ELAS

Capa Livro_Mulheres Açorianas

Há, obviamente, os homens que se cruzaram com algumas delas na vida e com elas  partilharam percursos de companheirismo e de solidariedade  ou, em sentido oposto,  se tornaram contrapesos, náufragos a quem foi necessário lançar a mão e resgatar do abismo. Mas o foco das biografias reunidas neste volume está centrado no universo feminino, na vida de um conjunto de  mulheres e no modo como elas enfrentaram os desafios que, em cada momento, a sociedade e a vida lhes colocaram, abrindo caminhos onde, por vezes, surgiam muros aparentemente intransponíveis.

Independentemente das  circunstâncias concretas em que surgiu este projecto e da moldura precisa que rodeou  o seu aparecimento e posterior desenvolvimento, importa determo-nos no resultado final, isto é, o conjunto de biografias  realizadas e proceder à  leitura de algumas das suas linhas de força.

No contacto com  esta obra, uma das primeiras impressões poderá ser a de proximidade, que resulta do conhecimento imediato, por vezes da convivência pessoal, do leitor ou da  leitora com algumas das biografadas. Com efeito, no conjunto das mulheres aqui reunidas encontram-se figuras cuja presença  ao longo do tempo, e  de uma forma ou de outra,  reconhecemos no quotidiano e na sua interacção com a colectividade. Noutros casos, mesmo sem essas marcas directas, há nomes destes que se nos tornaram familiares, no entanto, pela aura de respeitabilidade com que chegaram até nós, conseguida por aquilo que sabíamos da sua  intervenção no  espaço e no contexto social, em prol do bem comum. Finalmente, há ainda nomes que só agora descobrimos,  graças a este livro e à efectiva proximidade entre eles e os respectivos biógrafos. E não se veja nisto qualquer problema. Se «a biografia é uma velha ciência que raro se deu por tal» (V. Nemésio), os métodos de pesquisa, inventariação e  elaboração que a suportam não afastam de todo a possibilidade de uma empatia para com o objecto de que se ocupa, como forma de humanizar um perfil para lá dos elementos históricos e factuais que o configuram.

Das biografias de dezoito mulheres açorianas reunidas nestas  Vidas e do olhar atento que sobre cada uma delas  é lançado, reteremos as diferentes formas de empenhamento pessoal  em diversos campos de acção, no ensino e na educação, na cultura e na assistência social em domínios restritos,  mesmo até  no núcleo específico da vida familiar e naquilo que ele representa em termos de educação, da sua exigente, por vezes penosa, gestão diária de modo a promover a satisfação das necessidades elementares; como reteremos ainda uma sabedoria de vida e a  sua  irradiação sobre o mundo dos outros. São vidas organizadas e preenchidas  à escala do pequeno mundo insular e a essa mesma luz devem ser interpretadas, sem que isto lhes reduza o significado e a relevância enquanto práticas de promoção social (e mesmo o caso particular de Natália Correia deve ser visto ainda como o de uma mulher que sai do remoto e abreviado mundo atlântico para ocupar  fora do seu espaço o lugar que todos lhe reconhecemos); alguns testemunhos recolhidos constituem a prova de como pequenos gestos individuais e localizados ganham um amplo alcance pelas suas  consequências no domínio colectivo.

Para lá disso, de uma pura dimensão individual, por aqui circulam elementos que permitem configurar um determinado tempo insular, precário e de penúria por vezes, mas em que o ensino e a educação eram valorizados como factor de promoção pessoal e social, daí o esforço e as batalhas travadas, nalguns casos, para aceder a um e a outra. Nesta leitura colateral, resulta também a perspectiva dos Açores como encruzilhada, lugar de chegadas e principalmente de partidas para oeste, com as  mulheres e os  homens empurrados pela «fome de pão e de distâncias» (Pedro da Silveira) para as rotas  da emigração – e tudo isto a condicionar, por vezes, o destino individual, os encontros e também os desencontros de algumas vidas.

Se estas Vidas conseguirem, em síntese, aproximar-nos mais destas mulheres, do seu universo pessoal, e revelar-nos uma outra dimensão para lá da superfície e do quotidiano, mesmo daquelas que conhecemos pessoalmente – então elas terão cumprido um dos seus propósitos centrais, o de evitar o silêncio e o esquecimento  e  de, ao mesmo tempo,  relembrar-nos como a vida individual se faz também de pequenos gestos e de sonhos e cuja concretização se projecta, sob diversos modos, no mais vasto mundo colectivo.

U.B.

Prefácio ao livro Vidas Mulheres Açorianas,

coord. de Ângela Furtado-Brum.

Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017

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