Escritas insulares – fragmentos e derivas

GROTTA 2.

  1. «A Inglaterra é uma ilha.»

Lida   a esta distância e na sua forma assertiva,   a frase de Michelet parece abstrair da geografia para  transformar tudo em  (história)  política. A retórica pode explicar muita coisa, a pose também.  Por isso,   fica sempre a questão: quais os  contornos semânticos, os registos subjectivos que envolvem esta forma de rotular o outro, o diferente,  como uma «ilha»? Ou ainda:  para quem olha do continente, uma ilha é o quê? O que se num pedaço de terra, maior ou menor, avistado às vezes, outras vezes apenas suposto e reduzido a uma vaga imagem a que nem o nome acrescenta conteúdo algum?

Há  ilhas a que já chamaram adjacentes, situadas à distância física de três ou quatro dias de viagem, remotas e desconhecidas apesar da etiqueta política e administrativa. Adjacentes: assim como quem diz coisa sobre a qual se põe  o pé em sinal de posse. A pose. E a rasura da geografia, uma vez mais.

Nemésio precisou, por isso,  de deixar escrito que, para um ilhéu não distraído, não alienado, a geografia vale outro tanto como a história. De  forma aproximada, dirá Jean-Claude  Fignolé, seis décadas mais tarde e noutro canto do mundo: em nenhum espaço como na ilha a geografia se ligou tão intimamente  à história.  Lugar de chegada a que aportaram os    homens, território  desconhecido que amaciaram  e onde fizeram  casa, para a abandonarem   mais tarde, muitas vezes forçados pelo incontrolável poder da natureza. A ilha-viveiro, para retomar Nemésio.

  1. De que ilha(s) falamos?

No número inicial de grotta, Pedro Santo-Tirso assina  um texto em que levanta algumas questões sobre o conceito  de «ilha», não na  descrição taxativa  da corografia oficial, mas no âmbito de uma percepção outra, mais íntima e pessoal. Manhattan é uma ilha? – pergunta ele. Os tratados dizem que sim. E a  Irlanda também é. No entanto, foi a esta última que recorreu para proceder à  simbiose intelectual e imagética que faz o viajante sair da  Matriz de Ponta Delgada e  desembocar  na Porterhouse em Dublin – como preparação para um dossiê de poesia irlandesa apresentado pela revista. Aproximações e afinidades a Norte,  não a Oeste. Ilhas.

O que há, então, numa ilha para lá do simples recorte geográfico da cartografia?

Pode  sempre pensar-se  em três elementos clássicos: a relação do litoral com a superfície, a influência do mar e o isolamento (Lucien Febvre). Mas eu   substituiria,  desde logo, isolamento por distância, entendida já não tanto como um elemento físico, mas sobretudo como percepção e experiência subjectiva de quem se sente  longe, separado, e entre o  aqui e o vê entrepor-se  imensidão do espaço, para mais fluido e instável – e sabe também que só nos confins da imensidão  encontrará o   outro, condição para a identidade própria.

Imaginar o longe, o exterior.  Olhar para o interior: centrar a atenção  no presente, sem perder de vista  o passado e o seu lastro.  Dizer isto é adiantar outra questão: a ilha existe enquanto ilha pensada, objecto de um discurso que organize os seus modos de ser, a sua história, os questione  e lhes dê um sentido; que refaça os seus mitos e lugares, os reinvista em novos saberes e práticas. A ilha  é função da cultura que assumidamente se constrói com a consciência da singularidade e do particular (reenvio a Anne Meistersheim).  

Ambiguidade, portanto: fechamento   e abertura, «domicílio inviolável» e porto aberto ao diferente.

  1. (muito) Para lá da paisagem

A  primeira experiência da aproximação às ilhas  pode ser a da paisagem, real e irreal ao mesmo tempo, singular e  desregulada em relação ao esquematismo continental (simplificação minha de  um pensamento de Edouard Glissant). Isso  ainda antes de se tomar consciência do drama humano de cada ilha, da rede complexa de relacionamentos e dos seus processos colectivos, da sua história. 

Olhando de dentro e do alto, Derek Walcott falará também da descoberta da beleza da paisagem, da experiência do novo e do tempo abolido ou suspenso. Mas não deixará de referir igualmente  a «consciência do lugar» em que se está (a que se pertence). 

A ilha: espaço povoado, humanizado. Por gentes que construíram o seu destino e ganharam, a suor e a sangue, o  lugar à mesa em que possam partilhar o seu pão e a sua voz – e  cuja dignidade irredutível esteja a salvo de romantismos serôdios  ou do folclorismo exótico.

