Uma outra “Açorianidade” — um texto esquecido de Nemésio*

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Num texto datado de 1975, Vitorino Nemésio referia as circunstâncias  em que cerca de quarenta anos antes  criara o termo açorianidade: no contexto da leitura de ensaístas espanhóis, entre eles o Pi y Margall  de Las Nacionalidades e Unamuno,  e por decalque de “hispanidade” e “argentinidad”[1]. A importância desse texto (o último da  série de quatro, considerado pelo próprio autor “o mais significativo e denso” e marcado  pela  presença de alguns sinais de zanga[2] ) deriva não apenas do facto de vir a público desvelar as condições particulares de uma génese, mas igualmente do cuidado posto por Nemésio na explicitação do âmbito e dos contornos do conceito de açorianidade, deixando de parte (mas não em absoluto) algum  simbolismo e também “as imagens e o metaforismo” que assinalavam o seu texto de 1932.

Efectivamente, nesse ano, a revista Insula, editada em Ponta Delgada, dedicava o seu número 7-8 (Julho-Agosto)  à comemoração do  V centenário do descobrimento dos Açores e Nemésio aparecia aí com uma breve colaboração intitulada exactamente “Açorianidade”. Este texto, que assinalava a  entrada em circulação do neologismo   e mereceria quase de imediato um  “desenvolvimento prático” por parte  de Luís Ribeiro  (com a sequência  de artigos publicados em 1936  no Correio dos Açores e  mais tarde reunidos em volume[1]), tem constituído  um  ponto de referência no âmbito dos estudos nemesianos, em termos do que poderemos entender como  um “pensamento insular” (arquipelágico, se quisermos lançar pontes a Edouard  Glissant)  que por diversos modos e tempos se vai formalmente estabelecendo  e, no mesmo passo, enforma boa parte da  escrita   ficcional do autor[2].

Ora, acontece que, no decurso da sua investigação da imprensa açoriana da primeira metade do século XX, o Professor Carlos Cordeiro veio a deparar-se com um outro texto de Nemésio também intitulado “Açorianidade”,  publicado no Correio dos Açores de 6 de Setembro desse  mesmo ano de 1932: tratava-se, afinal, de um artigo  transcrito  do número especial do Diário de Notícias, de Lisboa,  comemorativo do…. V centenário do descobrimento dos Açores! Este texto, que  adiante se republica[3], suscita alguns comentários, em primeiro lugar sobre as conexões que, entre a  derivação e a complementaridade, estabelece com o outro originariamente vindo a lume no número de Insula, lançando luz sobre aspectos não aflorados neste último e com isto também procedendo a uma abordagem  sob ângulos diferenciados, a que não serão  alheios o contexto de comunicação e os  leitores visados.

Se a reincidência no mesmo título não deve ser levada à conta de uma eventual distracção, hipótese que as circunstâncias editoriais e o propósito da colaboração ajudam a afastar, o que transparece dessa repetição terá,  então, muito mais a ver com uma manifestação da “impulsividade afirmativa” referida por Nemésio em “Açorianidade” e que o leva a aproveitar a efeméride  e as respectivas celebrações  para trazer  a público  uma reflexão sobre a condição insular açoriana, enquanto realidade cujas origens históricas entroncam directamente nos descobrimentos quatrocentistas. Fugindo àquilo que já uma vez referira como  “os hinos à terra, no estilo das caravelas e das cruzes de Cristo dos cinzeiros”[4], Nemésio prefere falar  da sua “consciência de ilhéu”,  e por isto há-de entender-se o particular modo de ver e sentir o mundo, em íntima relação com  a percepção e a  vivência do espaço (sintomaticamente, a enunciação singular do eu dará lugar ao colectivo nós). Se é  certo que em “Açorianidade”  Nemésio  põe lado a lado  o contributo da história e o da  geografia na formação do homem açoriano[5] e da sua  mundividência, com a reconhecida afirmação de que “a geografia, para nós, vale outro tanto como a história”, não é menos verdade que aí o autor se ocupa muito mais dos aspectos atinentes ao espaço,  à geografia, que ajudaram a moldar e diferenciar esse português de Quatrocentos que deixou a casa histórica peninsular para nunca mais regressar o mesmo (como já escreveu Eduardo Lourenço, que cito de cor).

A história, essa,  estava destinada a “Açorianidade [II]”, onde constitui o núcleo central do discurso, numa espécie de lição expressamente dirigida ao público continental, daí a particular insistência de Nemésio nos diferentes modos e vicissitudes do relacionamento histórico entre Portugal e o território insular. Distanciação, desinteresse, esquecimento — poderão ser termos para designar a realidade dessa relação e que, pelas suas consequências, explicarão em parte o fenómeno da emigração e o seu papel estruturador da sociedade açoriana; neste campo, a interpretação de Nemésio parece-me um pouco benigna, pois deixa fora de consideração questões de sobrevivência  e factores de natureza económica que se situarão na base da fuga açoriana para o Brasil ainda no séc. XIX, em condições tão desumanas e trágicas que só muito remotamente a simples “sedução do mar envolvente” poderia levar a enfrentar (isto sem esquecer, todavia, que Nemésio será o autor açoriano em que mais repercute, literariamente, a emigração para o Brasil).

