Nemésio, le milan voyageur

Nemésio. Uma página

Esta ave das ilhas, que o nosso olhar surpreende   numa língua outra e muito longe do seu chão, vem dos fundos do tempo nemesiano  anunciar-nos os seus domínios à beira do Atlântico. Desde o ano de 1924,  em que surge no    título, Paço do Milhafre,    da sua obra  narrativa inaugural e de  um soneto, esse  «milhafre sabido» tudo observa e tudo guarda, para reviver  em memória, à  distância: ave de altura  e lentidão.

Ave de rapina? Só nos manuais de zoologia, que tendem  a ignorar a língua íntima das coisas e dos seres. No bestiário pessoal  de Nemésio, o milhafre é sobretudo o medium  de uma revisitação do território aconchegado  da infância na ilha, o «ovo bicado e quente»  deixado no mar, objecto desse olhar de mormaço que de longe lhe lança o escritor. E, ao contrário do  que  diz a ciência,  é uma «alma de bico melancólico» que lhe instilou na carne o desejo da partida e da viagem.

Temos, assim, condensadas na convocação  simbólica da ave açoriana, a ambiguidade que atravessa  grande parte da escrita de Nemésio: uma radical ligação ao espaço de origem  e a necessidade de projectar-se para espaços abertos e desconhecidos.

Uma outra imagem para isso, ou seja, para essa ambiguidade: a figura da «jeune fille açoréenne»  que Nemésio   faz desembarcar em Marselha, tão deslumbrada e tão à vontade nesse território continental. Aí a vemos atravessar os detritos  da cidade, cascas de laranja, caixas de fósforos, um rabo de sardinha,  as suas inutilidades. E sem perder o traço das origens – a oferta materna da saia comprida a que agora se prendem essas coisas miúdas, sinais de um mundo novo que acolhe os seus sapatos azuis. E a pensar que ninguém será capaz de imaginar quão distante  se encontra ela  da sua terra. Mesmo que apague na bagagem  o giz das marcas alfandegárias, ela não conseguirá deixar de ouvir o mugido das vacas longínquas que, lamentavelmente, já não poderá alimentar nem mungir.

E se,  num outro momento, a anónima jovem açoriana  ganhasse direito a  um nome próprio? E se chamasse Margarida,  para tornar-se a protagonista de Mau Tempo no Canal ? E  também ela fosse aqui o rosto e o corpo de uma inquietação que é apenas o sinal manifesto de uma tensão interior entre o apego à terra e o impulso para a descoberta do mundo oculto por trás  do horizonte?  Tudo isso traduzido, afinal, num questionamento do  passado e do presente, da história e do seus enigmas, da geografia e dos seus mistérios: a condição humana nas ilhas.

Milhafre, jovem, Margarida: que são os nomes senão jogos de máscaras, sinais de ausência? Talvez mesmo da ausência de um nome outro que sob aqueles se disfarçou, sem ocultar os traços de um espírito simultaneamente ancorado  e errático: Vitorino  Nemésio.

Urbano Bettencourt

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2 thoughts on “Nemésio, le milan voyageur

  1. Caro Urbano,

    Este teu texto “Nemesio,le milan voyageur” é excelente! Da gosto de ler.
    Destaquei o trecho abaixo – porque está bem aqui o quero verificar em diferentes protagonistas essa inquietação entre o apego à terra e o impulso de sair a descobrir o mundo além do horizonte.

    “E se, num outro momento, a anónima jovem açoriana ganhasse direito a um nome próprio? E se chamasse Margarida, para tornar-se a protagonista de Mau Tempo no Canal ? E também ela fosse aqui o rosto e o corpo de uma inquietação que é apenas o sinal manifesto de uma tensão interior entre o apego à terra e o impulso para a descoberta do mundo oculto por trás do horizonte?”

    Será que este sentimento da condição de cerco está presente nos autores da Madeira? Será que tens a mão o artigo que escreveste sobre o livro O último cais de Helena Marques que retrata muito bem a condição da mulher (séc. XIX à actualidade). Podes enviar ?

    E um escritor homem?

    Vamos a isso…e o título?

    Um abraço grande

    Lelia

    Enviado do meu iPad

  2. Magnífica visão! Uma visão ilhéu, um antídoto poderoso para os sentimentos. Emocionei-me. O que é raro ocorrer. Perante este texto ouso perguntar, que sentido tem fazermos aquilo que fazemos, neste caso, que escrevemos?

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