Há um «Momento» em que Pedro da Silveira sintetiza tudo isto, passando da  descrição da paisagem  florentina à  constatação  pessoal em contraste  conclusivo: «Mas o que eu vejo não é a paisagem, bela ou feia. // O que eu vejo / são estas mulheres vestidas de preto, / o rosto escondido num lenço preto, /as mãos deformadas de cavar a terra. / Novas, velhas, sem idade.»

A reversão da paisagem. Um programa de escrita contra o lirismo das hortas.

  1. Metáforas da inquietação e da ambivalência

E diria o Eclesiastes: há um tempo para tudo na ilha. Há um tempo de partir e um tempo de ficar, um tempo de silêncio e outro de rumores vindos   de longe, um tempo de cerrar janelas e outro de abrir  portas ao vento e às aves marinhas. Um  tempo de recusar o mundo e um tempo de abraçá-lo.

A condição insular como uma oscilação  entre a permanência e a errância, entre o auto-centramento e a deriva que leva à  descoberta. 

Metáforas para uma síntese: o «apetite de solidão» (V. Nemésio) e o «apetite do mundo» (E. Glissant).

  1. «O meu desejo abarca todas as ilhas do Mar.»

Na «Arte Poética» de Pedro da Silveira, a ilha  é o espaço a ser descoberto (conhecido), num processo mediado pelo Mar, naturalmente. À rotina e à mesmidade  associadas  às grandes extensões sólidas e inamovíveis, o poeta contrapõe a fluidez dos horizontes marítimos e a pequena dimensão dos  territórios insulares. Neste contexto, a presença do Mar é um  permanente  convite  à viagem, às viagens, como desafio e prova, caminho aberto à aventura e ao risco, à ultrapassagem dos próprios medos e constrangimentos. As ilhas erguem-se, então,  como  «sobressaltos» (vocábulo do próprio poeta)   capazes de concitar a atenção do sujeito e de proporcionar-lhe momentos de descoberta do diferente no mesmo. Ilhas empíricas, visitadas fisicamente ou literariamente, apenas avistadas ao longe mas tornadas próximas pelo olhar do poeta, pelo traço cultural que as torna íntimas  e lhe permite apropriar-se delas.

Viajar, ganhar ilhas.

  1. Chegar ao continente

Marseille est une ville charmante – dizia  a rapariga, já sobre o cais   e à vista dos jardins de mastros onde por vezes crescem flores embandeiradas.

A «jeune fille açoréenne» que Nemésio assim nos apresenta  tão encantada e tão à vontade em terra firme continental deixou para trás e em definitivo o seu território insular.  Podemos vê-la atravessar os detritos  da cidade, as suas inutilidades, cascas de laranja, caixas de fósforos, um rabo de sardinha. Sem perder o traço das origens: a oferta materna da saia comprida a que agora se prendem essas coisas miúdas, sinais de um mundo novo que acolhe os seus passos, os seus sapatos azuis. E a pensar que ninguém será capaz de imaginar quão distante  se encontra ela  da sua terra. 

Ilha ao longe.

Uma história de viagens: da ilha ao cais, do  cais ao Colégio de raparigas – nova clausura, uma  lonjura em inversão. Viagens reais ou  imaginadas.  A rapariga açoriana que na viagem de comboio é invadida por sonhos entremeados de fortes imagens eróticas e literárias há-de, após o desembarque, apagar o giz das marcas alfandegárias na bagagem e tentar silenciar o mugido das vacas que, lamentavelmente,  já não poderá alimentar nem ordenhar. Percorrer distâncias, abolir fronteiras, mas viver em perda.

Desfecho: a descoberta, pelo leitor,  do poema como um sonho do poeta, transfigurado ele próprio  na rapariga cuja  virgindade  o diabo tentará confirmar e desfazer.  A escrita pensada como um  jogo de imagens em desdobramentos, transposições, confrontando a abertura ao novo, ao diverso, com a fidelidade às origens. Sentir-se bem no mundo sem romper os laços com o próprio lugar.

Ou então, em síntese final, e recorrendo ainda a E. Glissant: conceber,  pelo imaginário, a globalidade evasiva do caos-mundo e ao mesmo tempo reter dele algum detalhe e,   em particular,  cantar o nosso lugar, insondável e irreversível.

Urbano Bettencourt

( revista grotta n.º 2)

 

 

 

 

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