Num outro domínio de anotações, convém salientar que em “Açorianidade [II]” Antero volta a ser apresentado como o exemplo da inquietação insular (e repare-se como, através da inquietação, subtilmente o texto reafirma a íntima ligação entre espaço e homem), tal como já acontecera em “O Açoriano e os Açores” e mesmo em “Le Mythe de Monsieur Queimado”, em que  Antero passa por ser o único europeu nascido no espaço tão longínquo e deserdado dos Açores (Monsieur Queimado considera-o, porém, “um açoriano infiel”). E, se quisermos entrar pelas ironias da história, não podemos deixar de confrontar o desejo aqui expresso de “uma estação naval e aérea” para os Açores com o que cerca de vinte anos mais tarde o próprio Nemésio escreverá sobre a Base das Lajes em Corsário das Ilhas  ou então em Festa Redonda, onde aquilo que era sonho em 1932 se transformou em lamentação e quase pesadelo nas vozes líricas das “Cantigas ao Campo das Lajes”.

Complementando o outro texto do mesmo ano e com idêntico título, “Açorianidade [II]”  vem ainda alargar o corpus daqueles textos (citados ao longo desta nota) em que Nemésio formula, através de aproximações sucessivas, o seu pensamento insular. Eles exigiriam talvez, para melhor clarificação, um estudo de conjunto que detectasse e sistematizasse as suas linhas de força fundamentais e, numa fase posterior de articulação, permitisse equacionar as relações existentes entre esse campo teórico e a ficção narrativa de Nemésio (já noutro lado referi a existência de algumas ligações, não perigosas, entre “Le Mythe de Monsieur Queimado” e Mau Tempo no Canal).

 

Em momento de conclusão, apetece voltar de novo a Nemésio: “Há-de haver sempre na nossa vida de ilhéus uma mágoa abafada: não podermos gritar aos outros que a nossa singularidade não é dessas, das que desonram pela estultícia, mas a singularidade do isolamento, a reposição do homem no indivíduo e no adâmico, o Jardim das Oliveiras com um mísero e pobre suor”[6]. Apesar da persistente actualidade da citação (ou talvez por causa dela), esta seria decerto uma nota demasiado melancólica para entoar em tempo de centenário; acrescento-lhe por isso uma outra, colhida em Sapateia Açoriana, não como forma de negação, mas mais em jeito de suplemento de optimismo: “a minha vida está velha/ mas eu sou novo até aos dentes”.

 

Urbano Bettencourt

                                                                                            Abril/2000

***

Açorianidade  [II] 

Vitorino Nemésio          

“O descobrimento português dos Açores em 1432 vale como prefácio das grandes devassas marítimas que culminaram no fim do século com a rota da Índia e o achado do Brasil. Portugal, fixado como território da Península, limitara a noção de “aquém e além” ao peristilo  mediterrâneo: ia alargar pelo mar tenebroso os seus limites de água e criar em orlas remotas núcleos de alargamento.

Em si mesmos, os Açores valiam pouco. Talvez significassem a princípio uma possibilidade de rumo português à alta América, tentado pelos Corte Reais, João Fernandes, navegadores meio obscuros como aquele Pero de Barcelos cuja inscrição tumular gastavam os pés dos pescadores na Igreja da Misericórdia da Vila da Praia da Vitória. A lenda, que Chateaubriand se apressou a recolher nos Natchez, descobria um penedo antropomórfico nas solidões do Corvo que parecia apontar nesse sentido. Mas a breve trecho as ilhas remergulharam no silêncio, salvado apenas pela onda das enchentes nas horas de drama telúrico.

Por isso o destino dos Açores me parece ser historicamente um limbo de obscuridade. A sua história interna, própria, sem intromissões de fora parte, desenvolve-se num quadro de pequenas vicissitudes que só alguns dramas, encenados lá, vão quebrando. As ilhas fizeram-se viveiro de experiências políticas exteriores. Para lá foi tentar resistir D. António, e a Restauração  montou ali tardiamente a sua máquina.

Mas a grande página de história insular é o Liberalismo. O português  que se sente novamente europeu lá vai preparar, depois do exílio, a invasão da europeidade — e o Robinson nacional encontra na Terceira a sua ilha. É — di-lo Herculano — “o rochedo da salvação”.

Com efeito, a grande aventura não podia encontrar melhor teatro do que essas ilhas perdidas e  meio dormentes no Atlântico, que  Palmela, obrigado a amplificar tudo por exaltação romanesca e por táctica, chamava os “Estados da Rainha”.

