pragmáticos e vivenciais.», que afastaram do mundo social e cultural «o simbólico e a letra»; ora, um caminho para combater este estado de coisas passa «pela insistência e persistência na manutenção de espaços, nichos institucionais ou não institucionais». Neste sentido, grotta resulta de mais um gesto de teimosia e constitui, à sua maneira,  um nicho de valorização da palavra e da sua natureza simbólica, um espaço de manutenção da memória e da sua projecção num tempo que sendo o nosso pode ser também o futuro. Nicho ou ilha, para melhor contextualizarmos a  metáfora. Mas as ilhas movem-se,  também elas. E nem sempre se deixam ir na corrente.

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