Afora estes dramas, cuja emotividade se destinaria a embeber de aventura o ilhéu preso, permanecendo-lhe até certo ponto como que alheia  e excessiva, a vida açoriana insistia numa mediocridade deliciosa, feita de mar e de lava, e do que o mar e a lava precipitam: sargaços, peixes, piratas, um pouco de enxofre e sismos. Neste círculo se apertava  a vida do açoriano, até que a  sedução do mar envolvente se tornava mais forte do que ele. Vinha a emigração.

Para um país que fosse  senhor dos mares e não  simplesmente o seu primeiro ocupante histórico (uma Inglaterra, uma América do Norte ou mesmo uma Itália inquieta e bastante provida de estaleiros), os Açores seriam uma destas  bases de refresco cheias de idas e vindas, povoadas de um alto frenesim que, a par das nuvens, acrescentaria ao crocitar dos cagarros o roncar dos aviões. Assim, com uma velha canhoneira em estação num dos portos, fazendo no Verão a escala turística das suas cidadezinhas, Portugal tem mantido naquelas solidões uma soberania obscura, indisputada e modesta.

São terras de paz e de esquecimento. Levaram quatrocentos anos para darem à Metrópole o espírito português mais inquieto — Antero de Quental — e mantiveram-se no seu magnífico apartamento, como afloramentos destinados apenas às garras das aves marinhas.

Eram o património dos altos infantes de Avis. O ducado de Viseu e o senhorio da Covilhã aumentavam-se daquelas possessões sem rendimento nem futuro, que davam às vezes aguada às naus da Índia depois que Vasco da Gama foi deixar na Terceira o cadáver do irmão. Melhor do que o túmulo de Paulo, os Açores deviam ter sido a campa solene onde ardessem constantes os lumaréus do mar. Têm, não sei porquê, a configuração de túmulos, e uma imponência a que as nuvens baixas dão uma luz de cripta. Temo que não são terras vivas. Falta-lhes a tal animação que só lhes viria de uma estação naval e aérea — do sonho, enfim, que não está nas nossas cansadas mãos fazer realidade.

E, todavia, lá vivem almas portuguesas das rijas e lá se passa uma comédia humana que tem, pelo menos, a grandeza da solidão.

Soa meio milénio sobre o descobrimento das ilhas e o tempo festeja-se a si  mesmo com alguns dramáticos tremores. A Povoação, onde aportaram os primeiros colonizadores idos da ilha vizinha, rui para se lembrar. Não parece um capricho do destino em reservar aquelas terras para palcos de vida obscura e apesar de tudo inquieta?”

 

NOTAS

[1] Vitorino Nemésio, “Açores: de onde sopram os ventos” in  Açores – actualidade e destino, Comentários de João Afonso, Angra do Heroísmo, Edições Atlântida, 1975.

O livro  reúne quatro artigos publicados no Jornal Novo, de Lisboa, em Setembro desse ano, e transcritos em vários jornais açorianos, entre eles o Diário Insular, onde inicialmente saíram os comentários de João Afonso.

[2] Alusão ao poema “Corsários à Vista”,

[3] Luís Ribeiro, Subsídios para um ensaio sobre a açorianidade, Informação Preambular, Notas e Bibliografia por João Afonso, Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 1964.

[4] Questionado e re-enquadrado por Onésimo Teotónio Almeida em diversas ocasiões, o conceito de Açorianidade tem revelado a sua validade operatória nos trabalhos de José Martins Garcia, António Manuel B. Machado Pires, Heraldo Gregório da Silva, entre outros.

[5] Actualizou-se a ortografia e introduziu-se a indicação numérica para distingui-lo do de Insula, que se designará simplesmente por “Açorianidade”.

[6] Vitorino Nemésio, “O Açoriano e os Açores”, in  Sob os Signos de Agora, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932 (2.ª ed., 1995).

[7]  A tese nemesiana de “uma estrutura autónoma” e de um homo açorensis sem antepassados, com uma história sem Antiguidade, sem Idade Média, sem Renascença nem humanismo, encontra-se em “Le Mythe de Monsieur Queimado”, texto publicado no Bulletin des Etudes Portugaises et de l’Institut Français au Portugal, tomo VII, Coimbra,  décembre, 1940.

Trata-se de uma Conferência proferida em Nice e que merecia uma tradução portuguesa que lhe proporcionasse uma maior divulgação.

 [8] Vitorino Nemésio, “Nota sobre Antero”, in Aventura, n.º 2, Agosto, 1942.

***

*Publicado  em   Vitorino Nemésio.1.º Centenário do Nascimento 1901-2001. Separata da revista  Atlântida, Vol XLVI, 2001. Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura. pp. 321-324..

 

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